Pelo mundo fora


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Cascatas da Namaacha: sete anos depois da seca

segunda-feira, 15 de junho de 2009

O “Até sempre Ricardo Rangel” é hoje em Maputo

(Ricardo Rangel ao lado de outro "Monstro" das artes moçambicanas: Malangatana)

Vão hoje a enterrar no cemitério de Lhanguene, em Maputo, os restos mortais do proeminente fotojornalista moçambicano, Ricardo Rangel, falecido na noite da passada quinta-feira, 11.


O estado moçambicano tomou a si a responsabilidade das cerimónias do último adeus a este ícone da fotografia moçambicana, aguardando-se que várias centenas de pessoas, entre colegas, familiares, fazedores de arte, membros do governo, da sociedade civil e outros, prestem o derradeiro adeus a Rangel.


A urna contendo os restos mortais do foto-jornalista estará depositada nos Paços do Conselho Municipal da cidade de Maputo, após o que será transportada para a sua derradeira morada.


A morte de Rangel ocorreu de forma súbita, quando ele se encontrava em sua residência por volta das 20 horas desta Quinta-feira. No mesmo dia, ele havia estado a trabalhar no Centro de Formação Fotográfica (CFF), onde ele era director.


Contudo, desde Setembro de 2006, Rangel padecia de problemas cardiovasculares, tendo ficado hospitalizado durante perto de um ano. Por causa deste problema, foi-lhe amputada uma das suas pernas em 2007, mas desde lá vinha recuperando, apesar de sofrer recaídas de quando em vez.


Considerado decano dos fotojornalistas moçambicanos, Ricardo Achiles Rangel foi um dos primeiros jornalistas de imagem do país não-brancos com carreira iniciada no tempo colonial.


Ao longo do regime colonial português, diversas fotografias de Rangel foram banidas devido ao seu carácter crítico. Aliás, em entrevista dada a BBC em Junho de 2005, Rangel chegou a dizer que os “censores” da era colonial não eram muito inteligentes.

“Muitas vezes eles não se apercebiam da mensagem que transmitia certo texto ou determinada fotografia: não sabiam ler as fotografias. Passaram algumas que eram declaradamente contra o regime, mas a grande maioria só foi publicada depois da independência”, disse ele, na altura.


Ao longo da sua careira, Rangel fotografou diversos acontecimentos que documentam diversos acontecimentos de carácter socio-económico e cultural do país.


Ele faz parte do grupo de jornalistas da revista Tempo, a primeira publicação a cores do país, bem como trabalhou para os jornais “A Tribuna”, “Domingo”, entre outros, tendo depois fundado o CFF, onde era director desde 1983.


Ano passado, a Universidade Eduardo Mondlane (UEM), a maior e mais antiga instituição do ensino superior do país, distinguiu Rangel com o titulo de Doutor Honoris Causa em História Visual, em reconhecimento da sua contribuição para o país ao longo do seu percurso humano e profissional.

É o único fotojornalista moçambicano que, graças à grandiosidade e universalidade da sua obra, foi seleccionado para figurar numa lista mundial de ouro, que integra apenas os melhores mestres da arte de fotografar de todo o mundo. Actualmente, conta com 327 nomes compilados nos últimos 200 anos.

Outro facto que mostra que Rangel foi um grande mestre na arte de fotografar, é que essa lista de ídolos fotográficos mundiais, encabeçada pelo pioneiro francês desta arte Louis Daguerre, nascido em 1787 e falecido 73 anos antes do nascimento de Rangel – é que o nosso RR é apenas um dos três africanos que fazem parte dessa galeria de ouro dominada por grandes mestres fotográficos dos EUA, França, Grã-Bretanha e vários outros países desenvolvidos, como Itália, Alemanha, Suécia, Suíça, Japão, Canada e Austrália.


Os outros dois mestres do nosso continente são Gary Schneider, da África do Sul e Samuel Fosso, apresentado na lista como sendo apenas um africano.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Morreu Ricardo Rangel, decano do foto-jornalismo moçambicano

(Uma das mais emblemáticas imagens de Ricardo Rangel)
(Auto-retrato de Ricardo Rangel)
O foto-jornalista moçambicano Ricardo Rangel, 85 anos, morreu esta quinta-feira, 11, em Maputo, enquanto dormia, disse fonte familiar.

