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Cascatas da Namaacha: sete anos depois da seca

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Quem vai ser a primeira dama da África do Sul?

Por: Susana Salvador, in DN, 08.02.09


"Há muitos políticos que têm amantes e filhos que escondem para fingir que são monógamos. Eu prefiro ser aberto. Amo as minhas mulheres e tenho orgulho nos meus filhos." Jacob Zuma, o zulu que é líder do Congresso Nacional Africano (ANC) e favorito à vitória nas presidenciais de Abril, não podia ser mais directo. Mas a sua poligamia, que é legal na África do Sul, pode tornar-se num verdadeiro problema de protocolo, caso seja eleito. Afinal, quem será a primeira dama?


Thobeka Mabhija, de 34 anos, deve tornar-se em 2010 na mulher número cinco de Zuma, de 66 anos. Os últimos preparativos para o casamento com a mãe de dois dos seus 17 ou 18 filhos (o número certo nunca foi revelado) foram dados em Janeiro, um ano depois da boda com Nompumelelo Mantuli - a número quatro. E diz-se que Zuma está já a pensar na número seis, Bongi Ngema, que é a mãe de um dos seus filhos mais novos, de quase dois anos.


A última candidata a primeira dama é Sizakele Khumalo (a esposa número um), que ele conheceu em 1959 e que vive na sua mansão em Nkandla, na província de KwaZulu-Naral. Já Nkosazana Dlamini e Nancy são cartas fora do baralho. Zuma divorciou-se em 1998 de Dlamini, a número dois, que já foi ministra dos Negócios Estrangeiros, devido a "diferenças irreconciliáveis" e a terceira mulher suicidou-se em 2000, deixando uma carta em que dizia que os 24 anos de vida de casada tinham sido "amargos e dolorosos".


Três outras mulheres cruzam o seu percurso. Minah Shongwe é um antigo amor e a mãe do seu filho mais velho, Edward, de 30 anos. A princesa Sebentile Dlamini, neta do falecido rei Sobhuza III da Suazilândia, continua à espera de Zuma, depois deste ter pago parte do labolo pela sua mão (dez vacas) em 2002. Finalmente há a jovem seropositiva, amiga da família, que o líder do ANC terá violado: em tribunal Zuma explicou que ela usava uma saia pelo joelho o que, no costume zulu, é uma provocação. E que não usou preservativo, mas tomou um duche depois para se proteger do vírus.


A poligamia, prática comum entre os zulus, é legal. Basta que o homem declare a escolha no primeiro casamento e que as mulheres dêem autorização para as novas bodas. Há contudo quem diga que é um costume antiquado e vai contra a Constituição, que estabelece a igualdade entre os sexos.


Por outro lado, o custo de criar uma família numerosa é elevado. O conselheiro financeiro de Zuma foi condenado por fraude e corrupção em pagamentos feitos em seu nome. Acusações idênticas recaem sobre o próprio líder do ANC, que não está livre da Justiça.


A poligamia pode ainda revelar-se uma desvantagem caso os sul-africanos decidam que não querem arcar com os custos das várias mulheres do eventual presidente. Talvez para evitar que se fale de si, Zuma saiu em defesa do Presidente Kgalema Motlanthe, ele próprio envolvido num escândalo sobre as várias mulheres da sua vida: "A vida privada de Motlanthe não tem nada a ver com a forma como dirige o país."


O número dois do ANC, de 59 anos, está separado (mas não divorciado) de Mapula, mãe dos seus três filhos. Contudo, há vários anos que mantém um relacionamento com uma colega do partido, Gugu Mtshali (que se divorciou em Dezembro do seu marido de há 17 anos). Ainda assim, o verdadeiro escândalo é o facto de o Presidente estar aparentemente envolvido com outra mulher, de apenas 24 anos, que ainda por cima está na fase final da gravidez. É caso para perguntar, como fez a imprensa sul-africana, "Quem é a nossa primeira dama?"

