Pelo mundo fora


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Cascatas da Namaacha: sete anos depois da seca

terça-feira, 22 de abril de 2008

NOVA LISTA DE PECADOS PELO VATICANO?

Quem frequentou a catequese lembrar-se-á, ainda que vagamente, dos sete pecados capitais: soberba, inveja, gula, luxúria, ira, avareza, preguiça.
O Osservatore Romano, jornal oficioso do Vaticano, publicou, no passado dia 9 de Março, uma peça com o título "As Novas Formas do Pecado Social", a partir de uma entrevista com mons. Gianfranco Girotti, bispo do tribunal da Penitenciária Apostólica, organismo da Santa Sé. Mons. Girotti, depois de lembrar que o pecado "é sempre a violação da aliança com Deus e os irmãos", referiu que há várias áreas dentro das quais deparamos hoje com atitudes pecaminosas referentes aos direitos individuais e sociais.E enumerou-as: "Antes de mais, a área da bioética, dentro da qual não podemos não denunciar algumas violações dos direitos fundamentais da natureza humana, através de experiências, manipulações genéticas, cujos êxitos são difíceis de vislumbrar e ter sob controlo. Outra área, propriamente social, é a área da droga, com a qual a psique enfraquece e se obscurece a inteligência, deixando muitos jovens fora do circuito eclesial. Mais: a área das desigualdades sociais e económicas, nas quais os mais pobres se tornam cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos, alimentando uma injustiça social insustentável. E a área da ecologia, que reveste actualmente um interesse relevante."(X)

BOCAS DE WOODY ALLEN (*)

* "A vocação de um político de carreira é fazer de cada solução um problema".
* "Às vezes me perguntam por que trabalho tanto. É porque, quando ficar velho, quero pôr meus pais num asilo".
* "Certo dia, atrasei-me ao voltar da escola e meus pais pensaram que eu havia sido sequestrado. E aí entraram imediatamente em acção: alugaram meu quarto".
* "Como posso acreditar em Deus se, na semana passada, prendi a língua no rolo de minha máquina de escrever?"
* "Eu detestaria concluir que, sem Deus, a vida não teria sentido e, depois de dar um tiro nos miolos, ler no jornal no dia seguinte que Ele foi encontrado".
* "Meus reflexos não são muito bons. Certa vez fui atropelado por um carro que estava sendo empurrado por dois sujeitos".
* "Na Califórnia não se joga o lixo fora. Eles o reciclam na forma de programas de TV".
* "Não despreze a masturbação - é fazer sexo com a pessoa que você mais ama".
* "Não que eu esteja com medo de morrer. Eu só não queria estar lá quando isso acontecesse".
* "Se Deus existe, por que Ele não me dá um sinal de Sua existência? Como, por exemplo, abrir uma bela conta em meu nome num banco suíço".
* "Para você eu sou um ateu; para Deus, sou a Oposição Leal".
* "Sexo é a coisa mais divertida que eu já fiz sem rir." (X)

(*)Humorista, comediante e cineasta americano.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

O PÃO NOSSO DE CADA DIA

O Director do Fundo Monetário Internacional, disse recentemente o que já tanta gente anda a dizer há muito tempo: que se os preços dos alimentos continuarem a subir, as consequências serão terríveis e sabe-se já que este tipo de questões às vezes acaba em guerra.
África é o continente mais desmunido e, por isso mesmo, mais vulnerável.
Robert Zoellick, do Banco Mundial, avisa que dezenas de países poderão confrontar-se com crises sociais graves.
No continente africano o impacto dos preços é já bastante forte e as soluções, para já, não são muitas.
A "revolução verde", defendida pelo secretário-geral da ONU, desencadeada a partir da transformação da agricultura africana, será, avançando, uma parte da solução e apenas a prazo.
Alguns exemplos:

* na Guiné-Bissau, o pão e o arroz são bases fundamentais da alimentação nacional e as comunidades, confrontadas com três aumentos do preço do pão em apenas um mês, começam a regressar "à comida da terra", ou seja, à batata, inhame, manga e caju.

