Pelo mundo fora


contador gratis

Cascatas da Namaacha: sete anos depois da seca

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Leia trecho do romance 'Terrorista', de John Updike

O romancista John Updike, um dos grandes nomes da literatura norte-americana morreu nesta terça, aos 76 anos, de um câncer no pulmão, segundo informou seu editor Alfred A.Knopf. Leia trecho de seu romance Terrorista, lançado no Brasil em 2007. Na obra, o escritor conta a história do jovem Ahmad, filho de pai árabe e mãe irlandesa-americana, que vive o dilema de ter de escolher entre seguir o conselho de um professor de sua escola, um judeu nem um pouco religioso, que o instiga a estudar para entrar na faculdade, ou entrar para um grupo de terrorismo internacional ligado a atentados suicidas por influência do xeique Rashid, imã da mesquita que ele costuma frequentar.

Demônios, pensa Ahmad. Esses demônios querem tomar de mim meu Deus. O dia inteiro, na Central High School, as meninas rebolam, debocham e exibem seus corpos macios, seus cabelos sedutores. Os ventres nus, enfeitados com vistosos piercings no umbigo e tatuagens lascivas em roxo, indagam: O que mais há para mostrar? Os rapazes desfilam, blasés e orgulhosos, com olhares mortos, indicando, com gestos violentos de assassinos e risos indiferentes e sarcásticos, que este mundo é tudo que existe - um corredor barulhento, envernizado, cheio de armários de metal e terminando numa parede lisa, profanada por grafites e tantas vezes pintada e repintada que dá a impressão de estar avançando cada vez mais, milímetro por milímetro.

Os professores, cristãos débeis e judeus não praticantes, falam palavras vazias sobre a virtude e a honradez do autocontrole, porém seus olhares esquivos e suas vozes insinceras traem sua falta de fé. Eles são pagos para dizer essas coisas, pagos pela prefeitura de New Prospect e pelo governo estadual de Nova Jersey. Ahmad e os dois mil outros alunos os vêem se enfiando em seus carros depois das aulas no estacionamento apinhado, pontilhado de lixo, como tantos caranguejos pálidos ou escuros que voltassem a suas cascas, e são homens e mulheres como quaisquer outros, cheios de concupiscência e medo e paixão por coisas que podem ser compradas. Infiéis, pensam que a segurança está em acumular coisas deste mundo e nas diversões corruptoras da televisão. São escravos das imagens, imagens falsas de felicidade e riqueza. Mas mesmo as imagens verdadeiras são imitações pecaminosas de Deus, o único ser capaz de criar. O alívio por ter escapado incólumes de seus alunos por mais um dia faz com que os professores se dispersem nos corredores e no estacionamento falando alto demais, como bêbados cada vez mais excitados. Os professores caem na farra quando não estão na escola. Alguns têm as pálpebras avermelhadas, o mau hálito e o corpo inchado daqueles que costumam beber em excesso. Uns são divorciados; outros vivem maritalmente sem ser casados. Fora da escola, levam vidas desorganizadas e libidinosas, sem autodisciplina. São pagos para pregar a virtude dos valores democráticos pelo governo estadual, cuja sede fica em Trenton, e por aquele governo satânico mais longe, em Washington, porém os valores em que acreditam são ímpios: biologia, química, física. Quando se trata dos fatos e fórmulas desses assuntos, suas vozes falsas soam firmes e retumbam na sala de aula. Dizem que tudo provém de átomos cegos e implacáveis, responsáveis pelo peso frio do ferro, a transparência do vidro, a imobilidade da argila, a agitação da carne. Os elétrons fluem por fios de cobre, por portas de computador e pelo próprio ar, quando a interação de gotículas de água provoca relâmpagos. Só é verdade aquilo que podemos medir e deduzir a partir de nossas mensurações. Tudo o mais é apenas o sonho passageiro que chamamos de nosso ser.

Ahmad tem dezoito anos. Estamos no início de abril; mais uma vez o verde penetra sorrateiro, semente por semente, nas fendas de terra da cidade cinzenta. Ele olha do patamar de sua altura recém-conquistada e pensa que, para os insetos invisíveis na grama, ele seria, se eles tivessem uma consciência como a sua, Deus. No ano passado Ahmad cresceu sete centímetros, chegando a um metro e oitenta e dois - mais forças materialistas invisíveis a exercer sua vontade sobre ele. Ele não vai crescer mais do que isso, pensa Ahmad, nesta vida nem na outra. Se houver uma outra, um demônio interior murmura. Que provas, além das palavras ardentes e divinamente inspiradas do Profeta, garantem que existe outra vida? Onde ela estaria escondida? Quem estaria eternamente abastecendo as fornalhas do Inferno? Que fonte infinita de energia haveria de manter o Éden opulento, alimentando as huris de olhos negros, fazendo crescer os frutos pesados nas árvores, renovando os riachos e chafarizes em que Deus, conforme a nona sura do

Alcorão, eternamente se regozija? E a segunda lei da termodinâmica?