Veja a lista de indicados às principais categorias do Grammy

Veja abaixo a lista dos indicados para as principais categorias do Grammy. Os vencedores de todas as 110 categorias serão anunciados na cerimônia de 8 de fevereiro.

Gravação do Ano
Chasing Pavements - Adele
Viva La Vida - Coldplay
Bleeding Love - Leona Lewis
Paper Planes - M.I.A
Please Read The Letter - Robert Plant & Alison Krauss

Álbum do Ano
Viva La Vida Or Death And All His Friends - Coldplay T
Tha Carter III - Lil Wayne
Year Of The Gentleman - Ne-Yo
Raising Sand - Robert Plant & Alison Krauss
In Rainbows - Radiohead

Música do Ano
American Boy - Compositores: William Adams, Keith Harris, Josh Lopez, Caleb Speir, John Stephens, stelle Swaray e Kanye West (Interpretação de Estelle e Kanye West)
Chasing Pavements - Compositores: Adele Adkins e Eg Whit (Interpretação de Adele)
I'm Yours - Compositor: Jason Mraz (Interpretação de Jason Mraz)
Love Song - Compositora: Sara Bareilles (Interpretação de Sara Bareilles)
Viva La Vida - Compositores: Guy Berryman, Jonny Buckland, Will Champion e Chris Martin (Interpretação do Coldplay)

Melhor Artista Revelação
Adele Duffy J
Jonas Brothers
Lady Antebellum
Jazmine Sullivan

Melhor Álbum de Música Pop
Detours - Sheryl Crow
Rockferry - Duffy
Long Road Out Of Eden - Eagles
Spirit - Leona Lewis
Covers - James Taylor

Melhor Álbum de Rock
Viva La Vida Or Death And All His Friends - Coldplay
Rock N Roll Jesus - Kid Rock
Only By The Night - Kings Of Leon
Death Magnetic - Metallica
Consolers Of The Lonely - The Raconteurs

Melhor Álbum de Música Alternativa
Modern Guilt - Beck
Narrow Stairs - Death
Cab For Cutie The Odd Couple - Gnarls Barkley
Evil Urges - My Morning
Jacket In Rainbows - Radiohead

Melhor Álbum de R&B
Love & Life - Eric Benet
Motown: A Journey Through Hitsville
USA - Boyz II Men
Lay It Down - Al Green
Jennifer Hudson - Jennifer Hudson
The Way I See It - Raphael Saadiq

Melhor Álbum de Rap
American Gangster - Jay-Z
The Carter III - Lil Wayne
The Cool - Lupe Fiasco
Nas - Nas
Paper Trail - T.I.

Melhor Álbum de Música Country
That Lonesome Song - Jamey Johnson
Sleepless Nights - Patty Loveless
Troubadour - George Strait
Around The Bend - Randy Travis
Heaven, Heartache And The Power Of Love - Trisha Yearwood

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

“The International” abre o 59.º Festival de Cinema de Berlim

O festival de cinema anual de Berlim , também conhecido como Berlinale, arrancou nesta quinta-feira, 5, com a exibição do filme "The International", um suspense do director alemão Tom Tykwer "Corra Lola, Corra". A trama envolve um agente da Interpol na sua luta para derrubar um poderoso banco que estaria a realizar actividades ilícitas.

The International é um dos 17 filmes que fazem a sua estreia mundial na Berlinale. O festival, na sua 59.ª edição é o primeiro dos grandes festivais europeus do ano. O ano passado o prêmio máximo, o Urso de Ouro, foi para "Tropa de Elite", do director brasileiro José Padilha, que exibe na sessão Panorama, fora da competição, o seu novo documentário "Garapa".

A abertura do evento com "The International", segundo Tykwer, não tem nada a ver com a crise financeira internacional. Para o director foi apenas uma coincidência e ele afirmou sentir-se emocionado "com a ideia de que o banco represente o vilão num filme de suspense".

Clive Owen interpreta o herói do filme, Louis Salinger, e Naomi Watts faz o papel de uma fiscal do distrito de Nova York que se une a ele para rastrear transações que financiam terroristas.