* Em Moçambique, experimenta-se a adição de farinha de mandioca, seguindo, afinal, o caminho que o Brasil foi trilhando, fazendo render, de forma crescente, o seu velho alimento de base, a mandioca.
O chamado “pão francês”, o mais popular no Brasil, há muito que é feito com dez por cento de farinha de mandioca e o mais provável é que a percentagem vá subindo, a menos que também venha a mandioca a entrar no domínio da especulação global.(X)

PARA FRANCESES, SARKOZY PROVOCA "CHOQUE CULTURAL"

Depois de quase um ano de mandato, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, raramente mencionou a arte ou a cultura. Uma das poucas vezes em que tocou no assunto, foi quando declarou no último mês de fevereiro que a cozinha francesa deveria ser considerada como patrimônio da humanidade pela Unesco.
O general De Gaulle tinha André Malraux ao seu lado. François Mitterrand reformou o Louvre. Pouco antes de deixar o cargo, Jacques Chirac abriu um grande museu para culturas não-Ocidentais.
Todo presidente francês desde o fim da 2.ª Guerra construiu algum museu faraônico, uma casa de ópera, biblioteca ou iniciou algum programa cultural. Isto é, até agora.
Dizem que o gosto do actual presidente está mais para Lionel Ritchie e Céline Dion (Mitterrand lia Dostoievski, já De Gaulle preferia Chateubriand). A afeição do actual presidente pelo showbizz e o seu casamento com uma modelo-cantora italiana se combinaram para produzir algo como um choque cultural.
"Uma ruptura", como define o cientista político Pascal Perrineau ou "uma mudança incrível", como diz Jean Lacouture, biógrafo de De Gaulle.
Nos últimos dias, as bancas de jornal francesas mostravam uma edição especial da publicação satírica Le Canard Enchaîné que trazia uma outra foto de Sarkozy nos seus usuais Ray-ban em um iate. Tanta pose rende insultos como "Sarkô, o americano".
Sarkozy é o primeiro líder moderno francês que não se formou nas escolas da elite e tem alguns hábitos que irritam os franceses, como durante a sua visita ao papa no Vaticano ficar enviando mensagens de texto para o celular de alguém enquanto estava com o líder católico.(X)

quinta-feira, 17 de abril de 2008

FESTIVAL DE MONTREUX TERÁ QUINCY JONES E GGIL

Quincy Jones fará um concerto para comemorar seu 75º aniversário no Festival de Jazz de Montreux, entre 4 e 19 de julho, que também terá Joan Baez, Herbie Hancock e Gnarls Barkley, anunciaram na quinta-feira (17) os organizadores.
O ministro da Cultura do Brasil Gilberto Gil vai cantar em 12 de julho. Um dia antes, será a vez de Chico César, e um dia depois, de João Bosco e Milton Nascimento.
A 42ª edição anual do festival suíço terá também o norte-americano Paul Simon, o compositor canadense Leonard Cohen e Lenny Kravitz.
Jones, produtor e compositor que tem uma filha com a atriz Nastassja Kinski, está entre os três maiores ganhadores de Grammy de todos os tempos, acumulando 27 troféus.
Quase 90 grupos ao todo vão se apresentar nos dois palcos principais de Montreux.
O ingresso mais caro custa 380 dólares, para a noite de Quincy Jones, mas haverá outros concertos às margens do lago Genebra que serão gratuitos.(X)Quincy Jones fará um concerto para comemorar seu 75º aniversário no Festival de Jazz de Montreux, entre 4 e 19 de julho, que também terá Joan Baez, Herbie Hancock e Gnarls Barkley, anunciaram na quinta-feira (17) os organizadores.
O ministro da Cultura do Brasil Gilberto Gil vai cantar em 12 de julho. Um dia antes, será a vez de Chico César, e um dia depois, de João Bosco e Milton Nascimento.
A 42ª edição anual do festival suíço terá também o norte-americano Paul Simon, o compositor canadense Leonard Cohen e Lenny Kravitz.
Jones, produtor e compositor que tem uma filha com a atriz Nastassja Kinski, está entre os três maiores ganhadores de Grammy de todos os tempos, acumulando 27 troféus.
Quase 90 grupos ao todo vão se apresentar nos dois palcos principais de Montreux.
O ingresso mais caro custa 380 dólares, para a noite de Quincy Jones, mas haverá outros concertos às margens do lago Genebra que serão gratuitos.(X)

