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Cascatas da Namaacha: sete anos depois da seca

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Moçambique: Caça furtiva, uma chaga

A Polícia moçambicana (PRM) deteve a 25 de Junho último dois cidadãos estrangeiros, na cidade da Beira, capital da província central de Sofala, por crime de abate ilegal do animal protegido, caça em período de defeso, posse ilegal de armas de fogo e furto de dispositivo electrónico.

Segundo o Departamento de Comunicação do Parque Nacional de Gorongoza (PNG), trata-se de Victor Ildefonso Anselmo, 47 anos, e Juliene Raymond, 56 anos, de nacionalidade portuguesa e francesa respectivamente.

Ambos são indiciados de abate ilegal de um elefante e apoderado indevidamente de um colar – transmissor do sinal via satélite do PNG, no dia 18 ou 19 de Junho último, perto de Chiramba, no distrito de Chemba.

Leia mais: Estrangeiros detidos por caça ilegal de elefantes

Segundo o director do Departamento de Conservação do PNG, Carlos Lopes Pereira, “o elefante denominado G4, facilmente identificável pelo colar – transmissor de grande porte que levava ao pescoço, movimentava-se, frequentemente, entre o Parque e o rio Zambeze, passando pelas Coutadas de Caça, facto conhecido pelos responsáveis e pelas comunidades”.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Mia Couto – Homenageado no Brasil, afirma que reforma ortográfica não faz sentido

Antes da unificação da grafia da língua portuguesa nos países africanos que falam oficialmente o português, é preciso discutir questões do âmbito social e político, defende o escritor moçambicano Mia Couto para quem a reforma ortográfica não faz sentido.

"Eu não tenho uma posição militante em relação a isso, não dou essa importância. Reconheço que pode haver algumas razões para se fazer uma reforma ortográfica. Eu sou crítico ao discurso que foi feito para justificar o acordo para ficarmos mais próximos, para nos entendermos melhor, isso é mesmo mentira", disse.

Para Mia Couto, os falantes da língua portuguesa já se entendem, "é mentira que tenhamos nos afastado do ponto de vista cultural do conhecimento". E complementa que "nós já nos entendemos, eu sempre li brasileiros sem dificuldade nenhuma".

De acordo com o sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras que está no Rio de Janeiro para o Festival de Teatro da Língua Portuguesa, o que afasta o mundo lusófono são as "opções políticas e estratégias que as elites desses países têm". Se estas questões não forem discutidas, segundo disse à Lusa o escritor moçambicano, "vamos criar um mal entendido pensando que automaticamente, por uma razão técnica, nós vamos chegar a uma maior proximidade".

Mia Couto diz sentir prazer em ler autores brasileiros com "elementos gráficos diferentes para que essa diversidade esteja presente". E refere não ter "medo de uma língua que tenha diversidades com a tradução de marcas culturais e geográficas, não temos que ter medo disso".

Ele afirma-se resistente ao Acordo Ortográfico que no Brasil vigora desde 1 de Janeiro deste ano. Para o escritor, os países pobres de língua portuguesa precisam "resolver uma série de outras coisas antes (da reforma) que não sei se estão a ser discutidas".

"Entendo que em Portugal este assunto foi tido com muito mais nervos e componentes psicológicos" e contrapôs que em Moçambique, um país com mais de 25 línguas africanas, o português é tido como segunda língua. "As pessoas lá são quase sempre multilíngues, pois falam duas ou três línguas africanas."

Com seu livro recém lançado no Brasil "Antes de nascer o mundo", cujo título em Portugal e em Moçambique é "Jesusalém", Mia Couto considera-se antes de tudo um poeta e diz que o que lhe fascina na prosa é o "poder fazer a criação poética, não só em cima da linguagem, mas em cima da narrativa".

"Para mim a poesia não é só um gênero literário, é uma maneira de eu ver o mundo, de eu sentir o mundo", salientou ao destacar que a literatura ainda pode causar encantamento e criar utopias.