Owem disse que o seu personagem "viaja literalmente por todo o mundo atrás deste banco e na tentativa de derrubá-lo".

Tykwer assinalou numa entrevista que "o tema do filme é um sistema e um princípio sobre os quais se construiu a nossa sociedade... Que surgiu com a ideia de intercambio de bens que agora estamos a começar a questionar".

Um júri de sete membros presidido pela actriz britânica Tilda Swinton vai anunciar o vencedor em 14 de fevereiro. "Minhas expectativas? Não ter absolutamente nenhuma expectativa", disse.

O director do festival, Dieter Kosslick afirmou que não espera que a crise econômica tenha um efeito directo sobre a Berlinale, que tradicionalmente conta com menos estrelas que os festivais de Cannes e Veneza, mas que se orgulha de ser acessível ao público em geral, e deve viver 11 dias de muito glamour, com a exibição de 386 filmes.

Spike Lee quer incendiar Los Angeles

Spike Lee (“Malcom X”,"O Infiltrado") quer realizar um filme sobre os motins de Los Angeles em 1992. Esses dias de violência urbana foram provocados pela decisão dos tribunais de ilibar os agentes da polícia que tinham sido acusados de agredir o afro-americano Rodney King. Durante seis dias a violência invadiu a cidade, várias pessoas foram agredidas e assassinadas e várias lojas foram pilhadas e incendiadas.

Este projecto faz parte dos projectos de Lee desde 2006, mas ainda não encontrou os produtores indicados. Tem ainda um problema com o orçamento disponível, que não lhe permite realizar o filme como pretende. "O projecto não está morto, mas a dormir", diz o realizador, citado pela revista "Les Inrockuptibles".

Spike Lee está neste momento envolvido em vários projectos: a sequela de "O Infiltrado", um "biopic" sobre a vida de James Brown, com Wesley Snipes no papel de Brown, e um documentário sobre Michael Jordan. O realizador comprou recentemente os direitos para produzir "Now the Hell Will Start", a história de uma soldado negro que mata o seu superior na II Guerra Mundial e é obrigado a fugir para a selva birmanesa. É o segundo projecto de Lee baseado na II Guerra Mundial, depois de ter realizado "Miracle at Santa-Anna" no ano passado.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

O "jet-set" moçambicano visto por Mia Couto

Já vimos que, em Moçambique, não é preciso ser rico. O essencial é parecer rico. Entre parecer e ser vai menos que um passo, a diferença entre um tropeço e uma trapaça.
No nosso caso, a aparência é que faz a essência. Daí que a empresa comece pela fachada, o empresário de sucesso comece pelo sucesso da sua viatura, a felicidade do casamento se faça pela dimensão da festa. A ocasião, diz-se, é que faz o negócio. E é aqui que entra o cenário dos ricos e candidatos a ricos: a encenação do nosso "jet-set".
O "jet-set" como todos sabem é algo que ninguém sabe o que é. Mas reúne a gente de luxo, a gente vazia que enche de vazio as colunas sociais.
O jet-set moçambicano está ainda no início. Aqui seguem umas dicas que, durante este ano, ajudarão qualquer pelintra a candidatar-se a um jet-setista. Haja democracia! As sugestões são gratuitas e estão dispostas na forma de um pequeno manual por desordem alfabética.

Veja na íntegra: O “Jet-set moçambicano

Moçambique: Malangatana mostra 40 obras suas em Coimbra (Portugal)

Quarenta obras do pintor moçambicano Malangatana vão estar expostas na Casa Municipal da Cultura da cidade portuguesa de Coimbra a partir de sábado, 7, no âmbito das comemorações do Dia dos Heróis Moçambicanos.

A mostra, patente até 21 de Fevereiro, intitula-se Homenagem a Eduardo Chivambo Mondlane - Pastor de Manjacaze e é uma iniciativa da Câmara de Coimbra, da Embaixada de Moçambique em Portugal e da Organização da Mulher Moçambicana. Na exposição pode apreciar-se 18 telas e 22 ilustrações do artista plástico e poeta, considerado "o maior embaixador da cultura moçambicana".