segunda-feira, 31 de março de 2008

Xinderi de Primeirissíma

Trés instrumentos mexem com a minha sensibilidade musical – o Bandolim, o Banjo e a Cítara. Todos eles de cordas.
Não significa isso que os acordes da viola acústica, o piano ou a flauta ou outros instrumentos não tenham esse dom de agradar qualquer ouvido minimamente educado para absorver a boniteza de quaisquer que sejam os sons: o duelo entre namorados de Xiricos preparando-se para o acasalmento ou o coaxar bem sincopado de uma “orquestra” de rãs tendo como palco uma lagoa no silêncio audível de uma noite molhada – tudo isso faz-me bem a alma. É como que um tónico.
Mas é do Banjo, da Cítara e sobretudo do Bandolim que me proponho escrever, depois de, numa madruagada em que o sono vinha e ia, ter escutado perplexo numa dessas populistas rádios algumas músicas nas quais os executantes utilizavam aqueles instrumentos.
Do Bandolim, e tanto quanto a memória me permite recordar, mantive o primeiro contacto através do “Moda Xicavalo”, uma lendária música de Fany Mpfumo e Francisco Mahecuane gravada em finais dos anos 50 na África do Sul e bastas vezes passada na Hora Nativa do Rádio Clube de Moçambique. Servia para o fecho da emissão diária.
Encerrada que foi a Hora Nativa com a nacionalização do RCM e consequente criação em 1975 da actual Rádio Moçambique, o bandolim de Fany e sua “Moda Xicavalo” se não desapareceram, no mínimo deixaram de serem dedilhados ou cantados pelos seus executantes, inclusive pelo próprio “Rei da Marrabenta”.
Porquê esse sumisso de tão pequeno/grande instrumento? Eis uma pergunta sobre a qual não tenho uma resposta plausível embora, no plano da especulação, possa pensar que tanto o Fany como outros seus discíplos o tenham preterido optando pela guitarra eléctrica. Até porque dá para perceber pela raridade, mesmo pelo mundo fora, de agrupamentos musicais que utilizavam o Bandolim.
Desde então, por aí 1975/76, o Bandolim foi remetido ao silêncio até que ... o acaso, sempre o acaso.
De microfone em riste e com pressa de “arrancar” uma entrevista ao Raúl Domingos – em 1992 – deparo-me com dois homens, um dos quais desinteressadamente tirava uns sons que, pela sua raridade, me aguçaram a curiosidade. Foi aí que fiquei a saber que o instrumento sobre o qual escrevo era de madeira julgo que prensada e com oito cordas.
O executante na circunstância era o Ernesto Zevo (Ximanganine para os amigos) na companhia daquele que daí viria a saber ser Abílio Manldaze, entretanto já falecido.
A entrevista a Raúl Domingos não se realizou simplesmente porque o Zevo e o Mandlaze foram por mim enfiados à força no Estúdio Teatro e... minutos depois veio à luz do dia aquela música que na parada do Ngoma de 1993 se tornaria a a Canção Mais Popular: “Juro Palavra D´honra, vou Morrer Assim”.
Refira-se, contudo, que a popularidade do “Juro ...” começa com a radiodifusão, no “Onda Matinal” hoje “Jornal da Manhã”, do tosco registo em cassete normal feito por mim, até atingir o clímax depois de o Roberto Aúze lhe dar a versão tecnicamente mais apurada, mas não tão original que aquela por mim registada. Passe a petulância. De resto não o pode ser quando me dizem hoje, volvidos 15 anos, que até o “Izi Jazz” Izidine Faquirá figura na ficha técnica da música como executante da bateria programada “Rolland”.
Entretanto só me dou verdadeiramente conta da popularidade do “Juro...” numa noite escura como breu em plena baía de Inhambane quando toco a cassete com a conversa e a música do Zevo e Mandlaze. Os dois ou trés marinheiros que nos transportavam, a mim e à minha mulher e filhos, a meio do trajecto Inhambane/Maxixe, acto contínuo, param a a barcaça e desligam o motor. Sem nenhuma explicação.
O silêncio da noite, importunado apenas pelo bater das ondas no casco do vaso e dos acordes do bandolim que saíam do gravador, pareceu-me que tiveram o condão de transportar aqueles velhos lobos do mar para um tempo que viveram intensamente, certamente já diluído nas suas memórias, qual espuma salgada das aguas do mar.