"A literatura pode mostrar o gosto de se poder sonhar e se poder construir outros dias. Não é o escritor que desenha um caminho para a saída, mas ele mostra que há um prazer em encontrar um mundo para além desse", declarou.

Após 16 anos de guerra civil com um saldo de um milhão de mortos, Mia Couto se diz céptico, mas que a literatura pode ajudar a cicatrizar as feridas.

"Eu faço arte, literatura, e sou movido por este desejo de ter um compromisso ético de criar uma sociedade nova em Moçambique, um mundo mais justo com mais verdade", explicou.

Mia Couto é homenageado na abertura de Festival de Teatro no Brasil

O escritor moçambicano Mia Couto foi o homenageado no Festival de Teatro da Língua Portuguesa (Festlip) que decorre até dia 12, no Rio de Janeiro, e leva ao Brasil onze espectáculos teatrais de seis países lusófonos.

"Estamos a consolidar uma parte da cultura de nossa língua portuguesa. O Mia Couto é homenageado pelo que ele representa e pelo incentivo que dá aos grupos de teatro. É uma pessoa que o teatro de língua portuguesa tem se alimentado", afirmou na noite de abertura do festival a idealizadora do evento, a actriz e produtora Tânia Pires.

Esta segunda edição do festival que já integra o calendário cultural carioca reúne 80 profissionais de teatro de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e Portugal.

Cada país será representado por duas companhias, a excepção de Guiné-Bissau, que faz sua estreia no Festlip com montagem do Grupo do Teatro do Oprimido, criado no país pelo recém-falecido dramaturgo Augusto Boal.

Na programação, além da palestra de Mia Couto cujo tema será a "metamorfose da literatura para o teatro", será encenado pelo Grupo Tijac, de Moçambique, o espectáculo "Mar me Quer", baseado na obra de sua autoria.

Mia Couto disse ter tido dúvidas se aceitava o convite para o festival e afirmou ter pensado em declinar e dedicou a homenagem a todos os "heróis fazedores de teatro".

O escritor disse que na reprodução das suas obras literárias para o teatro e para o cinema, há uma "tentação de que aquilo que fizemos pelo menos não morra".

"Significa que há um diálogo entre linguagens diferentes. Transplantar significa exactamente semear no outro terreno e o que vai nascer será uma outra coisa, eu noto que meu trabalho serviu de inspiração, de ponto de partida", afirmou, ao referir que procura não ter a expectativa de que o que está a ser feito possa ser um "prolongamento" de sua obra.

Nascido em Beira, Moçambique, em 1955, Mia Couto é sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras. Além de jornalista, ex-militante político e biólogo, Mia Couto é considerado um dos grandes escritores contemporâneos africanos de literatura de expressão portuguesa.

Entre seus prémios, o moçambicano foi distinguido pelo conjunto da sua obra com o Prémio Vergílio Ferreira 1999 e também recebeu o Prémio União Latina de Literaturas Românicas em 2007.

A expectativa para este ano é de que cerca de 18 mil pessoas circulem pelas eventos culturais e assistam aos espectáculos teatrais, todos com entrada franca.

O segundo Festlip conta com apoio das embaixadas de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Portugal, Instituto Camões, Ministério da Cultura, Fundação Palmares e Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Michael Jackson homenageado em Nova Iorque horas antes de o seu corpo começar a ser velado

(Imagem registada dois dias antes da morte do "Rei" - Num ensaio)

Durante várias horas, milhares de fãs de Michael Jackson reuniram-se junto ao cine-teatro Apollo, em pleno Harlem (Nova Iorque), para prestar homenagem ao malogrado cantor. O “Rei da Pop” pisou o palco do Apollo quando tinha nove anos, integrado nos Jackson 5, o grupo que formava com os irmãos mais velhos. Na sexta-feira, o corpo do cantor começa a ser velado no rancho de Neverland.