Ricardo Rangel, uma referência na área da fotografia em Moçambique, através da qual denunciou a ditadura colonial, participou em dezenas de exposições em diversos países.

Começou a trabalhar na área da fotografia aos 17 anos, num laboratório, passou pelo jornal bi-lingue “Lourenço Marques Guardian” e depois entrou para o jornal “Notícias da Tarde”, onde foi o primeiro foto-jornalista não branco.

Em 1996, chegou o seu reconhecimento internacional, quando foi incluído na mostra “Fotógrafos africanos de 1940 aos nossos dias” (Museu Guggenheim, Nova Iorque) e numa homenagem prestada pelos Encontros da Fotografia Africana em Bamako, no Mali. Foi condecorado com o grau de Oficial das Artes e Letras pelo governo francês.

O seu percurso começou em 1941, como aprendiz do fotógrafo Otílio Vasconcelos.

Lourenço Marques Guardian , Notícias, Notícias da Tarde , A Tribuna , Diário de Moçambique, Voz Africana e Notícias da Beira , foram jornais onde trabalhou.

Fundou a revista “Tempo”, o Sindicato Nacional dos Jornalistas – SNJ e a Associação Moçambicana de Fotografia – AMF . Em 1983, foi nomeado para fundar e dirigir o Centro de Formação Fotográfica.

Expôs em Moçambique, Mali, Itália, África do Sul, Portugal, Alemanha, Estados Unidos, Zimbabwe, Holanda, Suécia e França.

Sebastião Salgado, foto-jornalista português, disse, numa exposição em Paris, ter sido bastante marcado pelas fotos de Ricardo Rangel, quando as viu, em 1974, na sua primeira viagem a Moçambique.

Numa entrevista ao jornal “Público”, em Junho de 1991, Rangel afirmou que começou a tomar consciência da importância das suas fotografias pelo facto de a censura as cortar.

Licínio de Azevedo, cineasta brasileiro radicado em Moçambique desde 1976, fez em 2006 um documentário de 52 minutos intitulado “Ricardo Rangel – ferro em brasa” em que Rangel nos conduz pela sua vida e obra, onde a cidade de Maputo, a boémia e o jazz tem um lugar especial.

Gimo Remane: Melhor Artista Africano na Dinamarca

O músico moçambicano radicado na Dinamarca Gimo Remane Mendes, fundador e ex-líder do grupo Eyuphuro, foi recentemente nomeado para a categoria de Melhor Artista Africano – Dinamarca (DK) 2009, cuja indicação dos premiados está prevista para Outubro próximo.

A nomeação de Gimo Remane Mendes surge em reconhecimento do trabalho que tem desenvolvido naquele país europeu em prol da música africana.

Para a categoria de Melhor Artista Africano – DK 2009, segundo informações em nosso poder, foram nomeados nove artistas africanos radicados naquele país europeu, no âmbito da escolha anual realizada pela “Celebrate África”. De referir que esta é a terceira edição do certame que premeia os melhores artistas africanos na Dinamarca (Best African Achievements Awards).

Gimo Remane Mendes nasceu em Mossuril, província de Nampula, mas viveu na Ilha de Moçambique onde cresceu influenciado pela diversidade musical fruto de um cruzamento de culturas dos vários povos que durante séculos passaram por aquelas terras.

Viveu e cresceu num ambiente de riqueza cultural, de história e de beleza natural. Muito cedo mostrou os seus dotes musicais tocando e trabalhando com grupos culturais dos bairros da ilha e, desde 1974, embalado pelos ventos da revolução moçambicana, começou a compor músicas na sua língua materna. Foi um dos primeiros músicos moçambicanos a compor e cantar músicas em macua para o público.

