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Cascatas da Namaacha: sete anos depois da seca

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Rádio Moçambique: Memórias de um doce calvário

Edifício-sede da Rádio Moçambique
Para Silvestre Sechene, jurista, a leitura deste livro de autoria de Luís Loforte, “proporcionará aos que se interessam pelas matérias da radiodifusão, e não apenas a estes, a oportunidade de se informarem sobre a história recente da rádio, particularmente no período de transição de Rádio Clube de Moçambique para a actual Rádio Moçambique”.

Assim escreveu aquele jurista no prefácio daquela obra publicada em 2007.
Trata-se de uma incursão em que, cito de novo Sechene, “habilidoso, Luís Loforte, agacha-se na noite das memórias e oferece-nos o que podem ser considerados aspectos preciosos da história da radiodifusão em Moçambique”.

O livro, que recomendo vivamente aos radiófilos de todos os quadrantes, pode ser adquirido em algumas livrarias da cidade de Maputo – fora da capital não se conhecem livrarias – ao preço de 250,00 Meticais (Usd10).

Não resisto em reproduzir um excerto do capítulo Rádio Clube de Moçambique, esperando eu que o seu conteúdo sirva para “aguçar” a curiosidade dos bloguistas e a pertinência de ter nas suas prateleiras uma obra de tão elevado valor.

“O RCM era a maior e a mais antiga das tres estações emissoras que entraram na constituição da Rádio Moçambique, mas não e a ele, pelo menos com essa denominação, que se devem as primeiras transmissões radiofónicas em Moçambique. As primeiras emissões experimentais de rádio, conhecidas em Moçambique, datam de 16 de fevereiro de 1933, uma quinta-feira. Formalmente, porém, as emissões arracaram a 18 de Marco do mesmo ano, um sábado, naquilo que foi o primeiro sinal do Grêmio, lançado a partir de um prédio situado na então Avenida da Republica, hoje 25 de Setembro, antes de passar a emitir a partir de instalações igualmente alugadas na então Rua Araújo, hoje Rua de Bagamoyo, em Março de 1939. Por decisão dos seus associados, o Grêmio passou a chamar-se Rádio Clube de Moçambique, em 29 de julho de 1937, uma quinta-feira, num ano em que em toda a colónia apenas existiam mil e quatrocentos receptores de rádio, metade dos quais na cidade de Lourenço Marques (Maputo, hoje). Até aí, na colónia apenas se escutavam de forma regular as emissões da União Africana, e da Europa e América do Norte quando calhava”.

“A ideia da criação do “Grêmio” partiu de dois radioamadores, nomeadamente Augusto das Neves Gonçalves e Firmino Jose Sarmento, aos quais, mais tarde, se juntaria Aniano Serra, contando com o apoio cúmplice dos comerciantes dos receptores e materiais afins”. (…)

“ …. Em 1937 o “Grêmio” passou a chamar-se Rádio Clube de Moçambique. Na verdade, só a responsabilidade de se chamar “Rádio Clube de Moçambique” pertcenceu aos associados, porquanto a da alteração coube às autoridades políticas de então, provavelmente porque a designação de “Grêmio” carregava consigo uma conotação corporativa e, portanto, algo do foro político e industrial. O “Estado Novo” classificava tudo em função dos fins. Pela natureza e fins perseguidos, uma associação de radiófilos não podia ser um grêmio. Grêmio eram, por exemplo, as associações industriais de óleos vegetais, das indústrias de transportes e automóveis pesados ou dos indústriais gráficos. Organização corporativa viria também a ser a União Nacional, o partido do ditador António de Oliveira Salazar. Impôs-se, portanto, que o “Grêmio” adoptasse uma designação do foro das “Sociedades de Recreio”, como o Clube Militar …”.

Se, ao tempo do Rádio Clube, o locutor dizia, depois do gongo, “Aqui Portugal Moçambique, fala-vos o Rádio Clube de Moçambique, dos seus estúdios em Lourenço Marques”, o do Grêmio, em português e inglés, referia: “Aqui Lourenço Marques CR7AA, estação emissora do Grêmio dos Radiófilos, trabalhando na frequência dos 6137 quilocíclos, onda de quarenta e oito metros e oito centímetros…”. CR7AA designava o primeiro emissor do “Grêmio” e correspondia à codificação imposta aos radioamadores desta região. Contrariamente ao que se possa pensar, o CR7AA não foi um emissor importado, mas construido em Moçambique por Augusto Gonçalves e A.J.Morais. O emissor ainda existe e é uma relíquia que a Rádio Moçambique tem sabido, felizmente, preservar, cumprindo assim o desejo manifestado pelos fundadores do “Grêmio” quando aquele emissor foi reformado: “Que descanse em paz sob os louros, a velha reíiquia, guardada religiosamente nas salas do Grêmio para marcar uma época da história da radiodispersão na colónia”. Hoje não somos colónia, mas cumpre-nos o dever civilizacional de preservar a nossa memória colectiva”.
…..