Milhares de pessoas formaram uma longa fila à porta do cine-teatro para assistirem a um tributo musical de 45 minutos que se repetiu ao longo do dia no ecrã do cinema.

“Ele é nosso irmão, nosso amigo”, disse Al Sharpton, activista dos direitos humanos e amigo de Michael Jackson, às primeiras pessoas a chegarem à sala de cinema. “Hoje vamos amar o Michael”, indicou Sharpton, citado pela Reuters.

Michael Jackson morreu de paragem cardíaca em Los Angeles na passada quinta-feira, a poucos dias de começar uma nova série de concertos que tinham como objectivo reanimar a sua carreira, parada desde 2005, altura em que foi acusado – e mais tarde ilibado – pela justiça americana de abuso sexual de crianças.

Medicamento usado em anestesias encontrado em casa do cantor

Ainda há mais especulações que certezas acerca da causa da morte de Michael Jackson. As análises toxicológicas ao sangue do cantor ainda devem demorar vários dias até que produzam resultados conclusivos.

De acordo com o site TMZ.com - o primeiro a anunciar a morte do cantor - terá sido encontrado na casa onde Michael Jackson veio a morrer um medicamento usado em anestesias cirúrgicas. O fármaco só pode ser vendido a pessoal médico e um dos principais efeitos secundários do Propofol é a paragem cardíaca, se for tomada a par com analgésicos.

Uma antiga enfermeira de Michael Jackson, Cherilyn Lee, anunciou, por seu lado - citada pela CNN -, que a estrela pop a pressionou, sem sucesso, para que esta lhe comprasse Diprivan, o nome genérico do Propofol.

Neverland será o cenário do último adeus

Entretanto, o rancho californiano de Michael Jackson – Neverland, a 150 quilómetros a noroeste de Los Angeles – prepara-se para acolher o funeral do “Rei da pop”, cujo corpo deverá ser exposto publicamente a partir de sexta-feira.

Depois da cerimónia pública de vigília, o cadáver deverá ser enterrado numa cerimónia privada, reservada aos membros da família e amigos próximos, no domingo, embora esta informação ainda não tenha sido confirmada pelas autoridades do condado de Santa Barbara, onde está instalado rancho. As autoridades locais estão apreensivas quanto às cerimónias fúnebres, uma vez que é esperada uma legião de fãs, curiosos e jornalistas no último adeus ao cantor. De acordo com a AFP, a estrada de acesso a Neverland já estava ontem à noite cheia de camiões de transmissão por satélite das principais cadeias de televisão americanas e os hotéis da região ficaram completamente esgotados.

A decisão da família de transportar o corpo cantor para Neverland poderá indicar que a família quer fazer do rancho a última morada de Michael Jackson, à imagem de Graceland, onde está enterrado Elvis Presley.

Michael Jackson comprou o rancho de mais de mil hectares em 1988, numas colinas chamados Los Olivos, e instalou no seu perímetro um jardim zoológico e um pequeno parque de atracções, que foram desmantelados em 2005, em parte para pagar as custas judiciais do seu julgamento por abuso de menores.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Mia Couto no Brasil para lançar o livro “Antes do Sol Nascer”, “Jerusalém” em Moçambique

O escritor, jornalista e dramaturgo moçambicano Mia Couto está desde quinta-feira no Brasil - primeiro em São Paulo para lançar o seu novo romance -, e depois no Rio de Janeiro para ser homenageado.

O livro, que é lançado simultaneamente em vários países, tem uma particularidade: em Moçambique, Angola e Portugal chama-se Jerusalém; no Brasil tem como título Antes de Nascer o Mundo. O romance conta a história de um lugar, Jerusalém, onde vive o que restou da humanidade e de Silvestre Vitalício, dos seus dois filhos, um tio dos rapazes e um empregado.