As mortes dos insetos e vermes, cujos corpos rapidamente são absorvidos pela terra, o mato e o asfalto da estrada, tentam dizer a Ahmad, demoníacas, que a morte dele será igualmente pequena e definitiva. No caminho da escola, ele percebeu um sinal, uma espiral traçada na calçada em icor luminoso, o visgo angelical do corpo de alguma criatura vil, um verme ou lesma do qual esse vestígio é tudo que resta. Aonde iria essa criatura, descrevendo uma espiral centrípeta sem nenhum sentido? Se estava tentando se afastar da calçada quente que a assava viva sob o sol forte, foi um equívoco, e os círculos por ela descritos se revelaram fatais. Porém no centro da espiral não ficou nenhum minúsculo corpo de verme.

Então para onde voou aquele corpo? Talvez tivesse sido arrebatado por Deus e levado diretamente para o Céu. O professor de Ahmad, o xeique Rashid, imã da mesquita que fica num sobrado em 27811/2 West Main Street, lhe diz que, segundo a tradição sagrada da Hadith, tais coisas acontecem: o Mensageiro, montado no cavalo alado branco Buraq, foi guiado através dos sete céus pelo anjo Gabriel até um determinado lugar, onde ele rezou com Jesus, Moisés e Abraão antes de voltar à Terra, para se tornar o último dos profetas, o maior de todos. São provas de suas aventuras naquele dia as marcas deixadas pelo casco de Buraq, nítidas e límpidas, no Rochedo sob a Cúpula sagrada no centro de al-Quds, chamada de Jerusalém pelos infiéis e sionistas, cujos tormentos nas fornalhas do Jahannan são bem descritos nas suras de número 7, 11 e 50 do Livro dos Livros.

O xeique Rashid recita com uma belíssima pronúncia a sura 104, referente ao Hutama, o Fogo que Consome:

E quem te ensinará o que é o Fogo que Consome?
É o fogo de Deus a arder,
Que abrasará os corações dos amaldiçoados.
Em verdade, elevar-se-á sobre eles como uma abóbada,
Em colunas estendidas.

Quando Ahmad tenta extrair das imagens do texto em árabe do Alcorão - as colunas estendidas, fe- 'amadin mumaddada, e a abóbada a se elevar acima dos corações da multidão encolhida de terror, tentando enxergar em meio à névoa quente que se estende a perder de vista, na-ru 'l-la-hi 'l-mu-qada - algum indício de que o Misericordioso em algum momento se compadece e faz com que se detenha o Hutama, o imã baixa os olhos, que são de um inesperado tom claro de cinzento, leitosos e esquivos como os de uma mulher africana, e diz que essas descrições visionárias do Profeta têm sentido figurado. Na verdade, elas se referem ao sofrimento ardente de estar separado de Deus e ao ardor do remorso causado por nossos pecados contra Seus mandamentos. Porém Ahmad não gosta da voz do xeique Rashid quando ele diz essas coisas. Ela o faz pensar nas vozes pouco convincentes de seus professores no colégio. Por trás dela Ahmad detecta a voz de Satanás, uma voz que nega dentro da que afirma. O Profeta se referia ao fogo físico quando pregava um fogo inclemente; Maomé proclamou vez após vez a existência factual do fogo eterno.

O xeique Rashid não é muito mais velho do que Ahmad - talvez dez anos, talvez vinte. Há poucas rugas na pele branca de seu rosto. Seus gestos são tímidos, ainda que precisos. Nos anos de vida que o separam de Ahmad, o mundo o enfraqueceu. Quando o murmúrio dos demônios interiores transparece na voz do imã, Ahmad sente em seu próprio ser um desejo de levantar-se e esmagá-lo, tal como Deus queimou aquele pobre verme no centro da espiral. A fé do discípulo é maior que a do mestre; o xeique Rashid tem medo de se ver montado no corcel alado branco do islã, a galopar com ímpeto irresistível. Ele tenta suavizar as palavras do Profeta, harmonizá-las com a razão humana, mas elas não foram feitas para isso: são palavras que penetram a nossa frouxidão humana como uma espada. Alá é sublime além de todas as particularidades. Não há outro Deus senão Ele, o Vivo, o Auto-suficiente; Ele é a luz comparada com a qual o sol parece negro. Ele não se harmoniza com a nossa razão, porém obriga nossa razão a se curvar, encostando a fronte no pó e ostentando, tal como Caim, a marca desse pó. Maomé era um mortal, porém ele visitou o Paraíso e conviveu com as realidades que lá existem. Nossos atos e pensamentos foram escritos na consciência do Profeta com letras de ouro, como as palavras candentes feitas de elétrons que o computador cria quando digitamos num teclado.