“ … A partir da então Lourenço Marques, o RCM mantinha em funcionamento quarto emissões independentes, sendo trés em português (Programas A,C e D), e uma em inglés e Afrikaans (B Station ou simplesmente LM Radio). À excepção de Gaza, todos os então chamados distritos do Estado de Moçambique tinham em funcionamento os seus emissores regionais, …”.

Não resisto em transcrever o último parágrafo desta obra de Luís Loforte: “Estou há quase uma vida na radiodifusão. Dela me apresto a sair, estou no umbral da porta de saida. Perguntarão os mais novos o que teria para lhes transmitir e eu direi que pouco e muito ao mesmo tempo. Talvez lhes seja útil, apenas, o conselho de que os verdadeiros radiófilos são aqueles que ficam felizes quando alguém, um dia, lhes venha a dizer que um, um que seja, dos nobres objectivos da radiodifusão terá sido conseguido contando com a sua colaboração. Não serei uma excepção. E porque não serão muitos aqueles que se resolvem dar à estampa as suas memórias, neste caso também gostaria que, ao lerem este modesto livro, soubessem que percorri o meu ciclo radiofónico num misto de muita felicidade e de alguma amargura, razão pela qual resolvi escolher a frase que dá título a este livro: “Rádio Moçambique – as memórias de um doce calvário”.

Para os interessados na obra, em baixo os contactos:
luisloforte@rm.co.mz
eagmatos@gmail.com

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Música - UNI VERSO de AMÁVEL PINTO : Sonoridades espirituais de um guitarrista diferente

O GUITARRISTA Amável Pinto (Amável) lança esta sexta-feira, 12, em concerto, o seu segundo disco de originais, intitulado “Uni Verso”, o mesmo que verso único, palavra única, um mundo único. O disco é composto por 14 temas e sai três anos depois do seu primeiro que leva o nome de “Meta Mor Fozes”. O concerto de lançamento do disco “Uni Verso” será às 20:00 horas, no Centro Cultural Universitário da Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo. Na manhã de sábado Amável tocará em frente à loja Gringo. No dia 19 deste mês, Amável vai lançar o seu disco na cidade da Beira, em Sofala, no espaço Miramar.

Em palco Amável estará com Paito Tcheco, que vai tocar bateria; Nádia, que estará com a segunda guitarra, e Gerson que cuidará da viola baixo.
Paito Tcheco trabalhou ao lado de Amável para a produção do disco e tocou bateria, viola baixo e fez percussão. Amável fez todas as guitarras e Nádia teve a participação com guitarra ritmo, para além de o disco contar com um tema seu. Por outro lado, participaram dois italianos Giuseppe Millici e Gaeteano, que tocaram harmónica e saxofone, respectivamente.
Para o músico, a diferença que há entre o primeiro e o segundo discos reside no facto de o primeiro ter sido a súmula de uma carreira de cerca de 20 anos, enquanto que o mais recente é a experiência de três anos de um trabalho com muita intensidade, vigor e vontade de querer continuar a trabalhar mais e melhor. “A partir daqui é só empreender uma viagem sem regresso. Já não pode haver mais paragens. Não temos que esperar mais ou aguentar mais de 20 anos”, diz Amável.
Em “Uni Verso” estão patentes as suas marcas, aliás, a sua característica, sendo que o disco é atravessado por ritmos como Rock, a Marrabenta e a música Clássica.
Há um ideal muito forte em relação àquilo que são as suas sonoridades. Por outro lado, está presente a filosofia musical de Fanny Mpfumo. Mas também, sente-se um Amável mais amadurecido pelo tempo, pelas experiências acumuladas, pelas relações vividas com os demais artistas, mais liberto à busca de outras sonoridades na guitarra.
“Procurei sonoridades totalmente diferentes das do primeiro disco, timbres novos e afastados daquilo que as pessoas conhecem. É um disco muito espiritual.
“A Marrabenta está aqui, comigo. Ela vive comigo, por isso o Fanny Mpfumo está também presente e visível, porque ele é um clássico e eu o admiro. O Rock eu o conheço perfeitamente, pois foi a minha primeira escola. Quanto à música Clássica, essa foi o que sempre quis e pesquisei muito. Esses três ritmos estão presentes e sempre me acompanham”, comenta.
O disco tem vários temas, entre os quais “Minha Terra”, “Rascunho”, “A Voz”, “Tocar Viola”, “Ventos do Além”, “Then you Came”, “Uni Verso”, “Mamana Elidia”, “Nádia Marrabenta” e “Depois da Dor”.
Amável diz ele próprio: “Surpreendi-me a mim mesmo com os resultados deste trabalho. Veja que grande parte dos temas foram basicamente gravados pela calada da noite. Entre as 22 horas à uma, duas ou três horas da manhã”.
Sobre isso, a Nádia chegava a dizer que esses são sons da madrugada. Ela às vezes chegava a sonecar no estúdio de Amável, onde foram registados todos os temas, misturados e masterizados. Os arranjos foram feitos com a ajuda de Paito Tcheco.
Foram sete meses de um trabalho intenso, como que enclausurado entre quatro paredes no seu estúdio. Durante esse período ele tornou-se numa espécie de animal habituado a ficar somente fechado numa jaula. Tinha poucos contactos e a convivência social com os demais era inexistente.
Actualmente, Amável está a dar aulas de guitarra clássica na Escola de Comunicação e Artes (ECA) na Universidade Eduardo Mondlane. Ele está ligado àquela instituição de ensino superior desde Março, altura em que foi contratado. “A guitarra clássica foi o que me faltou quando comecei o meu projecto e me faltou. Já tinha ritmos como Rock e Marrabenta, mas para completar o meu projecto me faltava a guitarra clássica”.
Amável Pinto é formado em Guitarra Clássica pela Universidade da África do Sul (UNISA).