Músico convicto e determinado, fundou em 1985, com Salvador Maurício e outros músicos daquela parte de Moçambique, o conhecido grupo Eyuphuro. Inspirando-se nos diferentes ritmos e instrumentos tradicionais da Ilha de Moçambique, Eyuphuro marcou a música moçambicana com um estilo único na nossa música ligeira.

Actualmente a residir na Dinamarca onde prossegue a sua carreira de músico e artista, Gimo Mendes não pára de surpreender aos moçambicanos e aos apreciadores da boa música. Depois de produzir e lançar “A Luz”, seu primeiro e belíssimo álbum a solo, provou ser um músico de mão cheia. Em 2007, foi galardoado com o prémio “Danish World Awards 2007” na categoria de melhor música do ano 2007 com o número “500 anos”, um trofeu que veio premiar um trabalho que só Gimo sabe fazer e que prestigia a música moçambicana além-fronteiras.

Como artista, criativo e pensador fundou na Dinamarca a associação “Artists Take Action” (ATA), uma associação de carácter cultural e humanitário onde procura juntar músicos, jornalistas e outras entidades do mundo da arte e cultura dinamarquesas para interagir com artistas moçambicanos.

Gimo Remane Mendes é um artista que sabe conjugar as oportunidades que lhe são oferecidas pelo país de acolhimento (Dinamarca) e as potencialidades do seu país de origem (Moçambique) e que juntando moçambicanos e dinamarqueses debaixo da ATA espalha o orgulho de ser moçambicano na diáspora.

40 anos de Woodstock comemorados em caixa

Este ano comemoram-se os 40 anos desde a primeira edição do festival Woodstock, um dos marcos da década de 60. Para se celebrar este aniversário, será editada uma caixa com seis discos com gravações inéditas de artistas como Jimi Hendrix, The Who, The Grateful Dead ou Jefferson Airplane.

Esta caixa tem por título Woodstock - 40 Years On: Back to Yasgur's Farm e será editada no dia 18 de Agosto, pela editora Rhino Records. Cheryl Pawelski, vice- presidente da editora, referiu que esta será "a mais completa colecção de músicas do Woodstock". Ao todo, esta edição reúne 77 canções, sendo que 38 delas nunca foram editadas em disco. Além dos seis discos, esta caixa traz ainda um pequeno livro com informações sobre os vários espectáculos que se realizaram neste festival.

Mas esta não é a única edição marcada para este ano de forma a celebrar os 40 anos de Woodstock. Serão ainda reeditados os discos Music from the Original Sound-track and More: Woodstock 1, Woodstock 2 e ainda o DVD Woodstock: 3 Days of Peace and Music - The Director's Cut.

Este ano vai ainda estrear-se o filme Taking Woodstock, de Ang Lee. O filme, exibido pela primeira vez no festival de Cannes, conta com argumento de James Schaus e é protagonizado por Liev Schreiber e Emile Hirsch.

terça-feira, 9 de junho de 2009

A falta de autoridade de que nos envergonharemos no futuro


(Estas fotografias foram captadas no "Sítio" Galiza Matos, aldeia de Germantine, sete quilométros da vila da Namaacha, em maio de 2009. Na de cima vê-se o fogo a devorar uma latrina e na de baixo atacando o ananaseiro: cerca de quinhentas plantas foram queimadas)

Por Edmundo Galiza Matos

O fenómeno das alterações climáticas e os seus efeitos a nível global já não constitui um assunto tratado por muitos como dizendo respeito apenas aos especialistas ou como sendo mais um dos modismos que, com o tempo, se eclipsará das suas pautas e das manchetes dos media. O mal – porque é disso que efectivamente se trata – começou a “mexer” com a vida de todos e, no caso de Moçambique, com a dos milhões de camponeses que têm nos recursos naturais o seu meio de sobrevivência.

