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Cascatas da Namaacha: sete anos depois da seca

quarta-feira, 26 de março de 2008

"Muitas moçambicanas olham o homem branco como salvação"









Uma das mais conceituadas escritoras moçambicanas, Paulina Chiziane, concedeu em Lisboa, Portugal, uma entrevista à jornalista Isabel Lucas, na qual faz declarações que, pelo seu interesse, lhes proponho que a leiam. E com muita atenção.
Quero acreditar que a transcrição das declarações de Chiziane não sofreu qualquer tipo de incorrecção ou até má interpretação por parte da jornalista lusa. Para bem da verdade.
Contudo, já aconteceu alguns dos nossos escribas queixarem-se de jornalistas, sobretudo portugueses, publicarem declarações suas com imprecisões e, até, manipuladas, não por descuido – mesmo assim inaceitável – para levar os leitores a entenderem um conceito ou ideia que não lhes pertencem. Para proveito no mínimo obscuro.
Há uns tempos, se a memória não me falha, o Mia Couto ter-se-á insurgido contra a forma como uma entrevista sua a um jornal português foi interpretada e publicada pelo jornalista com quem havia conversado.
“Muitas moçambicanas olham o homem branco como salvação”
Eis o título da peça publicada pela jornalista Isabel Lucas no jornal Diário de Notícias, na sua edição de 24 de março corrente.
A escolha deste título para a peça em referência pode levar a muitas e variadas interrogações, uma das quais será: A nossa Paulina Chiziane terá de facto dito aquela barbaridade? Pessoalmente não o creio pela simples razão de que não faz sentido que uma escritora como ela, que já deu provas do seu orgulho como moçambicana (e africana), tenha deixado escapar uma barbaridade como aquela. De qualquer forma compete à Chiziane desmentir ou não.
Da minha parte trarei para aqui o meu ponto de vista sobre o conteúdo da entrevista mas convido desde já quem quer que seja, incluindo a própria Paulina Chiziane, que faça o mesmo. Sob pena de estarmos a calarmo-nos perante a persistente ideia que parece ainda prevalecer entre muitos portugueses, sobretudo jornalistas, de que “O preto é incapaz de fazer qualquer coisa sem a ajuda do branco”.
Será que a escola do General Kaúlza de Arriaga ainda está viva nalgumas redacções portuguesas, mesmo depois da humilhante derrota foi infligida pelos “pretos preguiçosos” na famosa operação “Nó Górdio” no norte de Moçambique nos anos 1968/69?
Vai aí a entrevista, com a devida vénia do Diário de Notícias.

"* O romance que publicou agora em Portugal e será editado em Moçambique questiona o envolvimento dos indígenas na colonização. Polémica garantida?
- É um livro polémico. Tenho consciência, mas era preciso começar a discutir o problema. Olhávamos para o invasor como a causa dos problemas. A Zambézia é das províncias mais ricas, um lugar onde a exploração portuguesa foi muito forte. Se os portugueses eram tão poucos ali, como dominaram a província e o país? Qual a participação dos indígenas? Se parar para uma reflexão interna, a mão dos indígenas foi muito forte. A Zambézia foi a parcela do território com maior miscigenação. Como aconteceu? Será que as mulheres foram violadas? Será que se entregaram? Como é que a Zambézia tem tantos mulatos?
* Este livro, O Alegre Canto da Perdiz, parte de uma teoria.
- Segundo a tradição oral eram as mulheres negras que procuravam o homem branco para ter um filho mulato para que este não fosse depois deportado. Ainda há essa busca do homem branco. Muitas raparigas de 15 e 16 anos olham o homem branco como uma salvação. Sou observadora social e fui coleccionando estas questões.
* Como explica, 30 anos após a independência, que essa busca do homem branco continue?
- Estamos a assistir a qualquer coisa que não consigo interpretar. Os mulatos parecem estar de novo a assumir o controlo da situação. Com a economia de mercado aparecem os antigos portugueses a assumir o comando das infra-estruturas e o filho mulato ressurge no poder. Ainda não sei muito bem o que estou a fazer. Abro uma polémica para reflectir sobre o futuro do país. A reflexão sobre o que é ser moçambicano parou. Como nos vamos relacionar, que país estamos a construir? De forma suave tento levantar questões.
* E o que é ser moçambicano?
- Temos uma consciência nacional que não é comum aos outros países africanos. Moçambique está muito mais próximo da unidade nacional do que a maior parte das nações africanas. Aqui não há divisões tribais. Estamos todos misturados. Essa é das maiores relíquias de Moçambique. * Teme as reacções ao livro?
- Tenho medo. Nem quero ser heroína nem mártir. Quero ser uma cidadã comum, mas não me sentiria bem se não escrevesse o que sei. Há gente que não vai gostar. Pode haver quem se zangue comigo. Acima de tudo quero contribuir para a reflexão da moçambicanidade.
* O escritor Francisco José Viegas chama-lhe "a escritora mais divertida de África"...
- Isso tem um pouco a ver com a estética da tradição oral. Quando os assuntos são muito profundos é preciso aligeirar. Já fiz isso com o livro anterior, em que o tema era a poligamia. De vez em quando tenho de fazer paragens para suavizar e dar um equilíbrio emocional ao leitor."

