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Cascatas da Namaacha: sete anos depois da seca

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segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Fim de semana alucinante sob os efeitos do Mwaken Mwalo

"Já em Maputo e em plena 25 de Setembro, vejo o Ricardo Rangel a atrapalhar o intenso trânsito, dançando nu ao som de John Coltrane e a gritar: “O fusion de Jimmy Dludlu não é jazz, meus senhores”.

O leitor quer passar pela experiência? Nada mais fácil. A receita está aí.


Mas atenção que a “paulada” varia de pessoa para pessoa. Por exemplo: ao defunto Niquinha podia dar-se-lhe a andar de facão em punho a esquartejar todo o ser vivente que se lhe atravessasse o caminho e aí, então, teriamos toda a malta a gritar: Makwen Mwalo, o que é macua, significa “arranquem-lhe a faca”.



Leia mais esta crónica da minha autoria (Click)

domingo, 27 de abril de 2008

MATOLINHAS: PAGUEM A DÍVIDA Á ÂNGELA CHIN

Por: Edmundo Galiza Matos
Aos dois colegas coloquei na “mesa de negociações” duas modalidades de pagamento para o servicinho que lhes acabara de propôr: a um, sessões diárias de copos, durante um mês, em qualquer espelunca do Alto-Maé; ao outro, o desembolso, daí a alguns dias, de 150 mil meticais (hoje 150,00 Mt). Era pegar ou largar, disse-lhes, qual empresario empedernido, embora não passasse de um eterno “tchonado”.
No primeiro caso, o compromisso era fácil de honrar já que, embora “patrão”, participaria das sessões de copos; já no segundo acerto, a coisa era bem mais complicada, uma vez que 150 paus na altura era muita mola e não seria de ânimo leve que se abriria a carteira, coisa alias que não utilizava porque desnecessária para um indigente financeiro.
O António Egídio, homem até hoje dado à vida boêmia e o que ela proporciona a espíritos divertidos como só o dele, nem sequer retincenciou. Foi um fácil “tudo bem brother” e, antes mesmo do arregaçar das mangas, logo na primeira oportunidade desviou-me para o “Galo Verde”, com passagem pelo “Machado” e “Coutinho”, donde saimos já de madrugada a balbuciar qualquer coisa parecida com o mandarim do mais puro.
A Ângela Chin, a quem prometera os 150, até hoje, volvidos quase 12 anos, cobra-me a dívida. Debalde. Não porque não os tenha, mas mais por embaraço perante aquela “charlatinice” que ela, muito divertida, a conta como mais um episódio dos muitos de que a RM é prenhe.
Assim, entre copos de cerveja e uma dívida não liquidada, nasce o “Matolinhas”.Equipe Técnica: Ângela, Locutora/Monitora; Egídio, Sonorizador/Monitor. Os imberbes Bambia Jr, Mito Chongo e o Mundinho, presunçosamente se auto-designaram de Produtores, Realizadores e Repórteres e tantos outros adjectivos que … enfim.
A 9 de Junho de 1996 o “Matolinhas Zero” é registado em fita magnética, depois de sessenta dias de preparação e cinco horas de gravação e regravações para um produto final de uma hora. Foi um trabalhão pô… O Egídio e a Chin maldiziam a sua sorte e, acredito, proferiam nas minhas costas e nas dos “putos” os mais desbocados impropérios, só não romperam o contrato porque a amizade que nos unia (e nos une) valia o sacrifício.
Um ou dois meses depois acontece o “desmame” e a produção, edição e apresentação do “Matolinhas” é entregue aos que, durante os anos subsequentes, foram mantendo, melhorando e aperfeiçoando o programa. Um lapso de tempo que me foi particularmente penoso e simultaneamente gratificante, durante o qual não raras vezes perdia as estribeiras perante o ânimo leve com que o Bambia Jr, o Mito Chongo e o Mundinho se desinvencilhavam para produzirem e manter o programa e, acima de tudo, fazer com que não falhasse no dia e hora marcada: sábado, 8 horas.