Muito recentemente veio a público a informação que nos dava conta que, dada a sua localização geográfica, Moçambique é dos países que mais sofrerão de catástrofes naturais – ciclones, cheias, secas – como resultado dos estragos causados pela acção do homem sobre a natureza. Aliás, um estudioso português vaticina mesmo a possibilidade de o nosso pais vir a ser palco, nos próximos dez anos, de chuvas “diluvianas”, tão ou mais devastadoras que as que vivemos nos primeiros anos deste século, sobretudo na região sul. Com a diferença de que a “torneira” não estará aberta por dias, mas por algumas poucas horas, duas ou três vezes, com uma precipitação superior a um de um ano inteiro. Que Deus nos livre e nos guarde ...

O dilema com que nos deparamos é: se já nos demos conta do facto, de que estamos a espera para agir e assim, com base num programa tão vulgar como o de plantar uma árvore, evitar que o problema se agigante e ganhe contornos tais que já não haverá mais nada a fazer?

Que programa mais será necessário elaborar se muitos já existem, perguntarão os que estão ligados ao assunto. Outros, como eu, preocupados, retorquirão que se tais “planos de acção” estão definidos e em execução, algo então está a emperrar a sua visibilidade e os resultados práticos que deles se almejam atingir. Senão, não se compreende como é que as queimadas descontroladas continuem a devastar milhares e milhares de hectares de matas, danificando seriamente o ecossistema e atirando para a atmosféra o dióxido de carbono? E que dizer da subida da invasão das aguas do mar sobre as vilas de Mecufi, em Cabo Delgado e Machanga em Sofala, só para citar dois exemplos que testemunhei não faz um ano?

No rol dos estragos mais visíveis que as alterações climáticas estão a desencadear em Moçambique – e sempre com conhecimento de causa – não deixaria de apontar o caso da vila fronteiriça da Namaacha cujo clima era por muitos procurado e, até, recomendado para enfermos necessitados de “ares menos inócuos” como os que se vivem nos grandes aglomerados populacionais. Pergunte-se aos habituais peregrinos ao Santuário da Nossa Senhora da Namaacha se as temperaturas que se fizeram sentir durante a romaria deste ano de alguma forma se aproximaram das que se experimentavam em anos anteriores. Não, em absoluto. Por mentiroso passará aquele que se lembre de dizer que em tempos que a memória já não guarda os termómetros, entre Abril e Julho, desciam abaixo do zero e que a agua canalizada não jorrava das torneiras porque a tubagem era obstruída pelo líquido solidificado.

Desde 2000 que divido a minha vida entre a cidade da Matola e a vila da Namaacha e desde então acompanho o desenvolvimento inexorável das mutações no clima daquela região fronteiriça e a inacção das autoridades para estancar ou pelo menos minimizar os perniciosos atentados contra a natureza praticados pelo homem, nomeadamente, queimadas (muitas atiçadas por pura malvadez) e desmatação desenfreada para fabrico de carvão vegetal.

Como consequência óbvia deste estado de coisas temos que o saco de carvão passou de 60,00 meticais em 2001 para 200,00 meticais presentemente. Mais: o Vondo, um roedor que vive de tubérculos e o coelho, para não falar de outras espécies animais como a gazela, o cabrito do mato ou o javali, que os caçadores da zona vendiam ao desbarato aos que circulavam de Maputo até a fronteira com a Swazilândia, “pisgaram” para não se sabem onde. Pior do que isso são as cobras (Mamba e Surucucú) que, acoitadas pelas chamas do fogo posto, procuram abrigo em lugares mais seguros: junto das aldeias, para desespero dos seus habitantes. Uma manta ou uma almofada, mesmo que retalhadas, sempre são mais confortáveis que o inferno de uma vegetação a crepitar pela acção das chamas.

Mais dramática ainda é a gritante falta de agua, tanto para consumo humano quanto para a lavoura dos campos e beberagem do gado. A gravidade do problema é tal que, recordemo-nos, as autoridades se viram obrigadas nos primeiros meses deste ano a mobilizar camiões-cisternas para, a partir do rio Umbeluzi, satisfazer as necessidades de populações sedentas de vários pontos da Namaacha. Numa situação destas a agricultura familiar ressentiu-se e em consequência instalaram-se bolsas de fome que até hoje teimam em açoitar as populações da região.