segunda-feira, 24 de março de 2008

De Irmão para Irmão

Edmundo,

Pedes-me que te caracterize. Pode parecer fácil, mas tu sabes que não é empresa fácil falar-se de um irmão, dificuldade acrescida ainda pelo facto de sermos irmãos etariamente próximos, além de amigos. Quando me falaste deste teu desiderato, lembro-me de te falar destes inconvenientes, e também de tu me insistires e eu não te conseguir demover. Creio, agora, que a insistência derivou do facto de saberes que é difícil recusar-te algo, ainda por cima de tão íntimo.
O que diria então de ti, Edmundo? Muito e pouco. É afinal isto que fazemos ao longo da vida cada vez que falamos.
A primeira coisa que te digo é que ao nascermos a seguir um ao outro impôs-se que percorrêssemos, praticamente, caminhos comuns, fecundássemos sonhos comuns e passássemos sedes e fomes comuns, vicissitudes que nos terão sedimentado valores comuns da vida. É por isto que muito do que te vou dizer não passará de um simples exercício de recordações.
Recordo-te que nascemos ambos em Inharrime, eu em Dezembro de 1952, e tu em Agosto de 1954. Um ano depois de tu nasceres, a nossa mãe foi transferida para Moamba, e tu acompanhaste-a, indo eu para a casa do nosso avô materno, o Rev. Jossefa Nhatitima, em Matacalane, no hoje distrito de Morrumbene. Não te lembras, e eu também só me lembro muito tenuemente por causa da nossa reduzida idade, que chorei amargamente por esta separação. Em 1959, porém, a mim te vieste juntar, recebendo dos nossos queridos avós a mesma educação, traduzida no rigor, no altruísmo e nos valores morais do metodismo, que penso ainda hoje guiarem as nossas vidas. Eis, provavelmente, uma característica que, mais do que a mim, te marca a existência: partilhares tudo com toda a gente, sem olhares a prejuízos que tal provoca em ti e aos teus mais próximos.
Prosseguindo, recordo-te também que alternavas a estadia em Matacalane com permanências mais ou menos prolongadas na Missão Metodista de Cambine, em casa do nosso tio Samuel Simão Sengo, antes de nos juntarmos, definitivamente, à nossa mãe, na Moamba, em meados dos anos sessenta, embora vivêssemos em Lourenço Marques, onde estudávamos.
Lembras-te que foi nos subúrbios laurentinos que também começámos a pequena labuta pela vida, nomeadamente vendendo hortícolas e legumes nos seus pitorescos bazares; lembras-te certamente da estratégia que junto congeminámos para a rápida fluência das nossas vendas, nomeadamente ao anuíres em ficar à frente da banca para que a curiosidade de seres ruivo atraísse clientes para os nossos produtos.
Também te lembras que foi em 1968 que acompanhámos a nossa mãe Cristina a Cabo Delgado, para onde fora transferida, como quadro da Saúde. Vês como já se passaram 40 anos, Edmundo? Lembras-te como foi em Cabo Delgado que iniciámos e percorremos a nossa juventude, uma fase da vida passada com intensas leituras, com muitos filmes e música dos tempos mais áureos do rock, razão para termos desenvolvido e formado modelos comuns da sétima arte e de literatura, um «ouvido» comum? Lembras que depois destes percursos viemos a encontrar-nos, por acaso, na Rádio Moçambique?
Apesar da acentuada convergência dos nossos percursos, há sempre pontes que tivemos que atravessar sozinhos, montes que escalamos sozinhos, vontades que adoptamos por circunstâncias próprias da nossa isolada existência. E como te vejo caminhando por esses atalhos, Edmundo?
Sabes que no nosso círculo familiar sempre te reconhecemos talentos e virtuosismos ímpares, qualidades com que nos deixas muito orgulhos. No que fazes, ou te dispões a fazer, poucos te questionam a qualidade. Mas se calhar é aí onde encontro algo, pequenino que seja, que permite atrever-me a contestar de ti. Penso, todavia, que é este o grande problema de alguns daqueles que foram escolhidos por Deus para provar a Sua infinita sabedoria: o pensarem que podem superar a justa medida dada por Deus para a expressão do talento.
Creia-me, meu irmão, que é quando pensas que algo estranho ao teu carácter te pode levar à superação das muitas qualidades que tens que menos gosto de ti.
Magoei-te? Espero que releves a minha sinceridade. Mas saiba que só pessoa que muito te ama pode ser tão sincera.
Do teu irmão amigo,

Luís
Maputo, 24 de Março de 2008

terça-feira, 11 de março de 2008

Os Devaneios de Um Jornalista Esfomeado

À minha mulher e filhos que, como tantos outros moçambicanos,
“passamos mal” por falta até de uma côdea de pão