À “Folha de São Paulo”, o escritor explica: "No interior de Moçambique deparei com famílias que viviam numa quase completa condição de marginalidade. Estavam aparentemente longe de tudo. Trabalhei com essas comunidades e reparei sempre que, depois de um primeiro olhar, a ligação umbilical com o mundo de hoje estava presente". É dessa ligação que Vitalício, o líder do pequeno lugar, tenta sair. Mais concretamente das recordações que o mundo real lhe traz - a morte de Dordalma, mãe dos seus filhos. A tentativa de apagar o passado é também uma fuga da guerra que fez um milhão de mortos no país.

"Os moçambicanos escolheram o esquecimento. Quem hoje viaja pelo país não sente sinal nenhum dessa guerra. Esse esquecimento é uma sabedoria, uma percepção de que os demónios do passado ainda não foram enterrados. Mas é um falso esquecimento, como quase sempre sucede com os lapsos de memória", diz Couto à “Folha de São Paulo”.

Depois de ter participado, sexta-feira, num debate no Sesc Avenida Paulista, é a vez de ser homenageado, dia 3 de Julho, no Festival de Teatro da Língua Portuguesa. A partir de 12 Julho, Mia Couto estará em Portugal para o lançamento de Jerusalém.

Mia Couto, 54 anos, lançou 23 livros e ganhou muito prémios, entre os quais o Virgílio Ferreira (1999), União Latina de Literaturas Românticas (2007) e o título de um dos 12 melhores livros africanos do século XX com Terra Sonâmbula.(X)

sábado, 27 de junho de 2009

Michael Jackson: sucesso, polémica e inúmeros adjectivos

Rei do pop, dono do disco mais vendido da história, inventor do videoclipe, maior entertainer vivo. Muitos são os aditivos para se referir a Michael Joseph Jackson,que morreu nesta quinta-feira, 25, aos 50 anos, após sofrer uma paragem cardíaca em Los Angeles. O artista, que vendeu 750 milhões de álbuns e venceu 13 prémios Grammy, encarou os holofotes muito cedo, e teve uma vida marcada por duas constantes, com a mesma grandeza e proporção: sucesso e polémica.

O astro nasceu em 29 de agosto de 1958, em Gary, cidade norte-americana do Estado de Indiana. Ele tinha três filhos: Michael Joseph Jackson Jr., Paris Michael Katherine Jackson e Prince Michael Jackson II. O cantor saiu do anonimato ao lado dos seus quatro irmãos - Jackie, Tito, Jermaine, Marlon - à frente do grupo Jackson Five, que arrebatou consecutivos sucessos nas paradas durante as décadas de 1960 e 1970.

Mas foi sozinho que Jackson viveu o auge e a decadência da sua carreira.

Em 1979, com o lançamento do álbum "Off The Wall" – o primeiro a solo, que arrancou elogios da crítica ao combinar R&B, Black Music e Disco - o cantor começou a experimentar uma exposição cada vez maior na comunicação social, que viria a culminar em 1982, com "Thriller", até hoje o CD mais vendido do mundo, com cerca de 100 milhões de cópias. A 16 de maio de 1983, Jackson apresentou ao mundo o “Moonwalk”, passo de dança em que o cantor deslizava sobre o palco, durante a canção "Billie Jean", num show em Los Angeles. Estava imortalizada a sua marca registada.

Com "Thriller" também começou a era de videoclipes na MTV, emissora que começara a despontar. Em 1984, Jackson recebeu das mãos de Ronald Reagan, então presidente americano, um prémio pelas suas acções filantrópicas. No ano seguinte, adquiriu, por 47,5 milhões de dólares, os direitos sobre as músicas dos Beatles (uma década depois, ele vendeu 50% do catálogo para a Sony Music). O emblemático gesto foi visto mais do uma simples demonstração de poder financeiro: era uma lenda pop a comprar a obra de outra. Nesta época, o cantor também gravou parcerias com o ex-Beatle Paul McCartney.