Depois de religiosamente escutarem a música e a entrevista e informados de quem eu era e que parte da minha infância tinha sido também envenenada pelos sons que saíam dos “His Master Voice” numa aldeola chamada Matacalane não muito distante dali, os homens nada disseram, manobraram o barco e já na corcomida ponte cais da Maxixe é que um deles, meneando a cabeça, balbuciou qualquer coisa como isto: Singu Wonega, ou seja “dá para perceber”. E mais não abriram a boca.
Onde está o primeiro registo magnético do “Juro Palavra D´honra, Vou Morrer Assim”? Nem eu o posso afirmar, nem a minha mulher e filhos, embora algo me diga que a cassete foi parar, por oferta minha, às mãos de um ancião da aldeola que de forma insistente mo pedira enquanto lá estivera em gozo de férias.
E a cópia feita para a radiodifusão? Essa, sei eu, teve o mesmo destino que muita relíquia sonora tem na Rádio Moçambique – simplesmente desgravada porque na RM a cultura de arquivar não existe. Incluo-me, embora por vezes o acaso...
Não fosse a crónica falta de meios de trabalho na Rádio Moçambique um registo de suma importância para a história da música moçambicana ter-se-ia irremediavelmente perdido: à cata de uma fita magnética e depois de muito suar, acho uma com evidentes sinais de que há muito não era manejada, tanta era a poeira que a envolvia.
O impulso normal de a desmagnetizar felizmente cedeu perante a curiosidade de ouvir o que eventualmente lá estivesse registado: a primeira e exclusiva entrevista que Fany Mpfumo, acabadinho de regressar da Africa do Sul, concedeu a Gulamo Khan. Em 1974.
Esta relíquia do melhor executante do Bandolim está arquivada na Fitateca da Rádio Moçambique. Para quem está interessado na história da nossa música.
Enfim ... perante tanta mediocridade que vivemos no expectro musical em Moçambique, apetece-me afogar-me num gericam de Xinderi da primeirissíma, cantando “Juro Palavra D´honra, Vou Morrer Assim”.
E então? Será que, desaparecido o “Rei” Fany Mpfumo só nos resta apenas um executante do Bandolim? O Ernesto Zevo ainda me disse “parece-me que o Hortêncio Langa dá uns toques, não sei”.
E os outros instrumentos?
Em Moçambique, tanto quanto sei, não temos executantes do Banjo e da Cítara, muito embora existam alguns aficionados pela Country Music e pela obra do indiano Ravi Shankar.
Ambos os instrumentos são originários de mundos diametralmente opostos, geográfica e culturalmente: o primeiro da Irlanda e muito popularizado nos EUA e o segundo da Índia.
Com alguma semelhança com o Bandolim, o Banjo “põe-me nas nuvens” desde que numa alucinante noite do longíquo ano de 1974 assisto um filme – muito estranho, é preciso que se diga – que tem por título original “Deliverance” (Fim de Semana Alucinante em português) realizado em 1972 por John Boorman e estrelado por Jon Voigth e Burt Reynolds.
A tenra idade que não permitiu então ajuizar a finalidade última da obra, não evitou que ficasse como que petrificado no banco do Cinema Pemba perante o “Dueling Banjos” corporizado por um miúdo cego de cabelos eriçados, aliás o melhor que há do Bluegrass Music gravado por Eric Weissberg no Banjo e Steve Mandel no Violão.
Sons enigmáticos tanto quanto o era o Anvar Abdulatifo saem da Cítara, esse instrumento que, não sei porquê, me parece muito feio, no entanto tão bonito quando manejado por Ravi Shankar.
O Anvar era, a seu tempo, a minha referência em matéria de música de vanguarda, consubstanciada nas emissões que realizava como locutor no Emissor Regional de Cabo Delgado (ou Porto Amélia), cujo raio de acção terminava lá para as bandas de Mahate e, à noite, em Mecufi.
Forçado então a ter que escutar os sons dedilhados com mestria por Shankar, esperando que o admirável locutor passasse trechos dos Jimi Hendrix e Page, que é o que a malta gramava, o ouvido foi se acostumando à Cítara, gosto ainda mais acentuado quando em finais dos anos 70 me vem ter às mãos – já como sucessor do Anvar – uma gravação do Woodstok, esse festival que lançou Ravi Shankar para o mundo, ao lado de nomes como Jimi Hendrix e Janis Joplin.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Vamos Roubar para Ler