O meu maior receio foi que o Izidine Faquirá – Director da Rádio Cidade que autorizou a existência do programa – se decidisse pela sua eliminação da grelha de programas se falhas houvessem. Uma possibilidade feita naturalmente um pesadelo que me atormentava sobretudo às vésperas do dia e hora da sua transmissão. Mas o projecto sobreviveu até aos dias de hoje, felizmente.
Felizmente? Ora, não é tanto assim porque duas tragédias se nos atravessaram no caminho para que o Lázaro Bamo e seus colaboradores continuassem hoje a missão a que o “Matolinhas” se propôs desde a primeira hora. Uma das tragédias teve lugar antes do nascimento do programa, outra dois anos depois.
A primeira, quiça a mais determinante, foi a morte trágica e prematura em março de 1994 do irmão mais velho do Mundinho, Deodato de seu nome.
O abalo, como é natural, foi enorme: a progenitora do falecido e do Mundinho caiu num estado de depressão profundo agravado pela crescente e sombria perspectiva de o grupo de amigos (Mito Chongo, Bambia Jr, Mundinho e tantos outros do bairro) se desmembrasse, tanto mais que alguns já só viam a Africa do Sul como o El Dorado para darem qualquer que fosse o rumo às suas vidas.
Ela, Julieta Dimande, é “despachada” para Londres para refrescar a cabeça não sem antes de partir me arrancar a ferro e fogo a promessa de ficar a resolver o bicudo problema da desorientação dos miudos que deixava para trás.
Que fazer e como numa situação destas? Aparentemente nada. Perante um sentimento de impotência e confusão mental, a fuga às minhas responsabilidades foi a mais fácil e leviana saída que encontrei: solteirão “Ad-Hoc”, a segunda morada eram a Pastelaria Irmâos Unidos, o Centro Social do Partido, o Escondidinho do John e as miseráveis barracas circundantes do então descrépito Cinema/700.
A “Gang”? se cabe aqui nomea-la, aí vai, porque da pesada: os falecidos Benfica e Mondlane e o Monteiro, Ranito, Madau, a minha pessoa e… confesso-o hoje, um ou dois pares de pitas chulas e dadas mais à bebida do que ao sexo.
É neste ambiente, com a mente turbinada pelo fumo dos cigarros mata-rato e sob os efeitos do alcóol, conversas desconexas de boêmios maduros que … Eureka: descubro a fôrmula com a qual iria resolver o imbróglio que se me colocava e sufocava. Vomitada a cerveja, a boca amarga de tanta bita fumada e cheirando intensamente a lúpulo, madrugada adentro, desperto o Mundinho e “ouve-lá, não queres fazer um programa na Rádio Cidade”? O resto é o que todos sabemos.
Portanto assim nasceu e desenvolveu até hoje o nosso programa: os copos com o António Egídio, a dívida à Ângela Chin – que exijo seja exaurida por quem, não quero saber – e, no percurso, a morte daquele que deu a sua voz nos primeiros programas, o Bambia Jr, “que Deus o tenha em conta”, dizemos todos.
Passados todos estes anos que cenários temos? Bom, o primeiro, que a malta não só não “furou a rede” a caminho do desconhecido como temos o engenheiro Palmeirim Chongo (já não o Mito) e um (falam os guerrilheiros macondes) “Camá Chefe" Galiza Matos Jr feito parlamentar e, especula-se, candidato a empresário no ramo da comunicação social.
Finalmente, a passagem do testemunho, algo que foi acontecendo com toda a naturalidade ao longo do percurso, está agora nas mãos do Lázaro Bamo, que deve entregar o bastão (Nduku) do poder aos mais jovens porque tem outros desafios, mais digitalizados, como “Matolão” que é. Mas sempre na perspectiva de que o trabalho nos dignifica e dele extraimos os mais sublimes ensinamentos para a vida.
E se a esta premisa, feita conselho, juntarmos o ditos (quase pagãos) inscritos no vidro traseiro do Chikorokoro Senhor Engenheiro Palmeirim, então a Bíblia não podia ser tão certeira: "Vai, pois, come com alegria teu pão e bebe, com bom coração, o teu vinho, pois já DEUS se agrada das tuas obras". Eclesiastes 9, Versiculos 7 a 10

terça-feira, 11 de março de 2008

Os Devaneios de Um Jornalista Esfomeado

À minha mulher e filhos que, como tantos outros moçambicanos,
“passamos mal” por falta até de uma côdea de pão