Não é necessário ser-se especialista para concluir que esta situação tem a sua verdadeira origem na anormalidade com que as chuvas têm caído nos últimos anos. Que as queimadas descontroladas e a desmatação para o fabrico de combustíveis lenhosos simplesmente descontrolaram o ciclo natural das chuvas. Que na falta destas os lençóis freáticos minguaram de tal azar que, a título de exemplo, as famosas cascatas da Namaacha não passam hoje de rochas nuas e gretadas por um sol cada ano mais inclemente.

Chegados aqui, nada mais natural e legítimo do que se procurar saber onde estarão as autoridades, locais, distritais, provinciais e centrais, e que é feito dos planos de mitigação deste bicudo problema? Sem querer ser algum juiz em causa que não lhe diz respeito, atrevo-me porém a pensar que pouco ou quase nada está a ser feito para, em primeiro lugar, massificar toda a informação relativa a gravidade da situação e das causas que estão na base do imbróglio.

Mais grave ainda é a inacção e até a cumplicidade que se instalou entre os líderes e comunidades, elas próprias “agentes materiais do crime”, que, conhecedoras dos desmandos dos chamados carvoeiros e dos piromaníacos, simplesmente não agem. Para ser mais explícito, atrever-me-ei a afirmar que aqueles que deviam impor a ordem, desde a base ao topo, nada fazem, ao jeito de quem não quer meter o “bedelho” nos negócios dos outros para que ninguém se meta nos seus negócios. De outra forma, não se compreende como é que um ateador da queimada continue a viver tranquilamente ao lado do líder da sua comunidade ou como é que o controle dos fiscais florestais não se faz sentir, com todo o peso da sua autoridade, perante o desfile de centenas de camiões que entram diariamente nas cidades transportando lenha e carvão cujo corte e queima não foi autorizado.

Já lá vai o tempo em que a autoridade dos líderes se impunha, cujas decisões, sempre tomadas depois de ouvidas as sensibilidades locais, viravam lei e todos as cumpriam. Desconhecida é hoje a enorme influência que os aciãos exerciam sobre as acções das gerações mais novas. A falta de referências nas comunidades já se instalou e o resultado é a anarquia total, a tal ponto que não é segredo a prática de venda de terras a troco de uns míseros e efémeros milhares de meticais, uns tantos garrafões de “vinho para pretos”, capulanas e frangos. O Presidente da República, numa das presidências abertas na Inhaca, pronunciou-se sobre este fenómeno e as coisas continuam a desenrolar-se normalmente.

Está então visto que o que faz falta é o peso da autoridade, a complacência com a desordem que instalou, em consequência, a ideia segundo a qual o atropelo às leis é um “modus vivendi” ao alcance de todos, ricos e pobres.

Há que pôr cobro a este estado de coisas sob pena de a nossa falta de autoridade hoje nos desautorizar no futuro. Aí, acredite-se, será o nosso suicídio como pais. Tenho dito.

sábado, 6 de junho de 2009

Sete Maravilhas: Polémica chega a Maputo

A polémica sobre “As Sete Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo” chegou também a Moçambique, com acusações de “distorção da história colonial”, embora haja quem considere “empolada” a contestação.

“As Sete Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo”, um concurso promovido por instituições portuguesas, nomeadamente pela televisão pública RTP, pretende a selecção, através de votação por internet, de sete dos lugares mais emblemáticos construídos durante o império colonial português.

Esta semana, um grupo de académicos de vários países do mundo criticou numa carta aberta os promotores do evento por considerarem que “distorcerem o passado sangrento da sua expansão colonial em África”.

Em Moçambique, “representado” no concurso pela Ilha de Moçambique, o diário de maior circulação do país, o Notícias, dedicou esta semana toda a página dois do seu suplemento cultural ao concurso, mas é na segunda coluna desse espaço que escreve: “Escravatura – Vergonha que Portugal prefere contornar”.

Citando a referida carta aberta, o jornalista Paul Fauvet, autor do texto inserido no Notícias, diz que “o Governo português e os organizadores do concurso ignoraram a dor daqueles que tiveram seus antepassados deportados desses entrepostos comerciais e muitas vezes ali mortos”.