"The Girl is Mine" e "Say Say Say"

Antes de lançar o seu próximo álbum, Jackson juntou-se a 44 celebridades para gravar a canção We Are The World, com o objectivo de angariar fundos para a África. Como resultado, além dos 200 milhões de dólares arrecadados para a campanha USA For África, o astro levou mais dois Grammys.

Em 1987, entre uma e outra digressão, veio o seu terceiro álbum a solo, "Bad". Apesar de não repetir o sucesso monstruoso do anterior - vendendo "apenas" cerca de 30 milhões de cópias - o disco manteve Jackson em rotação máxima nas rádios e televisões do planeta. Foi nessa época que as especulações sobre quantas cirurgias plásticas o cantor já teria feito começaram a ofuscar a atenção da sua música. O astro aparecia cada vez mais branco e as suas feições já estavam diferentes. As mudanças não passaram despercebidas pela imprensa e anos depois, em 1993, Jackson admitiu na televisão americana que a sua "nova cor" era consequência de vitiligo - explicação que foi contestada por muitos.

Dos palcos aos tribunais

Em 1991, Jackson lançou "Dangerous", álbum cujo título parecia prenunciar o perigoso declínio que a carreira do astro estava prestes a enfrentar. Logo no primeiro single, "Black Or White", o cantor brincava com a discussão sobre a mudança da cor da sua pele ("Se você estiver a pensar em ser minha, não importa se é branca ou preta", dizia o refrão), mas o disco não emplacou no mercado americano da mesma maneira que os anteriores, pelas mudanças trazidas pelo grunge de Nirvana e Pearl Jam, que agora comandavam paradas. Resultado: "só" 7 milhões de álbuns vendidos nos EUA.

Dois anos depois, Jackson estava ocupado na digressão de promoção do disco quando uma denúncia veio à tona. O pai de Jordan Chandler, de 13 anos, afirmava que o cantor havia molestado o seu filho no rancho de Neverland, excêntrica residência do artista que contava com o seu próprio parque de diversões. Jackson negou veementemente as acusações na televisão americana e fez um acordo judicial de 22 milhões de dólares com a família de Chandler para tentar encerrar a polémica. Não conseguiu: nos próximos anos, mais denúncias de pedofilia iriam obscurecer o seu prestígio artístico.

Em 1994, casou-se com Lisa Marie Presley, filha do rei do rock, Elvis, num matrimónio que durou dois anos e foi visto pela imprensa como uma tentativa de deixar para trás a má fase vivida pelas denúncias do escândalo de pedofilia. Um ano depois, lançou um disco duplo "HIStory: Past, Present and Future" que teve a maior campanha de marketing já usada na indústria fonográfica e, mesmo vendendo cerca de 30 milhões de cópias, decepcionou a gravadora. Em 1996, casou-se com a dermatologista Deborah Rowe, com quem teve dois filhos: Michael Joseph Jackson Jr e Paris Katherine Jackson. Terminado o relacionamento, Deborah abriu mão da guarda das crianças para Jackson.

Último disco, novas denúncias

Nos anos seguintes, novamente a polémica tomaria o lugar do sucesso. Em 2001 veio "Invincible", disco que resultou numa queda de braço com a Sony, que tomou decisões sobre a divulgação do trabalho a contragosto do cantor. Jackson alegou preconceito por ser um artista negro e o CD vendeu apenas 8 milhões de cópias em todo o mundo, tornando-se o menos vendido da sua carreira.

Em 2002, o cantor teve o seu terceiro filho, Prince Michael Jackson II, cuja mãe foi mantida em segredo. Um ano depois, outra denúncia de pedofilia: a família do adolescente Gavin Arvizo acusou o astro de ter molestado o filho em Neverland. Em junho de 2005, Jackson foi absolvido pela Justiça americana por falta de provas.

De lá para cá, foram raras as aparições do cantor, embora o seu catálogo estivesse a ser amplamente explorado pela Sony, que lançou várias colectâneas.