Isto não é uma descoberta que me dê o direito de a patentear. Nada disso. De facto: todos nós a experimentamos sempre que alguém ou algo nos amua – normalíssimo.
Há daqueles dias em que se chega a casa, ombros duros que nem pedra, ar de macambúzio e um “olá” neurasténico à cama(...)rada e... Uf, que vida esta porra, um gajo esfola-se, sua que nem burro, o fito é “a vida vai melhorifar e... “tens aí dinheiro para uma de leite, arroz e ...” lá está mais esta, não, o bisini não deu, foi assim uma cabeçada e pronto, lá tem de se curtir uma de olhar para tudo e para nada até fomesonecar e sonhocar com os opíparos pratos que no banquete se deixam para manter um visual que se não tem e vinhaços em garrafalusadas sanguinhaladas mas qual quê... Heim? Quem? O teu tio está aí na sala bom já vem mais este e logo hoje diga que tô a descascamar o inferno do job não vais fazer uma coisa dessas ao teu antigo protector teu novo protegido afinal ... Bom família é assim mas hoje não dá meu. Bô tarde tio Fabião anda-se Didi só a tua tia está constipada (ou constifomeada) é o tempo calamitoso deste país que ... bom é que eu estou assim um pouco down e tacos faltam também tio talvez quinta uns dolarzecos se consigam e no Central trocam-se a bom preço não há problema até quinta. Novo problema: dorminhocar já não dá e pega-se na Tempo/1000 (1) com capa que não distrai só distrai-nos na profissão o Chachuaio irrita e repete duzentos e trinta deslofomeados receberam cinco quilos de de soja cada e eu desloresidente com fome a grevar e que cassete está aí? Chuck Mangione? Clack no play stereofónico bem a Sony numa sala soando fome mangionando Sing a Song a Freedom Song queria era estar livre deste barrigalhar que percurte aqui nas entranhas que nem Paulinho da Costa mas lá distrai-se e esquece-se e uma nota assim esquisita do flugerhorn nos transporta pra lá deste país afinal há coisas maningue naices noutras paragens sim Nairobi é outra coisa mas ... porra só porque se noticia “eh pá Quénia sida é merda...” mas caguei pra isso a Zaína era bem boa e aquela "John Garang" sudaneando o rabo na 2000 eu vou lá quando Dlakhama fôr imporautorizado para sentar sim Dlakhama Nairobi Zaína Chissano Garang Moi negociação mas .... cinco civis foram deste para ... onde? Quando uma turba de irmãoarmados matraquearam uma coluna de viaturas na estrada nacionalibandida e na resposta recuperou-se um saco de arroz ... Heim, arroz? Eh pá logo como vai barrigar é preciso inventar mola senão os putos dão assim umas MilesDavisdadas bem chatas ok Chuck és bom...
Olha meu chefe marca falta e é um bônus de ineficiência na cara chau minha vou tentar aquele bisini o arroz passo por lá no dumba da Mafalala as dezassete mas porque o Craveirinha não fala daqueles dumbanengueiros logo ali em frente da sua porta? ser mulato despoesado não é nada bom ouve lá são catorze horas e já devias estar na greve porque as quinze temos que dizer bem dos trabalhadores e dos chefes quer dizer equilibrar as posições senão és a favor dos trabalhadores tá bem chefe Nós aqui só exigimos que nos paguem os dois meses de salário nem natal nem ano novo não vamos tchotcholojar mas isso va-lá mas agora os meus filhos quatro contos cada um doze no total para matrícula não vão andar na escola este ano porque o patrão não pagou quanto ganha? Vinte e dois contos mas a matrícula é doze ficas com dez como desenrrascas isso? bom uma batida de açucar milho arroz dos navios das calamidades agente aguenta-se só aqui a OTM só sabe vigiar e não nos defende mas eles nem tem problema o Xico que era como nosoutros na OTM hoje ... porra o gajo tem assim um Toyota esqueceu-se dagente Hewena... Jossia tá aqui a Rádio a grevar a malta diga-lá qualquercoisada ... Hé, me chamo Jossia estivaladroeiro nós só pedimos o nosso dinheiro e o décimo terceiro mas olha décimo terceiro só quando a empresa faz taco taco? porque os chefes receberam refresco e mazumana cada um no fim do ano agora nós também queremos refresco e mazumana senão o valor em mola Mas greve por causa de um kilo de amendoim? Não queremos saber se eles não desenrrascam isso não saem do gabinete nós fechamos amakiya estão aqui conosco Trabalhadores dos Come Farinha Mahala entram em greve – este o assunto em destaque nesta repetida edição do Rovuma ao Maputo está com a Revolução Moçambicana hoje copiado e deferido por Magunhungo Bandido Armado, oh ... não, Galiza Matos segue-se o seu desenvolvidanado com o Chachuateado aos microcrucificados há muito por uma mordaça bem moçambicana Moçambicano ainda existe? Ou é uma espécie acabada espécie chorada espécie esfomeada, não, não existe, existiu ... foram as notas dórédóré ciadas do país e do mundo ... agora a grevação nos Come Farinha Mahala e blá blá blá chegamos assim ao fim da nossa reedição deste nosso boloenchido desinformado boa noite ouviram? Claro que não porque o Xirico aqui VOA prá Africa de língua oficial portuguesa Tomé Mbuia caia João Dlakhama afirmentira greves em Moçambique são obra da Reina Na matança Moçambicana besta de carga é o que você é...
Vá no Dumbapungar porque os putos estão cansados de desbrincar com barrigadelas ariovazadas quanto me roubas por esta lata setecentos e cinquenta paus põe neste saco mas... deitaste alguma coisa? parece que sim chau... alô pessoal tudo bem por cá? Mundinho acende o fogão a gás Deodato vai buscar agua lá em baixo esse gericam é pequeno transporta o de 25 litros nos ombros dos teus ten age é para fazer o arroz há festanimação aí? Que ouves Maninho? Lambada? Essa badamecada não entra aqui pois tu só trazes cassetadas prá aqui fiufiómbrumblam jazz o caraças, olha os meus filhos não devem gostar dessas lambuzadas aqui só coisa de erudito erudita é a tua fome bem vamos lá ver põe lá a panela no lume mas isto é arroz ou xima? Come lá vocé sim sim obrigado papá ... um palmarpulmonarfumado e Tucho traz aquela cassete, aquela que o papá gosta? Sim essa mesmo e Spyra te daqui vai dar um Gyro teu pai quer curtir um espectáculo marimbar uma Dave Samueladas teclaminar uma Tomschumada trompetear uma Jayada bem Estreinada na baixada do Quimzumbada Stneteada Cheticatalogada na Gibson 335 onde só zumbi congadas noite adentro e Geraldomamente Velezadas e ... senhores e senhoras escutenção agora e aqui a composição que se impõe necessária para voltarmos a ser nós mesmoçambicanos: “Conversations”, uma música de quinze minuanos totalmente desconversados pois escutemos então – para este tiro da AKM vai uma teclapaz de quem quer que premiu o gatilho; para esta bazucada, de quem? Não interessa, vai assim o ribombar de uma batida da Yamaha de Eli Konikoff, para o matraquear da metralhadora “kalashi” vai esta marimbada de Dave Samuels (que machope, meu Deus), a resposta mais certa para a obusada ou do leão da floresta artificial interponha-se a “A Hundred Year Old ¾ Scale Acoustic Bass” do Kimzinho “Pedrado” Stone e, oiça meu caro amigo, ao sibilar do teu Mig desajeitado ponho nas tuas patencias o deslizar lizo mas harmónico como a paz dos dedos de Chet Catallo na Gibson 335 e... para finalizar uma assopradela bem compassada e melancolicamente sempre presente do já “está aí a paz” Benstreinada para durar porque ... esta “Conversations” que ouviram (agora aclamem-na e proclamem-na) foi ensaiada para durar isto aconteceu em conversações de 17 a 19 de novembro de 1983 numa Florida sem mácula há quase sete anos aprendamos bem as suas notas porque senão chumbamos como temos vindo a chumbar há quase 15 anos... O QUÊ, NÃO CONCORDAM? OU OUVIRAM MAL?.