Francisco Manjate (Jornal Notícias (10/12/08)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Os 50 anos da atribuição do Nobel a Boris Pasternak

António Rodrigues do DN, 4/12/08

Há 50 anos, em plena Guerra-fria, a Academia Sueca atribuía o Nobel da Literatura a Boris Pasternak por causa de um livro, uma história de amor entre um médico poeta e uma filha da aristocracia com a Revolução de Outubro como triste pano de fundo. Dr. Jivago tornou-se um dos romances mais populares do séc. XX mas a União Soviética deixou o autor morrer sem colher os louros.

Era uma vez outro tempo. Há meio século, numa era em que o mundo se dividia em dois e a literatura tinha tanta importância que os governos se sentiam ameaçados pelos escritores. Num gesto que, sem deixar de ser político, tinha a sua justificação literária, a Academia Sueca entregava o Nobel da Literatura a Boris Leonodovich Pasternak, poeta popularíssimo entre os russos que, em 1957, tinha conseguido contrabandear para o Ocidente um fresco desencantado sobre a União Soviética, com a Revolução de Outubro como pano de fundo.

O livro vinha impregnado da aura romântica das obras que conseguem ver a luz do dia apesar de todas as vicissitudes. Escrito na Rússia ao longo de quase quatro décadas é, ao mesmo tempo, um manifesto de amor à arte como fim em si mesmo, uma história de amor grandiosa, um épico histórico sobre a União Soviética que se ergue sobre os escombros dourados da Rússia dos czares e uma obra súmula das preocupações do seu autor.

Pasternak, a quem a política e os grandes movimentos sociais interessavam menos do que a arte em si, o mundo não se moldava pelo homem e as suas acções; influenciado essencialmente por correntes de amor, fé e destino, o mundo tinha pouco de construção e mais de consequência das vidas de cada indivíduo. Como o amor entre o Dr. Jivago e Lara, belo e trágico, quase sempre adiado, ao sabor dos destinos que se entrechocam e cujo idealismo sucumbe diante dos horrores que vão cometendo os exércitos Vermelho e Branco.

A existência do Dr. Jivago tem muito a ver com o destino escolhido pelo escritor. Nascido numa família de artistas judeus da cosmopolita Moscovo do final do século XX, filho do pintor Leonid Pasternak e da pianista Raitza Kaufman, Boris Pasternak pertencia a uma estirpe desprezada pela Revolução de Outubro.

Tendo crescido entre alguns dos maiores vultos da cultura da viragem do século - como Rainer Maria Rilke, visita lá de casa, de quem depois se tornaria grande admirador e tradutor - e apesar da maior parte dos seus familiares ter optado pelo exílio depois do triunfo Vermelho em 1917, o escritor preferiu ficar.

Por ter tomado essa decisão, por essa curiosidade intelectual em relação à experiência bolchevique primeiro e depois por temer que nunca mais o deixassem regressar, viu os seus pais pela última vez em 1922, quando recebeu autorização para os visitar em Berlim.

Contrabandeado desde Moscovo por um jovem italiano desencantado com a sua experiência soviética, Sergio D'Angelo; editado em Itália pela primeira vez numa pequena editora de um playboy comunista a que os acontecimentos na Hungria tinham abalado a fé na União Soviética, Giangiacomo Feltrinell; o Dr. Jivago só viu a luz do dia e teve este impacto e de forma tão rápida pela capacidade do editor em resistir às pressões e visão de marketing.

Ao saber da notícia do Nobel, Pasternak enviou um telegrama para Estocolmo: "Extremamente agradecido, comovido, orgulhoso, surpreendido, atónito". Quatro dias depois, pressionado pelas autoridades soviéticas, recusaria o prémio: "Considerando o significado atribuído a este prémio na sociedade a que pertenço, tenho de o recusar. Por favor, não se ofendam com a minha rejeição voluntária".