O vereador da Cultura da Câmara de Coimbra, Mário Nunes, considera que a exposição tem três objectivos: homenagear Eduardo Mondlane, assinalar e comemorar o 3 de Fevereiro, data alusiva aos Heróis Moçambicanos, e proporcionar ao público de Coimbra o contacto com a obra deste embaixador cultural.

Uma das telas expostas é a obra O Julgamento dos Militares da 4.ª Região da Frente de Libertação de Moçambique, datada de 1966, da colecção privada do antigo presidente da Assembleia da República portuguesa Almeida Santos, que a cedeu para a iniciativa.

Malangatana Valente Ngwenya nasceu em Matalana, Moçambique, a 6 de Junho de 1936 e pertenceu à Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), que liderou a luta armada contra a dominação colonial portuguesa até à proclamação da independência, em 1975.

A sua obra é "reconhecida em todo o mundo", tendo participado em múltiplas exposições individuais e colectivas e integrado diversos júris em Moçambique e no estrangeiro. Foi premiado inúmeras vezes e recebeu várias distinções.

Pintor, ceramista, cantor, actor, dançarino, "Malangatana é uma presença assídua em numerosos festivais, afirmando sempre a sua origem africana e moçambicana".

World Music Center promove curso em Maputo

O projecto dinarmarquês World Music Center desenvolvido pela Aarhus Music School daquele pais europeu, acaba de escalar Moçambique para ministrar um curso de formação de professores de música tradicional.

Apadrinhado pelo músico moçambicano, Gimo Remane, radicado na Dinamarca há mais de vinte anos, o projecto visa igualmente fazer a advocacia da necessidade de se apostar na inclusão da disciplina musical no ensino em Moçambique.

Comparativamente à Dinamarca, Moçambique é um pais que ainda tem muito que fazer para que a educação musical seja uma realidade. Com mais de 20 milhões de habitantes, Moçambique apenas tem uma única escola de musica: a Escola Nacional de Musica. Já a Dinamarca, segundo Lance D’Souza, Director do Projecto World Music Center, com apenas 5 milhões de habitantes, tem mais de 300 escolas de musica, cinco universidades, cinco conservatórias de musica clássica e cinco orquestras sinfónicas.

Para Gimo Remane, a musica moçambicana esta a perder os seus valores tradicionais dai a necessidade de se apostar na introdução da disciplina de educação musical desde o ensino básico (primário) ate ao superior.

Ele nasceu na província de Nampula (norte do pais) mas foi na Ilha de Moçambique onde cresceu influenciado pela sua diversidade musical fruto do cruzamento de culturas de povos africanos e árabes. Muito cedo mostrou os seus dotes musicais, tocando com grupos culturais dos bairros da ilha e, desde 1974, embalado pelos ventos da independência nacional, começou a compor e a cantar musicas na sua própria língua, o macua.

Artista determinado, fundou em 1985, na companhia de outros músicos, entre os quais Salvador Maurício, a banda Eyuphuru (vendaval), que muitos sucessos e alegria proporcionou aos amantes da musica de Moçambique, dentro e fora do pais.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Leia trecho do romance 'Terrorista', de John Updike

O romancista John Updike, um dos grandes nomes da literatura norte-americana morreu nesta terça, aos 76 anos, de um câncer no pulmão, segundo informou seu editor Alfred A.Knopf. Leia trecho de seu romance Terrorista, lançado no Brasil em 2007. Na obra, o escritor conta a história do jovem Ahmad, filho de pai árabe e mãe irlandesa-americana, que vive o dilema de ter de escolher entre seguir o conselho de um professor de sua escola, um judeu nem um pouco religioso, que o instiga a estudar para entrar na faculdade, ou entrar para um grupo de terrorismo internacional ligado a atentados suicidas por influência do xeique Rashid, imã da mesquita que ele costuma frequentar.