(*) – Edição N. 1000 da Revista Tempo.
- Escrito na madrugada de 27 de janeiro de 1990, algumas horas depois do meu regresso de Nairobi, Quénia, onde acompanhei o então Presidente Joaquim Chissano, numa tentativa de um encontro a sós com o Afonso Dlakhama, patrocinado por Daniel Arap Moy. O encontro não chegou a realizar-se, ao que mais tarde vim a saber.

terça-feira, 4 de março de 2008

"Auto-Estima", por onde andas? Com o "Macomia", concerteza

A todos os moçambicanos com estima

Estou em crer que a campanha “Made In Mozambique” em curso no nosso país não é nada menos nada mais do que a valorização do que é nosso; não é nada mais nada menos do que o vincar do nosso orgulho como moçambicanos, da nossa identidade como povo e de que somos capazes de de “produzir e consumir moçambicano”
Enfim – é a auto-estima.
Uma auto-estima que, depois de vários anos adormecida, começa agora a vir ao de cima. Inclusivê em mim próprio.
Conto um simples episódio: Há mais de dez anos que não ia aos campos de futebol: Os resultados desastrosos da nossa Selecção, “os Mambas”, a fraca qualidade dos jogos do Moçombola, fizeram-me “fugir” dos estádios.
A dada altura constato, e certamente tantos outros como eu, que os “nossos rapazes” estavam a metamorfesear-se. Ou seja: “Mambas” e não “Minhocas”.
No jogo contra a seleção do Senegal reconciliei-me com os jorgadores e com a equipe técnica; Vibrei com a exibição da nossa turma; Os mais de trinta mil expectadores presentes no Estádio da Machava, trajados à rigor com as cores nacionais; tudo isso e mais alguma coisa, tiveram o condão de me sentir de novo orgulhoso de ser moçambicano.
Porém .... há ainda lacunas nesta questão da nossa auto-estima.
Explico-me:
Como é possível ver nas cidades, ruas e avenidas; nas aldeias mais remotas; nas vilas e em tudo que é local de divertimento; como é possível ver crianças, jovens e até adultos trajando camisetes, lenços e cascóis de um país qualquer da longiqua Europa, das Américas ou da Ásia? Isto é uma aberração; é simplesmente uma nova colonização cultural. Desportiva, essa já é patente, propagada até, estou em crer que por razões meramente comerciais
Como se compreende que num jogo de futebol em que os “Mambas” medem forças com outra selecção, vermos um jovem trajando camisetes com as bandeiras norte americana, portuguesa, brasileira e se calhar da Birmânia? O que é isto?. É tudo menos auto estima....
Interrogom-me igualmente se cidadaões daqueles países andam pelas ruas das suas cidades com as cores e símbolos moçambicanos. Se calhar até nem sequer ouviram falar de um continente chamado Africa e muito menos de um país que dá pelo nome de Moçambique. E ..... nós, coitados.... andamos por aqui a exaltar símbolos que nada têm a nada ver conosco.
A culpa de quem é? Nossa, não há dúvida.
Ainda sou capaz de entender que um pobre camponês se exiba com uma camisete de equipas de futebol estrangeiras, como o Porto e o Benfica de Portugal; como o Manchester ou Liverpool da Inglaterra; do AC Milão ou Inter da Itália. O camponês, porque pobre, compra aquilo que lhe vem nos fardos de roupa usada porque barata.
Agora: jovens das cidades e não só, minimamente desafogados, como é que não andam trajados com aquilo que é nosso? Porque não exibem camisetes de equipas como o Costa do Sol, Desportivo de Maputo, Associação Desportiva de Pemba, Chingale de Tete, etc... Exibem-se, sim, com o que não é deles. Alienação cultural.
Dirão alguns: as vestimentas com símbolos nacionais ou de clubes do nosso país são bastante caros. Pode ser verdade.
Quanto custa uma bandeira nacional, uma camisete, um cascol ou um boné com dizeres MOÇAMBIQUE – um balúrdio.
A terminar: os que estão à frente desta ofensiva para resgatarmos a nossa auto-estima que se empenhem em popularizar o que é nosso em termos de simbolos.
E já agora, em jeito de gozo, perguntei um dia destes a um dos mais simpáticos e prestativos serventes da empresa – O "Macomia" como é conhecido – se era adepto do Sporting ou do Benfica de Portugal, ao que muito rapidamente ripostou – “Sou do Sporting de Quelimane". Até o “Macomia”....Ayumeeeé
Orgulhosamente Moçambicano