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Cinema: Madagáscar 2, perdidos em África

É uma das mais aguardadas estreias do ano e o primeiro grande 'blockbuster' para o Natal, com resultados de bilheteira a anunciarem recordes: “Madagáscar 2”, num momento em que a DreamWorks já anuncia a preparação do terceiro filme. Alex, Gloria, Melman e Marty perdem-se em África.

"Quem disse que os pinguins não voam?" Aqui está a prova do contrário. Em Madagáscar 2 reencontramos o leão Alex, a zebra Marty, a hipopótamo Glória e a girafa Melman no mesmo local onde os deixámos no final de Madagáscar. Mas não por muito tempo. Os quatro amigos vão partir num avião recauchutado (que já aparecia no primeiro filme, lembram-se?), pilotado pelo trio de pinguins e com os macacos, o Rei Juliano e Maurício a bordo com destino a Nova Iorque. Mas a viagem não corre como previsto e o avião acaba por se despenhar em África - e daí que o título original seja justamente Madagáscar: Back 2 Africa.

Eis então a oportunidade para estes animais que passaram a maior parte da sua vida enclausurados no jardim zoológico de uma grande cidade encontrarem outros animais como eles e descobrirem o seu lado selvagem. Com algumas surpresas.

Como já acontecia no primeiro episódio, Alex assume o protagonismo. Reencontrando-se inesperadamente com o pai e a mãe, terá de provar ao grupo e sobretudo a Zuba, o leão mau-da-fita, que, para além de ser o rei de Nova Iorque, tem ainda capacidade para ser o rei da selva. O que não será fácil dado que em vez de lutar, Alex é especialista em dançar.

Os outros animais também terão os seus desafios. Enquanto os pinguins contratam todos os macacos da selva e seus respectivos polegares para tentarem arranjar o avião, Marty vai descobrir que é apenas uma zebra igual a milhares de outras zebras, Glória entende que está na hora de acasalar e decide marcar um encontro com o escultural hipopótamo Moto-Moto e o hipocondríaco Melman, às portas da morte, como de costume, decide que é hora de assumir o seu amor por... Glória.

E, pronto, para não estragar as surpresas a miúdos e graúdos, podemos só dizer que, mesmo na selva, Alex não se vai ver livre da velhota de mala em riste ("gatinho mau!").

O primeiro filme estreou-se em Maio de 2005 conquistando imediatamente as audiências. É, até agora, o quarto filme de animação da Dreamworks mais visto, depois de Shrek 2, Shrek 3 e O Panda do Kung Fu. Sucesso nas salas e DVD que até deu origem a um jogo para a Playstation. Entretanto, os pinguins causaram furor, ganharam direito a uma curta-metragem The Madagascar Penguins in a Christmas Caper (2005) e ainda vão ser protagonistas numa nova série de animação The Penguins of Madagascar (2009) - quem foi que disse que os pinguins não voam?

Depois dos resultados e dos elogios com o primeiro filme, a sequela corria o risco de não estar à altura das expectativas. Manteve-se a equipa de realização (Eric Darnell e Tom McGrath) e, na versão original, as vozes também são as mesmas. A produção custou perto de 120 milhões de euros. O filme estreou-se nos Estados Unidos no dia 7 com resultados tão bons quanto o primeiro: no primeiro fim-de-semana conseguiu 49 milhões de euros - a 11ª melhor abertura do ano. Até agora, já rendeu 107 milhões de euros nos Estados Unidos e mais de 45 milhões no resto do mundo.

Por enquanto, os animais ficam na selva. Mas Jeffrey Katzenberg, da Dreamworks, já confirmou que a história vai continuar: "Haverá, pelo menos, mais um episódio. Queremos que as personagens regressem a Nova Iorque".

Caetano Veloso realiza sonho de criança e vira professor

Por: Célio Messias/AE

O cantor Caetano Veloso realizou na tarde desta quarta, 26, em Ribeirão Preto, um sonho de criança: foi professor por quase duas horas. Mas a aula foi diferente, interactiva, via satélite. E para cerca de 40 mil alunos, de 280 pólos da rede ligada ao Sistema COC de ensino em todo o Brasil. "Foi muito boa a experiência", disse Caetano, que falou de um tema que entende, viveu e gosta: "Da Bossa Nova ao Tropicalismo". Pelo acordo com a instituição, e a pedido dele, a aula será disponibilizada a toda a rede pública do País. Caetano também falou, depois, dos seus novos DVD e CD, além de seu blog, e procurou minimizar a crítica do amigo Tom Zé, que o ofendeu num show, domingo (23), no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo.

Sentado num banquinho, quase imóvel, apenas gesticulando e com a típica fala mansa, Caetano falou sobre os anos 1950 e 1960, do tema da palestra-aula. Ele espera que as informações que transmitiu ajude muitos estudantes. Até se comunicou rapidamente, via satélite, com a irmã Claria Maria, que estava em Salvador a assistir. Com os vários compromissos agendados, nem encontrou o amigo Gilberto Gil, que faria um show à noite no Theatro Pedro II. Caetano disse que teria que viajar para continuar os trabalhos de estúdio dos seus novos projectos. "Não é incrível? Não vi o Gil", comentou Caetano, que ainda não viu o show Banda Larga Cordel do amigo, mas recentemente o viu no Gil Luminoso, no Rio.