Demônios, pensa Ahmad. Esses demônios querem tomar de mim meu Deus. O dia inteiro, na Central High School, as meninas rebolam, debocham e exibem seus corpos macios, seus cabelos sedutores. Os ventres nus, enfeitados com vistosos piercings no umbigo e tatuagens lascivas em roxo, indagam: O que mais há para mostrar? Os rapazes desfilam, blasés e orgulhosos, com olhares mortos, indicando, com gestos violentos de assassinos e risos indiferentes e sarcásticos, que este mundo é tudo que existe - um corredor barulhento, envernizado, cheio de armários de metal e terminando numa parede lisa, profanada por grafites e tantas vezes pintada e repintada que dá a impressão de estar avançando cada vez mais, milímetro por milímetro.

Os professores, cristãos débeis e judeus não praticantes, falam palavras vazias sobre a virtude e a honradez do autocontrole, porém seus olhares esquivos e suas vozes insinceras traem sua falta de fé. Eles são pagos para dizer essas coisas, pagos pela prefeitura de New Prospect e pelo governo estadual de Nova Jersey. Ahmad e os dois mil outros alunos os vêem se enfiando em seus carros depois das aulas no estacionamento apinhado, pontilhado de lixo, como tantos caranguejos pálidos ou escuros que voltassem a suas cascas, e são homens e mulheres como quaisquer outros, cheios de concupiscência e medo e paixão por coisas que podem ser compradas. Infiéis, pensam que a segurança está em acumular coisas deste mundo e nas diversões corruptoras da televisão. São escravos das imagens, imagens falsas de felicidade e riqueza. Mas mesmo as imagens verdadeiras são imitações pecaminosas de Deus, o único ser capaz de criar. O alívio por ter escapado incólumes de seus alunos por mais um dia faz com que os professores se dispersem nos corredores e no estacionamento falando alto demais, como bêbados cada vez mais excitados. Os professores caem na farra quando não estão na escola. Alguns têm as pálpebras avermelhadas, o mau hálito e o corpo inchado daqueles que costumam beber em excesso. Uns são divorciados; outros vivem maritalmente sem ser casados. Fora da escola, levam vidas desorganizadas e libidinosas, sem autodisciplina. São pagos para pregar a virtude dos valores democráticos pelo governo estadual, cuja sede fica em Trenton, e por aquele governo satânico mais longe, em Washington, porém os valores em que acreditam são ímpios: biologia, química, física. Quando se trata dos fatos e fórmulas desses assuntos, suas vozes falsas soam firmes e retumbam na sala de aula. Dizem que tudo provém de átomos cegos e implacáveis, responsáveis pelo peso frio do ferro, a transparência do vidro, a imobilidade da argila, a agitação da carne. Os elétrons fluem por fios de cobre, por portas de computador e pelo próprio ar, quando a interação de gotículas de água provoca relâmpagos. Só é verdade aquilo que podemos medir e deduzir a partir de nossas mensurações. Tudo o mais é apenas o sonho passageiro que chamamos de nosso ser.

Ahmad tem dezoito anos. Estamos no início de abril; mais uma vez o verde penetra sorrateiro, semente por semente, nas fendas de terra da cidade cinzenta. Ele olha do patamar de sua altura recém-conquistada e pensa que, para os insetos invisíveis na grama, ele seria, se eles tivessem uma consciência como a sua, Deus. No ano passado Ahmad cresceu sete centímetros, chegando a um metro e oitenta e dois - mais forças materialistas invisíveis a exercer sua vontade sobre ele. Ele não vai crescer mais do que isso, pensa Ahmad, nesta vida nem na outra. Se houver uma outra, um demônio interior murmura. Que provas, além das palavras ardentes e divinamente inspiradas do Profeta, garantem que existe outra vida? Onde ela estaria escondida? Quem estaria eternamente abastecendo as fornalhas do Inferno? Que fonte infinita de energia haveria de manter o Éden opulento, alimentando as huris de olhos negros, fazendo crescer os frutos pesados nas árvores, renovando os riachos e chafarizes em que Deus, conforme a nona sura do

Alcorão, eternamente se regozija? E a segunda lei da termodinâmica?