* Radiodigundido na Rádio Moçambique em 20/Agosto/2007


segunda-feira, 3 de março de 2008

LIBERDADE

“Existe uma chave para a liberdade: Pense! Se quiseres ser um cordeiro, seja feita a tua vontade. Não reclames, entretanto, quando fores servido em nosso grande Sabbath!”
(Um “bem velho” dito pagão, do século XX)

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

João Paulo - que legado para a música moçambicana?

Ao Zeca Tcheco e a Mingas, com amizade
Durante alguns anos e à par dos meus estudos secundários na então Porto Amélia, terei sido considerado um dos melhores “borlistas assumidos” da urbe, dado os mais mirabolantes planos que urdia para iludir os porteiros das salas de cinema, salões de bailes e, até, de espeluncas do tipo “Zavala” em Montepuez, onde se dançava sungura com as mais badaladas, desdentadas e flácidas prostitutas.
No começo da carreira não raras vezes aguentei estoicamente uns bons puxões de orelhas, pontapés no traseiro e toda a sorte de impropérios, mas tudo isso era como que “ossos de ofício” a que me tinha de sujeitar para alcançar o objectivo último: ingressar e assistir ou participar de eventos sem pagar um tostão que seja, porque eternamente “teso”.
E aquele que anos mais tarde viria a ser um dos melhores arquitectos “prata da casa”, tímido apesar da sua avantajada compleição física, não tinha cachola suficiente para arquitectar o mais fácil ingresso nas matinés de fim de semana no cinema Pemba, edíficio aliás, com muitas brechas porque a cair de podre – O João Tique, pois é dele que me refiro, era, se assim se pode dizer, um pendura nas costas do “borlista-mor”.
Contratempos haviam nesta profissão, pois porteiros como o Paratapsi, um Hindu/Hippye, beberrão como poucos e dado a “charros; o hoje septuagenário Roldão da Conceição que dividia a vigia das entradas com a de “tocador” de viola-solo nos bailes no Vasco da Gama e no Desportivo; e o polícia da então PSP de nome Leal, uma vez a outra, não se distraiam das suas obrigações e a malta ficava cá fora.
Para aquilitar o quão as nossas peripécias eram perigosamente atrevidas para miúdos da nossa idade, cito com orgulho o termos assistido, sem que para tal pagassemos, a projecção do filme “Lawrence da Arábia” na inauguração do actual edifício do Cinema Pemba, a 9 de Dezembro de 1970; a actuação alguns meses depois na mesma sala do mestre da guitarra portuguesa Carlos Paredes e a inaguração do ainda hoje Hotel Cabo Delgado – ocasiões então reservadas à elite colonial residente.
Meses antes de abandonar a classe e arrumar as botas, ainda tive que pôr à prova os meus dotes de paraquedista calejado: entrar naquele que seria um dos últimos bailes de finalistas da Escola Comercial e Industrial Jerónimo Romero, contando-se entre eles, nada mais nada menos que o “borlista” Joâo Teodósio Tique e o Roque José Loforte, o mais velho dos sete rebentos que a nossa mãe comum tirou cá para fora.
Ora, não apenas porque o João e o Roque se iam apresentar de “smoking”, a minha presença no interior do salão onde ia decorrer o baile tornava-se tão obrigatória quanto seria considerado “panhonha” se, aos ouvidos dos meus comparsas, chegasse a notícia de que eu não lograra ludibriar o séquito de vigias montados pelo director Talhante, perdendo por isso mesmo uma oportunidade rara: é que nessa noite e naquele baile, os “Monstros” e o seu emblemático vocalista, de seu nome João Paulo, iam apresentar-se pela primeira vez em Porto Amélia. Decorria o ano de 1972/73, se a memória nao me atraiçoa.
Os “Monstros”, por aquelas alturas, eram aos nossos olhos, o mais bem sucedido exemplo de “grunhos” capazes de mostrar ao “estabelishement colonial” que os tempos começavam a ser outros, que não estavam a dormir sob a sombra dos valores lusos. Portanto, para nós os “Monstros” eram como que uma aragem até então desconhecida, que soprava do sul para fazer-nos sair da madorra cultural em que nos encontravamos no norte a ferro e fogo.