O COC investiu, via Lei Rouanet, R$ 300 mil no projecto da aula e também dos sites de Caetano (www.obraeprogresso.com.br), sobre o DVD e o CD em produções, e de Guel Arraes, que dá uma aula de cinema pela internet. Caetano disse que aprova a novidade tecnológica, como Gil, que incentiva o público a gravar os seus shows e exibi-los no ciberespaço. "Cada um vai se adaptando aos poucos, e achei que as companhias de disco não acompanharam ou não foi possível para elas, acabar com aquela estrutura, mas não entendo de produção, de dinheiro", explicou Caetano. E ele recordou que no seu blog incluiu as músicas em produção, gravadas ao vivo, com o mesmo arranjo que terá no CD. "Está tudo disponibilizado", disse.


O novo CD já tem nome: Zii e Zie. Ou, traduzindo do italiano: Tios e Tias. Motivo: "Vi escrito numa tradução para o italiano de um livro do escritor turco Ohran Pamuk (Istambul), que ganhei de presente de uma moça italiana." E acrescenta: "A gente olha e não consegue entender qual a língua, achei bonito..."


Meia-entrada


Caetano não gostou da idéia de limitar em 40% a meia-entrada nos espetáculos culturais. "Há algumas perversões nessa questão que já vem há algum tempo", disse ele, referindo-se a shows em capitais, muito caros, para compensar os ingressos de meia-entrada. "Acho que se tem meia, tem que cobrar, mesmo que todos paguem, sou contra isso." O cantor espera que diminua o número de carteiras falsas de estudantes e não concorda com os produtores que elevam os preços para compensar o risco de ter quase que só vendas de meias-entradas. "Existem mil possibilidades, não sei..." E brincou: Eu só pago meia, porque sou idoso. Vou com meu filho de 11 anos e compro duas meias e não entro na fila."


Filme


A ex-mulher de Caetano Veloso e produtora de cinema, Paula Lavigne, disse que o COC poderá ser um dos patrocinadores do filme O Bem Amado (que terá Marco Nanini como Odorico Paraguaçu), que está em fase de captação e pré-produção. As filmagens começarão em janeiro. Chaim Zaher, dono do COC, tem intenção de patrocinar, mas falta chegar a um acordo sobre valores. "Tem muito a ver com educação", disse Zaher, sobre o filme, que já foi novela e seriado da TV Globo entre os anos 1970 e 1980. Zaher também pretende estender a aula interativa, com outros artistas, personalidades e políticos, mas não divulgou para quando.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Luís Represas prova a lingua viperina da Rosa Langa

O cantor português Luís Represas, esteve recentemente em Moçambique, onde actuou em duas ocasiões, ao lado dos músicos moçambicanos, entre eles, Stewart Sukuma e Hortêncio Langa.
A jornalista da Rádio Moçambique, Rosa Langa, teve a oportunidade de conversar com Represas e não resistiu a fazer-lhe algumas perguntas, algumas das quais ireverentes como só ela sabe ser.
Eis alguns excertos dessa entrevista desta que entre a classe de jornalistas é conhecida por a jornalista "4x4".

Rosa Langa (RL) – Na sua carreira, qual foi até agora o seu “cachet” mais alto que recebeu?
Luís Represas (LR) – Não faço a mínima ideia e vou dizer-lhe porquê ... porque, felizmente, desde há muito que os contratos e os dinheiros não passam por mim. Passam pelo meu agente no qual eu tenho total confiança. Uma boa relação. Isso é uma enorme tranquilidade para o artista.
RL
– Sempre que precisa de dinheiro, ele está lá?
LR – Ou não (risos) ... mas que as contas estão certas ... há uma total liberdade da parte dele para negociar as coisas ... estou perfeitamente tranquilo... havendo sempre uma conversa, obviamente, mas muito mais do lado artístico, sobre o que eu quero fazer ou não em termos artísticos. Do lado negocial, do lado monetário ... eu acho que é engraçado, os artistas têem que ter algum pudor, claro que gostam de receber algum dinheiro. Mas no geral todos têem algum pudor em falar, em negociar essas coisas. Não é porque sujam as mãos, porque não ... porque é dinheiro limpo.
RL
– Antes pelo contrário ....
LR – Porque é legítimo, não é? Acho que nós não nos valorizamos se não valorizamos com quem trabalhamos. Nós, tendencialmente, seriamos mais enganados ...
RL
– Esta é mesmo para fechar ... hé... de cada show que tem realizado em Portugal e por esse mundo fora, faz antes um ritual?
LR – Há uma coisa que eu gosto muito de fazer sempre, que é jantar antes de tocar. E jantar com toda a minha equipa: os músicos e os técnicos. Não é um ritual mas acaba por ser um ritual quase ... não quer dizer que se não jantarmos qualquer coisa vai correr mal.
RL
– Não terminam assim numa reza, uma “Ave Maria”?
LR – Não, não, não. Eu acho que essa reza tem muito mais a ver com a comunhão entre nós todos que estamos à mesa antes do espectáculo, com um bom jantar, onde falamos de tudo menos de música. Das coisas da vida, falamos ....
RL
– Falam de mulheres, por exemplo?
LR – Falamos de mulheres, falamos de homens de tudo ....
RL
– De que mulheres vocês falam mais?
LR – Falamos das nossas mulheres, porque falar das mulheres dos outros é complicado, não é?
RL
– Mas existem mulheres de ninguém?
LR – Há sim. Mas isso cabe a quem descobri-las e ficar com elas. Mas falamos da mulher. Ela, por si, é um tema fantástico, porque é sempre um tema misteioso.
RL
– Que partes da mulher é que aprecias mais?
LR – A cabeça.
RL
– Porquê a cabeça?
LR – Porque é um mistério.
RL
– E quando está com ela começa a carícia pela cabeça?
LR – (Risos) Ah ... estás a falar disso? Não. Fisicamente para mim, as mãos e os olhos são elementos fundamentais numa mulher. As mãos dizem muito.
RL
– E o olhar também ... começa aí uma boa conquista...
LR – Obviamente que sim. Não vou dizer aquela frase “que os olhos são a porta da alma”, mas que são, isso são.
RL
- Obrigrada