Isto não é uma descoberta que me dê o direito de a patentear. Nada disso. De facto: todos nós a experimentamos sempre que alguém ou algo nos amua – normalíssimo.
Há daqueles dias em que se chega a casa, ombros duros que nem pedra, ar de macambúzio e um “olá” neurasténico à cama(...)rada e... Uf, que vida esta porra, um gajo esfola-se, sua que nem burro, o fito é “a vida vai melhorifar e... “tens aí dinheiro para uma de leite, arroz e ...” lá está mais esta, não, o bisini não deu, foi assim uma cabeçada e pronto, lá tem de se curtir uma de olhar para tudo e para nada até fomesonecar e sonhocar com os opíparos pratos que no banquete se deixam para manter um visual que se não tem e vinhaços em garrafalusadas sanguinhaladas mas qual quê... Heim? Quem? O teu tio está aí na sala bom já vem mais este e logo hoje diga que tô a descascamar o inferno do job não vais fazer uma coisa dessas ao teu antigo protector teu novo protegido afinal ... Bom família é assim mas hoje não dá meu. Bô tarde tio Fabião anda-se Didi só a tua tia está constipada (ou constifomeada) é o tempo calamitoso deste país que ... bom é que eu estou assim um pouco down e tacos faltam também tio talvez quinta uns dolarzecos se consigam e no Central trocam-se a bom preço não há problema até quinta. Novo problema: dorminhocar já não dá e pega-se na Tempo/1000 (1) com capa que não distrai só distrai-nos na profissão o Chachuaio irrita e repete duzentos e trinta deslofomeados receberam cinco quilos de de soja cada e eu desloresidente com fome a grevar e que cassete está aí? Chuck Mangione? Clack no play stereofónico bem a Sony numa sala soando fome mangionando Sing a Song a Freedom Song queria era estar livre deste barrigalhar que percurte aqui nas entranhas que nem Paulinho da Costa mas lá distrai-se e esquece-se e uma nota assim esquisita do flugerhorn nos transporta pra lá deste país afinal há coisas maningue naices noutras paragens sim Nairobi é outra coisa mas ... porra só porque se noticia “eh pá Quénia sida é merda...” mas caguei pra isso a Zaína era bem boa e aquela "John Garang" sudaneando o rabo na 2000 eu vou lá quando Dlakhama fôr imporautorizado para sentar sim Dlakhama Nairobi Zaína Chissano Garang Moi negociação mas .... cinco civis foram deste para ... onde? Quando uma turba de irmãoarmados matraquearam uma coluna de viaturas na estrada nacionalibandida e na resposta recuperou-se um saco de arroz ... Heim, arroz? Eh pá logo como vai barrigar é preciso inventar mola senão os putos dão assim umas MilesDavisdadas bem chatas ok Chuck és bom...
Olha meu chefe marca falta e é um bônus de ineficiência na cara chau minha vou tentar aquele bisini o arroz passo por lá no dumba da Mafalala as dezassete mas porque o Craveirinha não fala daqueles dumbanengueiros logo ali em frente da sua porta? ser mulato despoesado não é nada bom ouve lá são catorze horas e já devias estar na greve porque as quinze temos que dizer bem dos trabalhadores e dos chefes quer dizer equilibrar as posições senão és a favor dos trabalhadores tá bem chefe Nós aqui só exigimos que nos paguem os dois meses de salário nem natal nem ano novo não vamos tchotcholojar mas isso va-lá mas agora os meus filhos quatro contos cada um doze no total para matrícula não vão andar na escola este ano porque o patrão não pagou quanto ganha? Vinte e dois contos mas a matrícula é doze ficas com dez como desenrrascas isso? bom uma batida de açucar milho arroz dos navios das calamidades agente aguenta-se só aqui a OTM só sabe vigiar e não nos defende mas eles nem tem problema o Xico que era como nosoutros na OTM hoje ... porra o gajo tem assim um Toyota esqueceu-se dagente Hewena... Jossia tá aqui a Rádio a grevar a malta diga-lá qualquercoisada ... Hé, me chamo Jossia estivaladroeiro nós só pedimos o nosso dinheiro e o décimo terceiro mas olha décimo terceiro só quando a empresa faz taco taco? porque os chefes receberam refresco e mazumana cada um no fim