Neste ano, anunciou 50 shows em Londres, cujos ingressos se esgotaram em questão de horas. Segundo Jackson, seriam as suas últimas apresentações. A morte, porém, não permitiu que o rei do pop se despedisse oficialmente dos palcos, e veio da mesma maneira que o seu sucesso: fugaz, precoce e incotestável.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Flauta de 35 mil anos é o mais antigo instrumento musical

"É, sem dúvida, o mais antigo instrumento musical do mundo", escreve a revista Nature

Uma flauta de osso de pássaro descoberta numa caverna da Alemanha foi entalhada há cerca de 35 mil anos e é o mais antigo instrumento musical artesanal já descoberto, dizem arqueólogos, oferecendo a mais nova evidência de que as primeiras populações humanas da Europa tinham uma cultura complexa e criativa.

Uma equipe liderada pelo arqueólogo Nicholas Conard, da Universidade de Tübingen, montou a flauta a partir de 12 fragmentos de osso de abutre, espalhados por uma pequena área da caverna de Hohle Fels, no sul da Alemanha.

Juntas, as peças formam um instrumento musical de 22 centímetros com cinco furos e uma extremidade em forma de "V". Coranrd disse que a flauta tem 35 mil anos de idade.

"É, sem dúvida, o mais antigo instrumento musical do mundo", disse o arqueólogo. A descoberta está descrita na edição desta semana da revista "Nature".

Outros arqueólogos concordaram com a avaliação de Conard.

A arqueóloga especializada no período paleolítico April Nowell, da Universidade de Victoria, no Canadá, disse que a data da flauta é anterior à de outros instrumentos, "mas não tão mais antiga que chegue a ser surpreendente ou polémico". Ela não tomou parte no trabalho de Conard.

A flauta de Hohle Fels é mais completa e um pouco mais velha que fragmentos de osso e marfim de sete outras flautas, também encontradas no sul da Alemanha e documentadas por Conard e colegas nos últimos anos.

Outra flauta, descoberta na Áustria, teria 19 mil anos, e um conjunto de 22 flautas encontradas nos Pirineus franceses foram datadas de 30 mil anos atrás.

A equipe de Conard escavou a flauta em setembro de 2008, o mesmo mês em que descobriu seis fragmentos de marfim em Hohle Fels que compõem uma estatueta feminina que, acredita-se, é a mais antiga escultura de uma forma humana.

Juntas, flauta e estatueta - descobertas na mesma camada de sedimento - sugerem que seres humanos anatomicamente modernos haviam estabelecido uma cultura avançada na Europa há 35 mil anos, disse o arqueólogo Wil Roebroeks, da Universidade de Leiden, na Holanda, e que não tomou parte em nenhuma das duas descobertas.

Roebroeks disse que é difícil saber qual o grau de inteligência ou de desenvolvimento social desse povo. Mas os vestígios materiais que deixaram - escultura, instrumentos musicais, adornos - combinam com objectos associados ao comportamento dos seres humanos modernos.

"Isso mostra que, já no momento em que os humanos modernos entraram na Europa... em termos de cultura material, eram tão modernos quanto possível", disse ele.

Neandertais também viviam na Europa na época em que a flauta e a estatueta foram feitas, e frequentaram a caverna de Hohle Fels. Tanto Conard quanto Roebroeks acreditam, no entanto, que os depósitos de vestígios deixados por ambas as espécies, ao longo de milhares de anos, indicam que os artefactos foram criados por humanos.

"O registro material é tão completamente diferente do que aconteceu nas centenas de milhares de anos anteriores, com os neandertais", disse Roebroeks. "Eu apostaria que humanos modernos criaram e tocaram essas flautas".

Em 1995, o arqueólogo Ivan Turk encontrou um osso de urso numa caverna da Eslovénia, e que ficou conhecido "a Flauta de Divje Babe". Turk datou o objecto de 43 mil anos atrás e sugeriu que fosse uma flauta usada por Neandertais.