João Paulo era, como não podia deixar de ser, o menino bonito das moças mais lindas e, entre a rapaziada, objecto de admiração misturada com umas pontas de ciúme. É que o “tipo”, com a sua voz rouquenha, interpretando músicas de negros americanos, trajado provocadoramente de calças “La Finess” boca de elefante e camisas pinçadas, levava toda a àgua para o seu bico.
Foi ali e naquele longíquo ano que conheci o João Paulo e os seus companheiros e só em 2004, volvidos pouco mais de trinta anos, voltaria a encontrarmo-nos, não num salão de baile, mas no Centro Social da Rádio Moçambique, em Maputo.
Durante mais de trés décadas, dele e do que fazia ou vivia pouco ouvira falar. Aliás só o (re)conheci quando o Zeca Tcheco mo apresentou, circunstância que viria a desembocar numa acesa discussão sobre o rumo que a nossa música estava a trilhar.
Reflectindo agora sobre aquele frutuíto encontro, algumas interrogações me inquientam, sendo a primeira e fundamental: o que se passou na vida e carreira do vocalista dos “Monstros” para nos ter deixado orfãos despojados de um único registo sonoro com música composta e interpretada por ele?
É realmente sintomático que mesmo entre aqueles que criaram e com ele actuaram nos “Monstros” ou que, de outro modo partilharam, cá e lá fora, as suas vidas, não comentem ou escrevam sobre esta intrigante lacuna na vida do João Paulo.
Permito-me no entanto aferir que João Paulo, após o seu regresso, nunca conseguiu sair do marco de onde partiu: ou seja, parou no tempo e quando retorna à casa não encontra o mesmo ambiente que havia deixado quando zarpou – cantar os outros já era; muitos dos seus antigos companheiros tinham entretanto enveredado por outros e quiça bem sucedidos trilhos moçambicanos; cantar em clubes nocturnos ... é o que se sabe. E com um mercado de trabalho complexo que exigia já não o “interpretar” Otis ou Percy mas produzir Mocambique.
João Paulo foi apanhado de chofre por uma realidade e movimento culturais diversas das que deixou quando partiu e sobre as quais lhe faltaram capacidade e estaleca para absorver e agir. Ou seja estava, culturalmente falando, deslocado e, nesse estado, não tinha condições para se motivar e produzir, coisa que ele, salvo prova em contrário, nunca fez.
Daí até à frustração foi um passozinho, facto perceptível nas conversas que ocasionalmente tinhamos e onde se notava que as suas dissertações sobre a matéria em discussão não tinham sustentabilidade e contextualmente desencontradas.
Perante este “modus vivendi” do Soul-Music Man, aqueles que tinham a chave para repotenciar o que de bom o João possuía, nada mais fizeram do que tratá-lo com condescedência porque concluiram que dele nada poderiam aproveitar, a não ser o viajar nostálgico, de quando em vez, aos “bons velhos tempos dos ‘Monstros’”.
Não se afira desta minha reflexão que o “caso Joao Paulo” é o único em Moçambique, pois há os aos montes, até envolvendo figuras de outras áreas de intervenção cultural que não apenas a musical.
Mas como estou com a mão na massa, permitam-me citar apenas um exemplo.
Temos pois o “caso Júlio Silva” que, ainda que tivesse tentado entre nós após anos a fio em Portugal, se deu mal simplesmente porque a sua produção musical – provavelmente pensou que se tratava de algo novo para os que cá ficaram – não teve aceitação porque desenraizada e, mesmo assim, sem valor. Resultado: retornou para a Europa onde, espero estar enganado, se sente como peixe, mesmo em àguas que nunca lhe serão tão cristalinas como as que serviram para lhe limparem o primeiro infanto-dejecto na sua terra. Muitos outros, vivendo lá fora e que marcaram musicalmente, são demasiado “estranjas” para o nosso gosto.
Ao menos que todos eles fossem como o Gimo Abdulremane, dado a anualmente retornar à sua Ilha e, no meio do seu povo, religiosamente beber Mutxequele e Mwakenmwalo(*), inspirando-se, e ouvindo a malta gritar: “Wé Gimo, onnihiererani? Kunthikha Thó?” – Ó Gimo, porque nos deixas? Não voltas mais?.

* Bebidas fermentada e destilada com base na fruta Cajú

Felismina, como eu te curto muito

Ou como o “Kumbú” também verga mesmo aqueles que tentam primar pela qualidade
Ao “Brada” Fernando Manuel, esse incurável noctívago