do ano agora nós também queremos refresco e mazumana senão o valor em mola Mas greve por causa de um kilo de amendoim? Não queremos saber se eles não desenrrascam isso não saem do gabinete nós fechamos amakiya estão aqui conosco Trabalhadores dos Come Farinha Mahala entram em greve – este o assunto em destaque nesta repetida edição do Rovuma ao Maputo está com a Revolução Moçambicana hoje copiado e deferido por Magunhungo Bandido Armado, oh ... não, Galiza Matos segue-se o seu desenvolvidanado com o Chachuateado aos microcrucificados há muito por uma mordaça bem moçambicana Moçambicano ainda existe? Ou é uma espécie acabada espécie chorada espécie esfomeada, não, não existe, existiu ... foram as notas dórédóré ciadas do país e do mundo ... agora a grevação nos Come Farinha Mahala e blá blá blá chegamos assim ao fim da nossa reedição deste nosso boloenchido desinformado boa noite ouviram? Claro que não porque o Xirico aqui VOA prá Africa de língua oficial portuguesa Tomé Mbuia caia João Dlakhama afirmentira greves em Moçambique são obra da Reina Na matança Moçambicana besta de carga é o que você é...
Vá no Dumbapungar porque os putos estão cansados de desbrincar com barrigadelas ariovazadas quanto me roubas por esta lata setecentos e cinquenta paus põe neste saco mas... deitaste alguma coisa? parece que sim chau... alô pessoal tudo bem por cá? Mundinho acende o fogão a gás Deodato vai buscar agua lá em baixo esse gericam é pequeno transporta o de 25 litros nos ombros dos teus ten age é para fazer o arroz há festanimação aí? Que ouves Maninho? Lambada? Essa badamecada não entra aqui pois tu só trazes cassetadas prá aqui fiufiómbrumblam jazz o caraças, olha os meus filhos não devem gostar dessas lambuzadas aqui só coisa de erudito erudita é a tua fome bem vamos lá ver põe lá a panela no lume mas isto é arroz ou xima? Come lá vocé sim sim obrigado papá ... um palmarpulmonarfumado e Tucho traz aquela cassete, aquela que o papá gosta? Sim essa mesmo e Spyra te daqui vai dar um Gyro teu pai quer curtir um espectáculo marimbar uma Dave Samueladas teclaminar uma Tomschumada trompetear uma Jayada bem Estreinada na baixada do Quimzumbada Stneteada Cheticatalogada na Gibson 335 onde só zumbi congadas noite adentro e Geraldomamente Velezadas e ... senhores e senhoras escutenção agora e aqui a composição que se impõe necessária para voltarmos a ser nós mesmoçambicanos: “Conversations”, uma música de quinze minuanos totalmente desconversados pois escutemos então – para este tiro da AKM vai uma teclapaz de quem quer que premiu o gatilho; para esta bazucada, de quem? Não interessa, vai assim o ribombar de uma batida da Yamaha de Eli Konikoff, para o matraquear da metralhadora “kalashi” vai esta marimbada de Dave Samuels (que machope, meu Deus), a resposta mais certa para a obusada ou do leão da floresta artificial interponha-se a “A Hundred Year Old ¾ Scale Acoustic Bass” do Kimzinho “Pedrado” Stone e, oiça meu caro amigo, ao sibilar do teu Mig desajeitado ponho nas tuas patencias o deslizar lizo mas harmónico como a paz dos dedos de Chet Catallo na Gibson 335 e... para finalizar uma assopradela bem compassada e melancolicamente sempre presente do já “está aí a paz” Benstreinada para durar porque ... esta “Conversations” que ouviram (agora aclamem-na e proclamem-na) foi ensaiada para durar isto aconteceu em conversações de 17 a 19 de novembro de 1983 numa Florida sem mácula há quase sete anos aprendamos bem as suas notas porque senão chumbamos como temos vindo a chumbar há quase 15 anos... O QUÊ, NÃO CONCORDAM? OU OUVIRAM MAL?.

(*) – Edição N. 1000 da Revista Tempo.
- Escrito na madrugada de 27 de janeiro de 1990, algumas horas depois do meu regresso de Nairobi, Quénia, onde acompanhei o então Presidente Joaquim Chissano, numa tentativa de um encontro a sós com o Afonso Dlakhama, patrocinado por Daniel Arap Moy. O encontro não chegou a realizar-se, ao que mais tarde vim a saber.