Mas outros arqueólogos puseram a hipótese em questão, sugerindo que os furos feitos no osso eram marcas dos dentes de um animal carnívoro.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Kodak anuncia o fim do rolo de diapositivos a cores mais antigo do mercado

O retrato icónico que Steve McCurry captou da afegã Sharbat Gula, em 1984, parece confirmar a descrição que muitos fizeram das cores presentes nas fotografias registadas em rolos Kodachrome - tonalidades “vibrantes, ricas e intensas”. A imagem que correu mundo e que foi capa da National Geographic passará a fazer parte de um memorial muito particular ligado ao suporte com que foi conseguida já que a Eastman Kodak Company anunciou ontem que deixará de produzir este tipo de película, 74 anos após ter sido colocada à venda.

Aquele que era o mais antigo rolo a cores do mercado – celebrado também na música por Paul Simon numa canção de 1973 cujo refrão pedia: “Mamã não me tires o Kodachrome” - tinha um processo de fabrico complexo e uma revelação igualmente complicada. Nos últimos anos, o aparecimento de rolos com resultados a nível da cor semelhantes e menos dispendiosos, bem como a massificação do suporte digital (o próprio Steve McCurry fotografa preferencialmente em digital) fizeram com que as vendas significassem uma pequena parcela do um por cento de receita que a Kodak tem com as películas.

As exigências técnicas da revelação dos Kodachrome transformaram-se também num obstáculo ao ponto de hoje existir apenas um laboratório no mundo (Dwayne`s Photo, Kansas, EUA) capaz de dar vida a este tipo de imagens. A empresa estima que os stocks de diapositivos Kodachrome deverão terminar no início do Outono. Por seu lado, o Dwayne`s Photo anunciou que só revelará os filmes até afinal de 2010. Steve McCurry terá o privilégio de usar os últimos rolos e as fotografias que deles saírem serão entregues ao museu Eastman House, em Rochester (EUA).

Perante um cenário em que os rolos eram utilizados por um grupo muito restrito de fotógrafos, a empresa americana não precisou de pedir à mãe de ninguém para acabar com o Kodachrome. Ela própria tirou-o do mercado.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Zena – essa grande diva da música Macua

Por Edmundo Galiza Matos

Conheci-a nos primeiros anos da década de 80 do século passado em Nampula. Ela, o Gimo (Mendes) Abdul Remane e o Salvador Maurício.

Os três tinham fortes ligações com a Casa da Cultura, organismo sob responsabilidade da Direcção Provincial de Educação, à frente da qual estava o actual ministro do pelouro, Aires Ali.

Zena Bacar (seu nome completo), com quem raramente cruzo no emaranhado das ruas e avenidas de Maputo, continua ligada a música e muito recentemente esteve num evento cultural na China, integrada num grupo do qual fazia parte o meu amigo Chico António, também ele um artista musical de grande calibre. Disse-me, a Zena, no último encontro que está na forja o seu primeiro disco a solo, a ser gravado num dos estúdios de Maputo.

O Gimo (Mendes) Abudl Remane, esse divide a sua vida, privada e artística, entre a Dinamarca e a Ilha de Moçambique, esse património mundial defronte do qual fica Mussoril, sua terra natal. Sei que para além de se apresentar em espectáculos, tanto nas escandinavas como em Moçambique e outras paragens, o Gimo dedica-se, aqui e ali, a dar aulas ou a proferir palestras sobre música, sobretudo a tradicional. Tem gravado um disco, “A Luz”, de 2005, com o selo da “Gateway”. Tomo conhecimento que acaba de ser nomeado, juntamente com o seu compatriota, Deodato Siquir, para a categoria de Melhor Artista Africano – Dinamarca (DK) 2009, cuja indicação dos premiados está prevista para Outubro próximo.