As mortes dos insetos e vermes, cujos corpos rapidamente são absorvidos pela terra, o mato e o asfalto da estrada, tentam dizer a Ahmad, demoníacas, que a morte dele será igualmente pequena e definitiva. No caminho da escola, ele percebeu um sinal, uma espiral traçada na calçada em icor luminoso, o visgo angelical do corpo de alguma criatura vil, um verme ou lesma do qual esse vestígio é tudo que resta. Aonde iria essa criatura, descrevendo uma espiral centrípeta sem nenhum sentido? Se estava tentando se afastar da calçada quente que a assava viva sob o sol forte, foi um equívoco, e os círculos por ela descritos se revelaram fatais. Porém no centro da espiral não ficou nenhum minúsculo corpo de verme.

Então para onde voou aquele corpo? Talvez tivesse sido arrebatado por Deus e levado diretamente para o Céu. O professor de Ahmad, o xeique Rashid, imã da mesquita que fica num sobrado em 27811/2 West Main Street, lhe diz que, segundo a tradição sagrada da Hadith, tais coisas acontecem: o Mensageiro, montado no cavalo alado branco Buraq, foi guiado através dos sete céus pelo anjo Gabriel até um determinado lugar, onde ele rezou com Jesus, Moisés e Abraão antes de voltar à Terra, para se tornar o último dos profetas, o maior de todos. São provas de suas aventuras naquele dia as marcas deixadas pelo casco de Buraq, nítidas e límpidas, no Rochedo sob a Cúpula sagrada no centro de al-Quds, chamada de Jerusalém pelos infiéis e sionistas, cujos tormentos nas fornalhas do Jahannan são bem descritos nas suras de número 7, 11 e 50 do Livro dos Livros.

O xeique Rashid recita com uma belíssima pronúncia a sura 104, referente ao Hutama, o Fogo que Consome:

E quem te ensinará o que é o Fogo que Consome?
É o fogo de Deus a arder,
Que abrasará os corações dos amaldiçoados.
Em verdade, elevar-se-á sobre eles como uma abóbada,
Em colunas estendidas.

Quando Ahmad tenta extrair das imagens do texto em árabe do Alcorão - as colunas estendidas, fe- 'amadin mumaddada, e a abóbada a se elevar acima dos corações da multidão encolhida de terror, tentando enxergar em meio à névoa quente que se estende a perder de vista, na-ru 'l-la-hi 'l-mu-qada - algum indício de que o Misericordioso em algum momento se compadece e faz com que se detenha o Hutama, o imã baixa os olhos, que são de um inesperado tom claro de cinzento, leitosos e esquivos como os de uma mulher africana, e diz que essas descrições visionárias do Profeta têm sentido figurado. Na verdade, elas se referem ao sofrimento ardente de estar separado de Deus e ao ardor do remorso causado por nossos pecados contra Seus mandamentos. Porém Ahmad não gosta da voz do xeique Rashid quando ele diz essas coisas. Ela o faz pensar nas vozes pouco convincentes de seus professores no colégio. Por trás dela Ahmad detecta a voz de Satanás, uma voz que nega dentro da que afirma. O Profeta se referia ao fogo físico quando pregava um fogo inclemente; Maomé proclamou vez após vez a existência factual do fogo eterno.