“Será possível desvincular a arquitectura dessas construções do papel que elas tiveram no passado e que ainda têm, no presente, enquanto lugares de memória de imensa tragédia que representou o tráfico transatlântico e a escravidão africana nas colónias europeias?”, questiona o Notícias, com base na carta.

Em declarações à Lusa, o director do Arquivo Histórico de Moçambique e docente de História na Universidade Eduardo Mondlane (UEM), Joel das Neves, considerou “empoladas as críticas a essa iniciativa”, salientando que o concurso “assenta num contexto de valorização do património arquitectónico ligado a Portugal”.

“Se o argumento de que exaltar o aspecto arquitectónico dos monumentos é faltar ao respeito da memória dos que foram escravizados na edificação desse património, ainda se irá criticar a UNESCO por considerar a Ilha de Moçambique um património da humanidade”, observou Joel das Neves.

O director do Arquivo Histórico de Moçambique referiu ainda que “alguns dos monumentos que são o orgulho do Moçambique - pós independência foram edificados no contexto da dominação colonial portuguesa”.

“Compreendo a animosidade, mas a minha opinião é a de que se está a distorcer o espírito da iniciativa”, enfatizou Joel das Neves.

Moçambique: Aldeia em Cabo Delgado abandonada devido aos elefantes

Uma aldeia da província moçambicana de Cabo Delgado foi abandonada e os habitantes fundaram uma nova, para fugir aos elefantes que lhes destruíam sistematicamente as culturas.

Cinco mil pessoas do posto administrativo de Bilibiza, distrito de Quissanga, em Cabo Delgado, deixaram a sua aldeia, Nraha, para fugir às constantes incursões dos elefantes do Parque Nacional das Quirimbas.

A movimentação dos habitantes da aldeia começou em Abril, estando a comunidade a recomeçar a vida próximo de outra aldeia, Namadai, onde há menos elefantes.

Os habitantes de Nraha queixavam-se que além de verem as culturas destruídas, as crianças também não podiam ir à escola, ocupadas que estavam a afugentar os elefantes das “machambas” (áreas de cultivo).

sexta-feira, 5 de junho de 2009

GOVERNO PORTUGUÊS TENTA DISTORCER HISTORIA COLONIAL


Fortaleza e Igreja - monumentos construídos no século XIX na Ilha do Ibo, Moçambique

Por Paul Fauvet, da Agência de Informação de Moçambique


Um número considerável de académicos proeminentes especializados na pesquisa da história dos países africanos de expressão portuguesa e do colonialismo português escreveram uma carta aberta em três línguas, nomeadamente inglês, português e francês, para denunciar a última tentativa do governo deste país europeu de distorcer o passado sangrento da sua expansão colonial em África.

Actualmente, o governo e instituições portuguesas, tais como a Universidade de Coimbra, estão a organizar um concurso internacional designado por “As Sete Maravilhas Portuguesas no Mundo”.

Estas maravilhas consistem em monumentos construídos em todo o mundo, a maioria dos quais durante o auge do poderio colonial português.

De facto, alguns destes monumentos são impressionantes – mas a nota explicativa trata os mesmos como se não fossem mais do que obras-primas de arquitectura. A partir da literatura que acompanha o concurso ninguém seria capaz de adivinhar que durante muitos séculos vários destes locais desempenharam um papel chave no comércio de escravos através do Oceano Atlântico.

Estimativas indicam que durante o comércio de escravos cerca de 12 milhões de africanos foram raptados e transportados através do Atlântico. Portugal, e a sua antiga colónia, o Brasil, foram responsáveis por pelo menos metade deste número.

O comércio de escravos e’ dos factos mais notáveis da história da expansão colonial portuguesa, mas que foi deliberadamente omitida do concurso “As Sete Maravilhas Portuguesas”.

A carta aberta nota que nas últimas duas décadas “vários países europeus, americanos e africanos vêm afirmando a memória dolorosa do comércio de africanos escravizados e valorizando o património que lhe é associado”.