José Saramago fala de seu novo livro, 'A Viagem do Elefante'

Entrevista de: Ubiratan Brasil, de O Estado de S. Paulo

Uma certa fragilidade ainda é aparente, resquício de uma grave enfermidade respiratória que quase o matou. Mas, aos 86 anos, o escritor português José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura, enfrenta com rara lucidez e energia renovada seu novo tour pelo Brasil, promovendo agora o lançamento mundial de A Viagem do Elefante, livro em que narra a aventura verídica de um elefante que rumou, em 1531, de Lisboa a Viena, presente de um rei português. "Tive algo semelhante a três pneumonias, perdendo 20 quilos em pouco tempo", disse o autor de sucessos como Ensaio sobre a Cegueira, A Caverna e O Evangelho Segundo Jesus Cristo, em entrevista ao Estado, na segunda-feira, depois de homenageado por funcionários da editora.

O senhor gosta de dizer que A Viagem do Elefante é mais uma história que um romance. Por quê?
Na verdade, eu prefiro chamá-lo de conto. Não me preocupei com o número de páginas para defini-lo devidamente, mas, nesse livro, não há nenhum ingrediente que se costuma encontrar em um romance, como um conflito complicado ou um problema de família. A própria forma de narrar é a de contar algo, daí eu tê-lo chamado de conto, como apropriadamente consta na edição brasileira. Em Portugal, porém, isso não foi aceito e lá chamam de romance. Como não quis entrar em uma discussão sem sentido, não argumentei, mas preferia que o tratassem então de "livro" e não romance.
O enredo é inspirado em fatos históricos, mas a possibilidade de poder criar personagens fictícios foi o que mais o atraiu?
Sim, pois os fatos históricos preencheriam apenas duas ou três páginas, com todos os pormenores. Não mais que isso. Confesso que não esperava escrever um livro com mais de 250 páginas - acreditava chegar a, no máximo, 120. Mas, como tive de inventar situações, seu tamanho ficou maior. O que me agrada no trabalho final é o fato de o leitor ser conduzido pela linguagem e não apenas pelo enredo. Como autor, acredito que a escrita é ao mesmo tempo atual e referente ao momento em que se passa a história, século 16. Fiz, então, uma simbiose entre o português que falamos hoje e o que se escrevia naquela época. Acho que ficou bem resolvido, pois introduz uma dinâmica diferente: o leitor é constantemente surpreendido (como eu mesmo fiquei) com certas palavras e construções frásicas.
Como foi essa surpresa?
Foi algo que não posso dizer que tenho explicação. Mas vou tentar explicar. À medida que envelhecemos, vamos acumulando aquilo que chamo de segmentos lingüísticos. Hoje, não falo como quando tinha 8 anos nem sequer quando estava com 30. Há uma espécie de camadas que vão se acumulando, do mais antigo ao mais recente. Tenho a impressão de que, durante a doença que me atacou e da qual tive a rara sorte de escapar com vida (ao menos um médico que me atendeu disse isso), camadas antigas voltaram à superfície. Ou seja, palavras que eu não mais usava ali estavam e figuram na história. Não apenas escrevi o livro, mas o livro também escreveu a mim. Não posso dizer que se trata de uma verdade científica, mas algo realmente diferente se passou pela minha cabeça.
O senhor acredita então que, se não tivesse enfrentado a enfermidade, o livro teria sido diferente?
Possivelmente. Eu contaria a mesma história. No essencial, talvez não existiriam grandes diferenças. Mas, justamente o que não é essencial contribui (e muito) para que essa história se torne única.
Um leitor desavisado, que não soubesse o que lhe passou, não desconfiaria de sua doença, pois o livro é recheado de humor e ironia.
De fato, o humor é o que aparece mais. E assim tinha de ser, pois não gosto de pôr a minha intimidade assim a claro. Quem espera por uma história sombria surpreende-se. Não tanto pelo humor, que está presente em minha obra, mas pela forte presença que nunca antes tinha acontecido. O livro começou a ser escrito em fevereiro de 2007 e, até maio, escrevi cerca de 40 páginas. Não avancei porque minha saúde piorou. Mas, como eu já estava determinado a um certo tipo de narrativa, não houve uma quebra no estilo. Tanto que, 24 horas depois de ter saído do hospital, corrigi aquelas 40 páginas e escrevi o que faltava. É como se houvesse outro eu a escrever por mim. Nesse período, aconteceram coisas muito estranhas. Como ter a visão de um fundo escuro com quatro pontos luminosos, que formavam um quadrilátero irregular. Para mim, aqueles quatro pontos eram eu. É um exemplo de como estava minha cabeça naquele momento e de como estava convicto em terminar o livro.
Suas opiniões sempre são muito apreciadas. Assim, o que se pode esperar do presidente americano Barack Obama.
Em condições normais, seria apenas mais um presidente. Mas trata-se de um negro no comando. É uma revolução, porque invadiu o consciente e o inconsciente de um país que sempre enfrentou o racismo e a Ku Klux Klan.
E sobre a atual crise econômica?
É o que me faz repetir que Marx nunca teve tanta razão como agora.