Considero-me um leitor voraz e sempre sedento de livros.
Diria mesmo que sou um “maníaco” da leitura.
Da boa literatura, entenda-se.
Tudo que seja papel garatujado, mesmo que em linguas e caracteres estranhos, é motivo para aguçar a minha curiosidade, ainda que nada de lá tire algo de proveitoso: é que o simples acto de decifrar e tentar entender o que se escreve é motivo mais que suficiente para meu deleite.
O leitor que está debruçado sobre estas minhas confissões, poderá concluir que pertenço a uma espécie em vias de extinção. Um “fóssil” até.
Não, não sou.
Aceito sim ser uma das poucas excepções no mundo dos milhares de moçambicanos, minimamente letrados, que não gostam de folhear um livro e dele extrair experiências e ensinamentos para a vida.
No actual debate sobre o gosto (ou a falta dele) pela leitura entre nós, a constatação comunemente aceite pelos analistas terá como causa primária o difícil acesso ao livro ditado pelos proibitivos preços praticados pelas livrarias; ou então o descuido dos pais e educadores no estimular as pessoas – sobretudo os jovens – na prática do acto de ler como meio para se formarem cultural e cientificamente.
Outros atiram as culpas para este estado de coisas aos ditames do mundo do telemóvel, da comunicação fútil e ... da busca doentia da fama.
Numa coisa estamos todos de acordo: o livro é caro. Poucos são aqueles que têm posses para o ter à mão. Mas também, a mediocridade das vidas de muitos é mais que evidente.
Contudo interrogo-me:
Desde quando o livro foi barato em Moçambique, tanto no período colonial como agora?
Quantos dos que hoje lamentam esta realidade tiveram acesso fácil ao livro mas mesmo assim liam e muito?
Os que tiveram o privilégio de entrar numa livraria e de lá sair com um livro, contam-se pelos dedos da mão. A grande maioria, dentre ela eu, nem sequer tinha dinheiro para comprar uma sebenta quanto mais um livro.
Contudo lia até à exaustão, “vício” que até hoje, orgulho-me, se me “grudou” e dele não não me desfasço.
E como fazia então para ler, perguntar-me-ão.
A resposta é tão simples como isto: roubando. É isso mesmo, ROUBANDO LIVROS.
Hoje, para satisfazer o vício, não roubo, surripio.
A minha saga de Ladrão de Livros – não de Bicicletas – começa nos primeiros anos da minha adolescência na Livraria Sotil em Porto Amélia (Pemba): tal como o viciado pelas drogas pesadas que inicia a sua “carreira” não raras vezes “puxando” um inofensivo charro de suruma, este “leitor militante” iniciou-se na literatice, roubando e lendo os livros aos quadradinhos: Matt Marriot, Mandrak, Fantasma, Bill The Kidd; ou então os livrinhos de bolso de famosos Cow Boys “Revolver 45”, “Sete Balas”.
Uma incursão minha a uma livraria, tendo como “guarda-costas” os irmãos Tique (João, César e Sérgio) resultava sempre num prejuízo considerável para a “Sotil”. Calças e camisas desmedidamente largas para a minha estatura eram o suficiente para acondicionar mais do que uma dezena de livrinhos.