O Salvador Maurício, como se sabe, já não está no mundo dos vivos. Deixou-nos uma obra antológica, considerada o primeiro registo em disco de canções cantadas em Ximácua. Uma das suas canções, “Os Ratos Roeram Tudo”, muito popular, viria a ser banida na Rádio Moçambique, então única estação radiofónica no pais. Razões: de cariz eminentemente política, a letra criticava os dirigentes, no caso provinciais, de se apoderarem de todos os produtos alimentares e outros, escassos no mercado na altura, deixando para o grosso dos consumidores (população) quantidades insignificantes. Do género “Eles Comem Tudo, Não Deixam Nada” de Zeca Afonso. Estava-se na era do monopartidarismo em Moçambique.

Outros contextos históricos bem determinados, onde, curiosamente, a “filtragem” do que podia ou não ir para o “AR” na RM e outros media públicos de então era selada por alguns escribas que hoje, em jornais ditos “independentes”, “berram” aos quatro ventos contra a existência de uma Foice para capar os jornalistas mais atrevidos. Um deles – exactamente aquele que achou por bem banir a música “Os Ratos Roeram Tudo”, acabou ele próprio por zarpar para as Costas Ibéricas.

E porque estava a falar sobre o Salvador Maurício, vale a pena referir que ele legou-nos dois discos, ambos gravados e editados pela RM: On Hipiti (Ilha de Moçambique) em 1982 e, um ano depois, “Salvador Maurício”.

Enquanto na primeira obra pontificaram as colaborações de músicos do então grupo RM (Sox, José Guimarães, Milagre Langa, Zeca Tcheco, Pedro Ben, Wazimbo, Ernesto Zevo, José Mucavele e Alípio Cruz (Otis) e ainda Hortêncio Langa), na segunda o Salvador socorreu-se dos préstimos da “malta” da sua terra, Nampula, nomeadamente, Roque, Orlando, Eurico e Valentim Centura, nomes então desconhecidos mas que terão imprimido na obra sonoridades daquela região do país. Fernando Azevedo e António Francisco Cuna, já falecidos, foram os técnicos que registaram as duas obras, editadas em suporte vinil.

Mais tarde, os três (Gimo, Salvador e Zena) formariam então aquela que viria a ser a primeira banda estruturada da província de Nampula, o Eyuphuro, na qual pontificaram outros nomes, entre eles o Omar Issá. Uma banda incontornável no cancioneiro nacional, autora de três discos gravados em Maputo – um dos quais pela Rádio Moçambique – e na Grã-Bretanha.

Se é verdade que o trio só viria à ribalta da música moçambicana após a gravação da canção “Os Ratos Roeram Tudo”, não o é menos o facto de o primeiro registo das suas músicas ter sido feito por mim, em fita magnética “Scotch”, no Emissor Provincial da Rádio Moçambique em Nampula. Deve ter sido entre 1983/84. Infelizmente tal registo perdeu-se no emaranhado dos vários quilómetros de fita em bobines que existiam na discoteca daquele emissor.

A gravação foi feita nas antigas e degradadas instalações do emissor, num estúdio equipado com uma consoleta dos anos 30/40 (RCA, a válvulas) e a que acoplei um misturador romeno de má qualidade, com seis entradas para os microfones. O gravador era uma Revox PR 99, mono, moderna e um luxo na altura.

Para os padrões de então, a qualidade do registo era razoável e convenço-me agora que terá sido aquela tosca experiência que terá levado a Zena, o Gimo e o Salvador a pensar em “voos mais altos” e, de violas a tiracolo, rumarem para a sede da Rádio Moçambique, em Maputo, onde tinham melhores condições técnicas de gravação e edição das suas canções. A aposta deu certo.

Hoje, tal como referi, a Zena Bacar prepara-se para pôr no mercado o seu disco a solo, juntando-se assim a outras mulheres de Nampula, entre elas as irmãs Domingas e Belita. Recentemente, a “Diva da Música Macua” esteve na República Popular da China, integrada num grupo que incluía o Chico António, para se apresentar num evento cultural sino-africano. Ao que me contaram, não se saíram nada mal.