"Podem me xingar de comunista, não de fascista", diz Saramago, que volta a conversar com o Estado, após dois anos de silêncio motivado por um título infeliz
Fazia dois anos que José Saramago não conversava com o Estado. O motivo foi a discordância do escritor em relação a uma reportagem publicada em 2006, a partir do lançamento de As Pequenas Memórias, um ensaio autobiográfico. Mais especificamente sobre um determinado trecho em que Saramago narra como, aos 13 anos, foi incorporado à Mocidade Portuguesa, ou seja, à juventude que apoiava o ditador português Antônio Salazar.
"Era um garoto e, em um determinado dia, ao chegar à escola, eu e meus colegas fomos informados de que passaríamos a integrar a Mocidade", disse o escritor, que rechaçou, assim, o título da matéria, "Eu fui salazarista". "Eu nunca disse essa frase."
Segundo o escritor, àquela idade, não seria possível fazer uma adesão consciente ("foi algo automático"), diferente, aliás, do que se passou com o alemão Günter Grass, também Nobel de Literatura, que confessou na autobiografia Nas Peles da Cebola (Record) ter pertencido à Juventude Hitlerista, causando grande polêmica. "Isso aconteceu quando Grass já era um rapaz, portanto, consciente de seus atos. Mesmo assim, depois ele teve uma responsabilidade cívica intocável."
O episódio está descrito na página 131 da autobiografia de Saramago. Em 1936, quando começava a Guerra Civil Espanhola, ele, jovem estudante de uma escola industrial, leu nos jornais sobre o conflito, acompanhou o desenrolar dos combates e percebeu que estava sendo ludibriado pelos militares reformados que censuravam a imprensa. Essa foi a razão por que, mandado pelos colegas ao Liceu de Camões para apanhar sua farda verde e castanha da Mocidade Portuguesa, deu um jeito de ficar no fim da fila até que se esgotasse o estoque dos malditos barretes e calções de Salazar.
Saramago julgou o foco do texto publicado no Estado como sensacionalista. "Minha trajetória mostra que jamais fui oportunista, política ou culturalmente", disse ele, entendendo que o jornal havia, portanto, não cometido um erro, mas agido intencionalmente em acusá-lo. "Uma surpresa vinda de um órgão de comunicação ao qual nunca neguei uma opinião ou uma entrevista, um jornal que, para muitos, é como uma bíblia laica de questões políticas e sociais", afirmou. "Poderiam me chamar de comunista que, para muitas pessoas, soa como xingamento, e não para mim; mas jamais de fascista." Para o escritor, não houve erro, mas "uma falta intencional".
Como não recebeu na ocasião a retificação que julgou necessária, especialmente em relação ao título da matéria, Saramago então decidiu não mais conceder entrevistas ao jornal.
O silêncio foi superado nesta segunda-feira, depois de uma reunião do escritor com editores e o diretor de redação, em que se repassaram as circunstâncias da matéria e suas repercussões.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