Alguns dos países que também praticaram o comércio de escravos, entre as quais se destacam a França, reconhecem a escravatura como tendo sido um crime contra a humanidade, razão pela qual este país europeu adoptou a data 10 de Maio como o “Dia Nacional de Comemoração das Memórias do Tráfico Negreiro, da Escravatura e das suas Abolições”.

O Vaticano, que outrora também foi cúmplice da escravatura, já pediu desculpas pelo papel que desempenhou. Esse pedido de desculpas foi feito publicamente pelo Papa João Paulo II quando, em 1992, visitou a Casa dos Escravos na Ilha de Gorée, ao largo da costa do Senegal.

Vários presidentes, cujos países estiveram profundamente comprometidos com o comércio de escravos, incluindo o brasileiro Lula da Silva, e os norte americanos Bill Clinton e George W. Bush, seguiram o exemplo, condenando os malefícios do comércio de escravos e o passado trágico dos seus países.

Em 2007, a Grã-Bretanha comemorou o seu segundo centenário da abolição do comércio de escravos, tendo o então primeiro-ministro, Tony Blair, manifestado o seu pesar pelo papel do seu país na escravidão de muitos africanos.

Portugal, ao invés, refere a carta, está a tentar remar contra a maré do reconhecimento e arrependimento.

A lista das Sete Maravilhas inclui a cidade histórica de Luanda, actual capital de Angola, a Ilha de Moçambique, que foi a primeira capital de Moçambique, Ribeira Grande, na Ilha de Santiago, em Cabo Verde, e o Castelo São Jorge da Mina (também conhecido por Castelo Elmina), no Gana.

Todos estes locais estiveram profundamente envolvidos no comércio de escravos, facto que e’ sistematicamente omitido na literatura do concurso Sete Maravilhas.

A excepção de um único caso: o texto das “Sete Maravilhas” chegou ao cúmulo de afirmar que o Castelo Elmina foi entreposto de escravos somente a partir da ocupação holandesa, em 1637.

Esta parece ser mais uma tentativa de insinuar que apenas os holandeses eram praticantes da escravatura, e não os portugueses.

Contudo, a carta aberta, nota que os portugueses construíram o Castelo Elmina, em 1482. Foi um entreposto de escravos, embora também serviu para o comércio de ouro e de outros produtos. Porém, não existe margem de dúvida de que um grande número de escravos passaram através de Elmina, quando ainda se encontrava sob o controlo dos portugueses, e que acabaram sendo levados para o Brasil.

A carta refere que “para ser fiel à história e moralmente responsável, consideramos que a inclusão desses ‘monumentos’ no dito concurso deveria ser acompanhada de informações completas sobre o papel deles no tráfico atlântico, assim como sobre seu uso actual”, (Por exemplo, O Castelo Elmina e’ actualmente um museu que mostra a história da escravatura).

Segundo os signatários da referida carta, o governo português e os organizadores do concurso “ignoraram a dor daqueles que tiveram seus antepassados deportados desses entrepostos comerciais e muitas vezes ali mortos”.

“Será possível desvincular a arquitectura dessas construções do papel que elas tiveram no passado e que ainda têm, no presente, enquanto lugares de memória da imensa tragédia que representou o tráfico transatlântico e a escravidão africana nas colónias europeias?”, questionam os autores da carta aberta.

“Em respeito à história e à memória dos milhões de vítimas do tráfico atlântico de escravos, viemos através desta carta aberta repudiar a omissão do papel que tiveram esses lugares no comércio atlântico de africanos escravizados”, conclui a carta, descrevendo o concurso como sendo uma tentativa de banalizar e apagar a história “em prol da exaltação de um passado português glorioso expresso na suposta 'beleza' arquitectónica de tais sítios de morte e tragédia”.

A carta e’ assinada por várias dezenas de académicos de varias universidades em África, Europa, América do Sul e do Norte.

Por isso, os autores da carta aberta decidiram lançar uma petição “on-line” contra a distorção da história, que toda a gente poderá assinar, e que se encontra disponível no endereço http://www.petitiononline.com/port2009/petition.html.