Um dia após a publicação do artigo da minha autoria “Felizminha, eu te gramo muito” no Cultural do jornal “Notícias” (20.02.08), sou surpreendido, para não dizer defraudado, com as imagens do vídeo-clip da bonita música de Stewart Sukuma, inserida no albúm “Khuvu”.
Tal vídeo-clip – de excelente qualidade técnica, reconheça-se – terá passado pela primeira vez no programa musical “Music Box” realizado por Celso Domingos do canal STV, numa altura em que dois integrantes da obra “Khuvu” (Stewart e Hortêncio Langa) falavam de tudo e mais alguma coisa sobre o estágio actual da música moçambicana.
No essencial estou de acordo com as opiniões por eles manifestadas, sobretudo no que à banalização da nossa música diz respeito, tudo indicando que por imperativos do lucro fácil e ausência de referências culturais dos que procuram ou pretendem ser seus fazedores.
Já no que diz respeito ao vídeo-clip – concepção de cenários, escolha de figurantes e enquadramento no todo da letra e instrumental da “Felizminha ...,” – parece-me que a obra (visual e não sonora) defrauda porque deita por terra a imagem que Stewart quiz dar (e bem) à mulher “Felizminha” que nós outros fazemos dela.
Explico-me:
Na sua versão virtual não vislumbrei ninguem que se parecesse com uma única “Felizminha” da minha terra – bela, sensual e até, porque não, pura como um diamante por lapidar. O que vi foram umas tantas raparigas muito ao género a que me refiro no artigo sobre o CD “Khuvu”: Cindinhas, Ginocas, Fifis, Mimis, Lulus, muito ao jeito das badaladas e sofisticadas a que não se “Grama” mas “Curte-se” e deita-se fora.
Mais ainda: a “Felizminha” da música, porque conheço muitas e certamente o próprio Stewart deve as imaginar, não é de seu jeito andar trajada de vestuário das mais famosas Grifis (Levis, Boss, Gringo, Calvin Klein, ) mas sim de saias plissadas com os obrigatórios vincos, para não dizer capulana e lenços com motivos bem nossos, sandálias ou chinelas; não usa perfumes de marca como Paco, Organza, Givenchy e sim pó talco “Johnson” barato; e besunta-se com brilhantina e não com pomadas anti-raios ultravioleta e, finalmente, não usa mecha ou faz tiçagem ao cabelo.
A “Felizminha” da música, ao contrário da do Vídeo-Clip, não conhece a grande cidade e muito menos as suas pecaminosas maneiras de estar e ser; e muito menos faz-se transportar em carros de luxo. A orignal, essa sim, tem o seu mundo circunscrito aos bairros com casas de madeira e zinco, caniço e terra batida (maticadas), e não Flats, Apartamentos ou condomínios. Até o candeeiro a que se refere Stewart ela não tem porque caro. O Xiphefo, isso sim, de tal sorte que a luz esfumarada torna os seus olhos mais brilhantes que o diamante mais bruto. Agora, postes de iluminação pública, não fazem parte dos carreiros ou caminhos estreitos das aldeias ou bairros onde ela vive, onde a lua é rainha e torna-se cúmplice das escapadelas nocturnas para os encontros breves mas fogosos com o namorado.
Stewart: o janota que pretendes ser na “Felizminha, eu te gramo muito”, não faz a barba ou apara o cabelo nos cabelereiros de hotéis ou salões chics de Maputo. Para essas obrigações estéticas, ele tem o profissional que em dias e meses determinados circula pelo bairro ou aldeia para “trabalhar” o cliente certo, munido da sua maleta de papelão desbotado, com máquinas manuais de aço inoxidável e láminas Gillete para o desbaste dos pelos a mais – tudo isto embrulhado em pano impecavelmente limpo e fresco: o cliente não tem dinheiro para pagar o serviço? Não há problema, fica para a próxima cruzada.
O janota da “Felizminha” tem o visual de um Mafarrico (no sentido hedonista do termo), com corte de cabelo “English Cut”, calças justas acinturadas no limite mais ou menos permitido, pente fino à vista no bolso traseiro, sapatos “Beatles” bicudos e, como toque final, um maço de cigarros “LM” com o reluzente Ronson da Picada bem à mostra na palma da mão: andar finório portando um palito entre os lábios e assobio de noctívago assumido mas não tão amarelo como o que ouvimos na actual geração virtualizada.
Finalmente, tenho cá para mim que os janotas das “Felizminhas”, quando muito, faziam-se transportar – quais malabaristas de circo – em Zundaps, V5, Florets bem polidas, aos fins de semana, com tubos de escape de som bem conhecido nos bairros e aldeias. Nada de Katanas ou Hondas, para não de dizer de Carrochas pintadas digitalmente pelo computer.
Ora, chegados aqui, o que levou então Stewart Sukuma e a sua produtora a desfigurar a sua e nossa “Felizminha”? Das duas uma:
- Pressa em ter cá fora um produto de saída fácil e rápida, logo de fácil consumo para chorudos ganhos. O que não se pode aceitar num intérprete do seu calibre.
- A produtora e os seus integrantes não conhecem a “Felizminha” e, ao que tudo indica, o seu horizonte começa e acaba no bairro mais chik da grande Maputo.
“O Hortêncio Langa inspira-me”, diz o autor de Felizminha. Como? Onde é que o Hortêncio estava para não ter tido a oportunidade de opinar sobre o “crime” contra a pessoa de “Felizminha”?
Stewart: Assim não é assim. Curtiste os teus fãns. Eu não Gramei nada mesmo.