São muitas as verdades num mundo de natureza vária

O lançamento simultâneo em Portugal, Brasil e Moçambique de Venenos de Deus, Remédios do Diabo é por si uma boa notícia para os que se interessam pelos rumos da ficção em língua portuguesa, pois sugere um avanço na aproximação entre universos ainda tão distantes a despeito das relações historicamente construídas. E confirma entre nós o reconhecimento de Mia Couto. Bastante conhecido nos círculos portugueses e traduzido em tantas línguas, o mais prestigiado escritor moçambicano precisou de mais tempo para que o mercado editorial brasileiro levasse em conta, por exemplo, o grande interesse despertado entre o público universitário, o único segmento que, desde os anos 90, tinha acesso a seu trabalho.
Nos últimos anos, felizmente, abriu-se um espaço para as literaturas africanas e o autor e seus textos vêm merecendo maior atenção, das editoras, da crítica literária, da mídia. Em 2007, O Outro Pé da Sereia ficou entre os dez finalistas do Prêmio Portugal Telecom e foi o vencedor do Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura.
Em Venenos de Deus, Remédios do Diabo, o sexto romance, Mia Couto, como aliás não é raro em sua trajetória, inicia o processo de sedução já no título. Assim, depois de Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra e O Outro Pé da Sereia, para citarmos apenas dois de seus livros, ele vem nos provocar com Venenos de Deus, Remédios do Diabo, que tem ainda como subtítulo As Incuráveis Vidas de Vila Cacimba. Num jogo pautado pela ironia, o peso da contradição será dominante na narrativa que se desenvolve sob uma atmosfera um tanto nebulosa, montada sobre diálogos que tendem a desnortear o leitor, transmitindo-lhe a idéia de que está diante não só de uma terra estrangeira, mas de um mundo que requer outros sentidos para ser penetrado. A opacidade não é defeito, nem é gratuita, é constitutiva de um projeto.
Uma vez mais, o espaço tem grande significado na narrativa de Mia. Vila Cacimba, a aldeia onde se desenrola a trama, pode ser encarada como uma metonímia de Moçambique, talvez do continente africano. Ao caracterizar o médico como português, insinua-se que os séculos de colonialismo não permitiram uma real aproximação entre os patrimônios culturais, pondo em causa o argumento luso-tropicalista que de vez em quando ressurge. Note-se, entretanto, que o essencial não é propriamente falar de sua terra e sim trazer à pauta as muitas verdades que se confrontam num mundo povoado por misturas de natureza vária. Para isso, o autor baralha as personagens, colocando em movimento características que dificultam a sua apreensão, fazendo-as transitar num quadro de significados móveis, em que as coisas podem ser e não ser. E, como o médico estrangeiro, somos levados a um estado de dúvida que também desafia a nossa capacidade de leitura da realidade. Em síntese, da coexistência de mundos, de diferentes tempos e códigos, trata o autor, abordando um problema fulcral em nossos dias.
No conjunto da obra, esse romance se destaca por uma economia narrativa orientada pela concisão, em contraste com a tendência para a exuberância de outros textos. Aqui é tudo mais enxuto: o enredo concentra-se em Vila Cacimba, num curto espaço temporal, envolvendo poucas personagens: o médico português Sidônio Rosa, os casais Bartolomeu Sozinho e Dona Munda, Suacelência e Esposinha. Sobre as suas vidas, paira a figura de Deolinda, apresentada inicialmente como a filha de Bartolomeu e Dona Munda, por quem Sidônio se apaixonara em Lisboa, razão de sua vinda para a África. Nos nomes das personagens, projetam-se marcas de seu modo de estar no mundo, o que remete a certa atmosfera fabular, reiterando um traço indiscutível na obra de Mia: a evocação das tradições orais, matriz dominante no patrimônio cultural de seu país.
Em se tratando do autor, todavia, a combinação dos nomes leva também ao processo de construção da linguagem, sempre merecedor de sua atenção. Se renuncia à constância dos neologismos, um dos pontos de convergência com a obra de Guimarães Rosa, o escritor não deixa de cortejar a poesia na escrita da ficção, cultivando uma espécie de aderência entre o signo e o referente, como se observa não só relativamente às personagens, como também ao lugar. É fato que daí pode resultar a sensação de obviedade mas não se deve esquecer que a coincidência do idioma está longe de significar correspondência de contextos culturais. Vale, então, pensar no procedimento em alusão ao fundamento da poesia, ao desejo de recuperar a unidade perdida, de grande sentido numa sociedade tocada pela desagregação.
O recurso a uma forma de sabedoria popular é outro dado a confirmar a identificação com as tradições orais. Contrapondo-se à contenção no domínio dos neologismos, registra-se a presença de frases que trazem um tom de aforismo, como que procurando sintetizar uma verdade consagrada. Ressalte-se, porém, que no romance as sínteses formuladas pelas personagens atentam contra o senso comum, instituindo uma espécie de contraprovérbio. Em Mia Couto isso se liga à desautomatização do olhar, ato imprescindível para a compreensão do universo que a sua ficção nos traz. É um de seus modos de assegurar à literatura a marca do insólito, uma de suas funções e de seus encantos.
Por: Rita Chaves (professora de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na USP)