O xeique Rashid não é muito mais velho do que Ahmad - talvez dez anos, talvez vinte. Há poucas rugas na pele branca de seu rosto. Seus gestos são tímidos, ainda que precisos. Nos anos de vida que o separam de Ahmad, o mundo o enfraqueceu. Quando o murmúrio dos demônios interiores transparece na voz do imã, Ahmad sente em seu próprio ser um desejo de levantar-se e esmagá-lo, tal como Deus queimou aquele pobre verme no centro da espiral. A fé do discípulo é maior que a do mestre; o xeique Rashid tem medo de se ver montado no corcel alado branco do islã, a galopar com ímpeto irresistível. Ele tenta suavizar as palavras do Profeta, harmonizá-las com a razão humana, mas elas não foram feitas para isso: são palavras que penetram a nossa frouxidão humana como uma espada. Alá é sublime além de todas as particularidades. Não há outro Deus senão Ele, o Vivo, o Auto-suficiente; Ele é a luz comparada com a qual o sol parece negro. Ele não se harmoniza com a nossa razão, porém obriga nossa razão a se curvar, encostando a fronte no pó e ostentando, tal como Caim, a marca desse pó. Maomé era um mortal, porém ele visitou o Paraíso e conviveu com as realidades que lá existem. Nossos atos e pensamentos foram escritos na consciência do Profeta com letras de ouro, como as palavras candentes feitas de elétrons que o computador cria quando digitamos num teclado.

Os corredores do colégio cheiram a perfume e exalações corpóreas, goma de mascar e comida impura do bandejão, e também pano - algodão, lã, os materiais sintéticos dos tênis de corrida, aquecidos por carne jovem. No intervalo entre as aulas explode um trovão de atividade; o ruído recobre como uma membrana fina a violência subjacente, contida por um triz. Às vezes, no momento mais tranqüilo ao término das aulas, quando a barulheira triunfal e irreverente da volta para casa já se extinguiu e apenas os alunos envolvidos em atividades extracurriculares permanecem no prédio enorme, Joryleen Grant aproxima-se de Ahmad, junto a seu armário. Ele participa da equipe de atletismo na primavera; ela canta no coral feminino. Para os padrões da Central High, eles são alunos "bons". A religião dele o afasta das drogas e do vício, mas também o mantém isolado dos colegas e dos estudos curriculares. Ela é baixinha e rechonchuda, e fala bem em aula, agradando os professores. Há uma autoconfiança encantadora no modo compacto como seu corpo rotundo, cor de cacau, preenche suas roupas, que hoje consistem num jeans remendado e enfeitado com aplicações de metal, gasto no trecho que encosta no assento das cadeiras, e um bustiê magenta drapeado, mais decotado e mais curto do que deveria ser. Passadores de plástico azul prendem o cabelo reluzente para trás, esticando-o tanto quanto possível; a borda gorducha da orelha direita ostenta em sua dobra uma fileira de minúsculos brincos de prata. Ela canta em eventos comemorativos, canções sobre Jesus ou anseio sexual, dois temas que Ahmad julga abomináveis. No entanto, agrada-o constatar que ela repara nele, aproximando-se do rapaz de vez em quando como uma língua que testa um dente dolorido.

"Se anima, Ahmad", ela o provoca. "As coisas não podem estar tão ruins assim." Ela levanta o ombro seminu, para indicar que está falando de brincadeira.

"Não estão ruins, não", diz ele. "Eu não estou triste." Seu corpo alongado está pinicando sob as roupas - camisa branca, jeans preto justo - por causa da chuveirada que ele tomou depois da educação física.

"Você está com uma cara muito séria", ela insiste. "Você devia aprender a sorrir mais."
"Por quê? Por que é que eu devia, Joryleen?"

"As pessoas vão gostar mais de você."

"Isso não me interessa. Não quero que gostem de mim."

"Interessa, sim", ela retruca. "Todo mundo se interessa."

"Você é que se interessa", diz ele, olhando para ela com desdém do alto de seu corpo recém-espichado. O volume dos seios aparece, como duas bolhas enormes, pelo decote do bustiê indecente que, na outra extremidade, expõe o ventre gordo e o umbigo profundo. Ele imagina aquele corpo liso, mais escuro que caramelo porém mais pálido que chocolate, assando naquelas chamas eternas, coberto de bolhas; estremece de piedade, pois ela está tentando ser simpática com ele, de acordo com a concepção que tem de si própria. "Miss Simpatia", diz ele, debochado.