A senhora do balcão – que nós julgavamos uma pera doce – até se dava ares de despercebida com o atrevimento da miudagem e lá deixava-nos sair com o produto do crime. Até um dia ...
Com o passar do tempo, o produto do “roubo” começou a ser mais volumoso e valioso, o que acarretava metódos mais complexos para me furtar à vigilância da balconista, portuguesa é preciso que se diga, mas, lá ia saindo com uma ou duas obras para surpresa dos meus cúmplices: O Irving Wallace e outros da mesma turma eram então os nossos preferidos.
Até que a situação começou a “cheirar mal” para o dono da livraria que, perante os prejuízos passou a estar de olho, primeiro na própria empregada do balcão e depois para este “ladrão de Livros” que todos os dias entrava e saía do estabelecimento de mãos a abanar mas estranhamente com a barriguinha saliente.
O hábito tornou-se rotina, de tal sorte que o ladrão de livros começou a exceder-se até que um dia foi surpreendido, não só com a prova do crime, mas com uma obra considerada então subversiva que não fazia parte do espólio da livraria.
Apanhado e interrogado que foi, o meliante vai parar à esquadra da então PSP (polícia de segurança pública portuguesa) e dali para a famigerada PIDE, a secreta colonial.
O agente, a princípio relutante em interrogar um miúdo que de subversivo nada tinha, só o fez quando informado que o “puto” era tão “turra” como o mais destemido dos macondes. O livro dizia tudo.
“A Mãe”, de Máximo Gorki, ainda por cima com capa de um vermelho escuro, era mais que suficiente para me julgarem o mais perigoso dos contestários de então em Porto Amélia. Coitado de mim, que de política ainda era “virgem”.
Com o ar mais macambuzio deste mundo, mas apercebendo-me da gravidade da situação, inventei a esfarrapada mentira de que o tinha achado numa lata de lixo lá para as bandas do Batalhão 14, em cujo seio existiam oficiais do exército colonial português desterrados de Portugal para a colónia em virtude das suas ideias revolucionárias.
Ficaram-me com o livro e saí de lá com os ouvidos a doridos devido a duas bem dadas chapadas do Pidesco.
Quem ficou a perder: o Renato Carrilho ou simplesmente Gunnas que, por qualquer motivo, me havia pedido que entregasse a maldita “Mãe” a um dos seus amigos, de que não me recordo o nome. Era o “correio” dos mais velhos que habilmente, faziam circular literatura entre eles.
Porque as “confissões” já vão longas, fica-me o seguinte conselho para quem gosta de ler mas que não o faz porque não tem possibilidades para comprar o mais barato dos livros: uma vez por mês, entre numa livraria, roube um livro e o faça circular entre amigos.
Se o prenderem, acredite meu caro amigo: irei depôr a seu favor em qualquer tribunal deste país porque terá praticado um acto nobre – roubar para ler.
Se o fez para “negócio”, ponho-me a milhas.