Felizminha, eu te gramo muito

In – “Khuvu”, CD de Stewart Sukuma”, 2007

Provavelmente a raça dos “janotas” e “Dom Juan” que fazem passear a sua classe nos meios sociais da nossa praça, sobretudo os frequentados pelas mais badaladas e sofisticadas raparigas, chamar-me-ão “simplório” ou, pior, “paspalho”. Aceito os dois adjectivos, mas preferia que me classificassem de “ridículo”.
Explico-me.
“Feslizminha, eu te gramo muito”, não sendo na nossa gíria uma afirmação amorosa por aí além, é, quanto a mim, a mais bonita e sublime declaração de amor que se pode fazer a uma moça. E eu, ainda moço, bem magricela e desengoçado, a sussurei bastas vezes aos ouvidos de beldades em esquinas nos bairros da Mafalala e Xipamanine, primeiro em Lourenço Marques (Maputo) e mais tarde em Cumilamba e Cariacó, em Porto Amélia, hoje Pemba. Elas, soltando timidamente risadinhas, “gramavam” a valer da declaração. E não é que “caíam” mesmo minha teia...
Ora, não é que hoje um dos nossos mais representativos compositores musicais, Stewart Sukuma, foi rebuscar aquela frase tão simples, tão terna, para muitos “ridícula”, para a cantar numa das suas mais bem apanhadas composições inseridas no que eu considero um dos melhores trabalhos musicais dos últimos tempos – “Khuvu”.
Stewart, pois, celebra o amor, a paixão, com uma simplicidade tal só possível de se encaixar numa obra musical do quilate de “Khuvu”.
Comprei o CD. 405,00 meticais foi o valor, muito para os meus parcos provimentos. Vale o sacrifício. Antes, confesso, e tanto quanto me lembro, de CD´s de música moçambicana, comprei o “Kewa Zambêzia” para me deliciar com a simplicidade musical do Mussa Rodrigues e alguns outros “nós somos cantores moçambicanos”. De outros CD´s dos ditos cantores “Made in Mozambique”, nem se quer me dou o trabalho de os consultar.
Quando entro numa discoteca à cata de música, normalmente o meu polegar só funciona na vasculha de música “MÚSICA” e mesmo assim longe dos “especialistas” em retirar dos computadores sons apenas perceptíveis aos ouvidos de gente que não tem referências culturais verdadeiramente nossas.
Nisso, sou ainda muito mais complicado.
Por exemplo: Não compro os CD´s de Fany Pfumo, Alexandre Langa, Lisboa Matavela e tantos outros “velha Guarda” simplesmente porque o melhor deles está apenas nos discos Vinil, que hoje não os há. Nos 45, 33 e 77 rotações. As obras destes “Monstros” da nossa música editadas digitalmente, deixam muito a desejar, não tanto em termos de qualidade técnica das gravações, mas simplesmente porque não as interpretaram com aquela “alma” a que nos habituaram. Despacharam para vender.
Alguns exemplos:
“A Vasat Va Lomu” e “Moda “Xicavalu” do Fany tocadas e entoadas pelo próprio nas décadas 60/70, não têm o mesmo “feeling” nas suas versões digitalizadas de hoje. O mesmo se aplica a “Smith Wa Phepuka”, “Candongueiro” ou “A ma Metical”, de Alexandre Langa.
E quando digo cantar com “alma”, posso me referir a uma obra musical que considero excepcional no nosso cancioneiro popular: “Sapateiro” cantada pelo Daniel Langa (irmão do Alexandre) é, meus senhores, algo que “põe no sapato” a versão interpretada por Wazimbo no CD da Orquestra “Marrabenta Star Moçambique”, acompanhado nos coros pelas vozes da Mingas e da Dulce. É que o Daniel está lá “dentro” do que canta, de tal sorte que diz, a dada altura, que quem lhe “roubou” a mulher foi o sapatero e não o sapateiro; que a “mulher” fugiu-lhe num autocarro do Olivera e não Oliveira. Nada aqui há de maneiras de cantar e entoar abrasileiradas como hoje tanto se ouve nos CD´s nacionais.
Mérito aqui vai para as versões dos nossos “monstros” interpretadas quer por Wazimbo e pela Mingas quer por alguns outros – “Hodi” de João Cabaço, Arão Litsuri e Hortêncio do “Alambique” na RDA é uma relíquia – que foram modernamente bem apanhadas e que sabe bem ouvir e dançar em festas “à nossa maneira”.
Voltando ao “Khuvu” do Stewart Sukuma: confesso que o comprei este ano, há menos de um mês portanto, não porque já o tivesse escutado e apreciado na sua totalidade, mas pelo facto de a afirmação “Felizminha, eu te gramo muito” me ter chamado a atenção, assim como a forma magistral como ele (Stewart) e os seus acompanhantes souberam aliar a “boniteza” dos instrumentos convencionais aos recursos tecnológicos à sua disposição. O CD, todo ele, não foi feito com “preguiça”. Ali houve empenho e “alma”.
Na canção “Felizminha,....”, Stewart terá certamente viajado para os tempos da sua meninice, quando escrevia e mandava cartas de amor “simples” e “rídiculas”, o que me fez recordar Fernando Pessoa quando proclama que “Só é ridículo quem nunca escreveu cartas de amor ridículas”.
Aceito ser “ridículo” em questões de coroção, mesmo na idade em que escrevo este comentário. E aconselho a todos que sejamos “ridiculos” nesta matéria e para toda a vida, porque, como canta Maria Bethânia, “a vida, é bonita, é bonita e é bonita”.
Os outros, que não Stewart Sukuma, Wazimbo, Mingas, Hortêncio, Litsure, Matucoco, Mussa Rodrigues, Lázaro Vinho, esses, que continuem “palhaços” e continuem a ganhar os míseros meticais até onde der. A vida é curta, amanhã não passarão do que hoje são as suas músicas: Mer....

* Publicado no Suplemento Cultural do Jornal "Notícias", de Maputo, 20.02.08