O comentário a magoa, e ela se afasta, empurrando os livros pesados que leva para casa contra os seios, aprofundando a fenda entre eles. "Vá tomar no cu, Ahmad", diz, ainda com um toque de ternura incerta; o lábio inferior, macio e pesado, está um pouco caído. A saliva nas gengivas reflete a luz das lâmpadas florescentes no teto, que mantêm o corredor iluminado e seguro. Para salvar aquele encontro, embora tenha se virado para encerrá-lo, Joryleen acrescenta: "Se não estivesse interessado, você não ia fazer questão de usar uma camisa branca limpa todo dia, como se fosse um pastor. Como é que a sua mãe agüenta passar tanta roupa?".

Ele não se dá o trabalho de explicar que aquela roupa cuidadosamente escolhida significa que ele é um não-combatente, evitando tanto o azul, a cor dos Rebels, a gangue de afro-americanos da Central High, quanto o vermelho, que é sempre usado, mesmo que apenas num cinto ou numa faixa na testa, pelos Diabolos, a gangue hispânica. Também não lhe diz que sua mãe raramente passa roupa, pois é auxiliar de enfermagem no Saint Francis Community Hospital e pintora nas horas vagas, e só vê o filho menos de uma hora por dia. As camisas dele são entregues dobradas e envoltas em um papelão pela tinturaria, cuja conta ele paga com o dinheiro que ganha trabalhando como balconista na Shop-a-Sec da Tenth Street duas noites por semana, nos fins de semana e nos feriados cristãos, quando a maioria dos meninos de sua idade está na rua se metendo em encrencas. Porém, ele sabe, há vaidade em seu traje, uma exibição que ofende a pureza do Senhor do Universo.

Ahmad percebe que Joryleen não está apenas tentando ser simpática: ele desperta sua curiosidade. A moça quer se aproximar dele para cheirá-lo mais de perto, muito embora já tenha um namorado com fama de "mau". As mulheres são animais fáceis de domesticar, o xeique Rashid já alertou Ahmad, e ele vê com os próprios olhos que no colégio e no mundo maior fora dele as pessoas estão o tempo todo se afocinhando - animais cegos numa manada, esbarrando uns nos outros, procurando por um cheiro que os conforte. Mas o Alcorão afirma que só há conforto para aqueles que acreditam no Paraíso invisível e que observam o mandamento de rezar cinco vezes por dia, que o Profeta trouxe para a Terra depois da viagem noturna montado no dorso largo de Buraq, o corcel de alvura resplandecente.

Joryleen continua parada ali, perto demais dele. Seu perfume perturba as narinas do rapaz; a fenda entre seus seios o incomoda. Ela muda de posição os livros pesados que leva nos braços. Ahmad lê na borda do volume mais grosso as palavras traçadas a esferográfica: JORYLEEN GRANT. Os lábios da garota, pintados com um batom de um tom metálico e luminoso de rosa para parecerem mais finos, o surpreendem por exprimir constrangimento. "O que eu queria perguntar a você", ela consegue dizer, com tanta hesitação que ele é obrigado a abaixar-se para ouvi-la melhor, "era se você está a fim de ir lá na igreja neste domingo para me ouvir dar um solo no coral."

Ele fica chocado, sente repulsa. "Não sou da mesma fé que você", responde, sisudo.
Ela retruca num tom leve, indiferente. "Ah, eu não levo essas coisas muito a sério, não. Eu quero mais é cantar."

"Agora você realmente conseguiu me fazer ficar triste, Joryleen", diz Ahmad. "Se você não leva a sua religião a sério, não devia ir lá." Ele fecha a porta do armário com força, movido por uma raiva dirigida mais contra si próprio, por ter rejeitado e censurado a garota quando, ao fazer um convite, ela estava mais vulnerável. O rosto vermelho de vergonha, Ahmad vira-se para Joryleen, para ver o mal que fez, e constata que ela está indo embora, exibindo com a maior tranqüilidade as aplicações metálicas nos fundilhos do jeans. O mundo é difícil, pensa ele, porque está cheio de demônios sempre a confundir as coisas e entortar o que é reto.(X)