quarta-feira, 26 de março de 2008

"Muitas moçambicanas olham o homem branco como salvação"









Uma das mais conceituadas escritoras moçambicanas, Paulina Chiziane, concedeu em Lisboa, Portugal, uma entrevista à jornalista Isabel Lucas, na qual faz declarações que, pelo seu interesse, lhes proponho que a leiam. E com muita atenção.
Quero acreditar que a transcrição das declarações de Chiziane não sofreu qualquer tipo de incorrecção ou até má interpretação por parte da jornalista lusa. Para bem da verdade.
Contudo, já aconteceu alguns dos nossos escribas queixarem-se de jornalistas, sobretudo portugueses, publicarem declarações suas com imprecisões e, até, manipuladas, não por descuido – mesmo assim inaceitável – para levar os leitores a entenderem um conceito ou ideia que não lhes pertencem. Para proveito no mínimo obscuro.
Há uns tempos, se a memória não me falha, o Mia Couto ter-se-á insurgido contra a forma como uma entrevista sua a um jornal português foi interpretada e publicada pelo jornalista com quem havia conversado.
“Muitas moçambicanas olham o homem branco como salvação”
Eis o título da peça publicada pela jornalista Isabel Lucas no jornal Diário de Notícias, na sua edição de 24 de março corrente.
A escolha deste título para a peça em referência pode levar a muitas e variadas interrogações, uma das quais será: A nossa Paulina Chiziane terá de facto dito aquela barbaridade? Pessoalmente não o creio pela simples razão de que não faz sentido que uma escritora como ela, que já deu provas do seu orgulho como moçambicana (e africana), tenha deixado escapar uma barbaridade como aquela. De qualquer forma compete à Chiziane desmentir ou não.
Da minha parte trarei para aqui o meu ponto de vista sobre o conteúdo da entrevista mas convido desde já quem quer que seja, incluindo a própria Paulina Chiziane, que faça o mesmo. Sob pena de estarmos a calarmo-nos perante a persistente ideia que parece ainda prevalecer entre muitos portugueses, sobretudo jornalistas, de que “O preto é incapaz de fazer qualquer coisa sem a ajuda do branco”.
Será que a escola do General Kaúlza de Arriaga ainda está viva nalgumas redacções portuguesas, mesmo depois da humilhante derrota foi infligida pelos “pretos preguiçosos” na famosa operação “Nó Górdio” no norte de Moçambique nos anos 1968/69?
Vai aí a entrevista, com a devida vénia do Diário de Notícias.

"* O romance que publicou agora em Portugal e será editado em Moçambique questiona o envolvimento dos indígenas na colonização. Polémica garantida?
- É um livro polémico. Tenho consciência, mas era preciso começar a discutir o problema. Olhávamos para o invasor como a causa dos problemas. A Zambézia é das províncias mais ricas, um lugar onde a exploração portuguesa foi muito forte. Se os portugueses eram tão poucos ali, como dominaram a província e o país? Qual a participação dos indígenas? Se parar para uma reflexão interna, a mão dos indígenas foi muito forte. A Zambézia foi a parcela do território com maior miscigenação. Como aconteceu? Será que as mulheres foram violadas? Será que se entregaram? Como é que a Zambézia tem tantos mulatos?
* Este livro, O Alegre Canto da Perdiz, parte de uma teoria.
- Segundo a tradição oral eram as mulheres negras que procuravam o homem branco para ter um filho mulato para que este não fosse depois deportado. Ainda há essa busca do homem branco. Muitas raparigas de 15 e 16 anos olham o homem branco como uma salvação. Sou observadora social e fui coleccionando estas questões.
* Como explica, 30 anos após a independência, que essa busca do homem branco continue?
- Estamos a assistir a qualquer coisa que não consigo interpretar. Os mulatos parecem estar de novo a assumir o controlo da situação. Com a economia de mercado aparecem os antigos portugueses a assumir o comando das infra-estruturas e o filho mulato ressurge no poder. Ainda não sei muito bem o que estou a fazer. Abro uma polémica para reflectir sobre o futuro do país. A reflexão sobre o que é ser moçambicano parou. Como nos vamos relacionar, que país estamos a construir? De forma suave tento levantar questões.
* E o que é ser moçambicano?
- Temos uma consciência nacional que não é comum aos outros países africanos. Moçambique está muito mais próximo da unidade nacional do que a maior parte das nações africanas. Aqui não há divisões tribais. Estamos todos misturados. Essa é das maiores relíquias de Moçambique. * Teme as reacções ao livro?
- Tenho medo. Nem quero ser heroína nem mártir. Quero ser uma cidadã comum, mas não me sentiria bem se não escrevesse o que sei. Há gente que não vai gostar. Pode haver quem se zangue comigo. Acima de tudo quero contribuir para a reflexão da moçambicanidade.
* O escritor Francisco José Viegas chama-lhe "a escritora mais divertida de África"...
- Isso tem um pouco a ver com a estética da tradição oral. Quando os assuntos são muito profundos é preciso aligeirar. Já fiz isso com o livro anterior, em que o tema era a poligamia. De vez em quando tenho de fazer paragens para suavizar e dar um equilíbrio emocional ao leitor."