Os corredores do colégio cheiram a perfume e exalações corpóreas, goma de mascar e comida impura do bandejão, e também pano - algodão, lã, os materiais sintéticos dos tênis de corrida, aquecidos por carne jovem. No intervalo entre as aulas explode um trovão de atividade; o ruído recobre como uma membrana fina a violência subjacente, contida por um triz. Às vezes, no momento mais tranqüilo ao término das aulas, quando a barulheira triunfal e irreverente da volta para casa já se extinguiu e apenas os alunos envolvidos em atividades extracurriculares permanecem no prédio enorme, Joryleen Grant aproxima-se de Ahmad, junto a seu armário. Ele participa da equipe de atletismo na primavera; ela canta no coral feminino. Para os padrões da Central High, eles são alunos "bons". A religião dele o afasta das drogas e do vício, mas também o mantém isolado dos colegas e dos estudos curriculares. Ela é baixinha e rechonchuda, e fala bem em aula, agradando os professores. Há uma autoconfiança encantadora no modo compacto como seu corpo rotundo, cor de cacau, preenche suas roupas, que hoje consistem num jeans remendado e enfeitado com aplicações de metal, gasto no trecho que encosta no assento das cadeiras, e um bustiê magenta drapeado, mais decotado e mais curto do que deveria ser. Passadores de plástico azul prendem o cabelo reluzente para trás, esticando-o tanto quanto possível; a borda gorducha da orelha direita ostenta em sua dobra uma fileira de minúsculos brincos de prata. Ela canta em eventos comemorativos, canções sobre Jesus ou anseio sexual, dois temas que Ahmad julga abomináveis. No entanto, agrada-o constatar que ela repara nele, aproximando-se do rapaz de vez em quando como uma língua que testa um dente dolorido.

"Se anima, Ahmad", ela o provoca. "As coisas não podem estar tão ruins assim." Ela levanta o ombro seminu, para indicar que está falando de brincadeira.

"Não estão ruins, não", diz ele. "Eu não estou triste." Seu corpo alongado está pinicando sob as roupas - camisa branca, jeans preto justo - por causa da chuveirada que ele tomou depois da educação física.

"Você está com uma cara muito séria", ela insiste. "Você devia aprender a sorrir mais."
"Por quê? Por que é que eu devia, Joryleen?"

"As pessoas vão gostar mais de você."

"Isso não me interessa. Não quero que gostem de mim."

"Interessa, sim", ela retruca. "Todo mundo se interessa."

"Você é que se interessa", diz ele, olhando para ela com desdém do alto de seu corpo recém-espichado. O volume dos seios aparece, como duas bolhas enormes, pelo decote do bustiê indecente que, na outra extremidade, expõe o ventre gordo e o umbigo profundo. Ele imagina aquele corpo liso, mais escuro que caramelo porém mais pálido que chocolate, assando naquelas chamas eternas, coberto de bolhas; estremece de piedade, pois ela está tentando ser simpática com ele, de acordo com a concepção que tem de si própria. "Miss Simpatia", diz ele, debochado.

O comentário a magoa, e ela se afasta, empurrando os livros pesados que leva para casa contra os seios, aprofundando a fenda entre eles. "Vá tomar no cu, Ahmad", diz, ainda com um toque de ternura incerta; o lábio inferior, macio e pesado, está um pouco caído. A saliva nas gengivas reflete a luz das lâmpadas florescentes no teto, que mantêm o corredor iluminado e seguro. Para salvar aquele encontro, embora tenha se virado para encerrá-lo, Joryleen acrescenta: "Se não estivesse interessado, você não ia fazer questão de usar uma camisa branca limpa todo dia, como se fosse um pastor. Como é que a sua mãe agüenta passar tanta roupa?".

Ele não se dá o trabalho de explicar que aquela roupa cuidadosamente escolhida significa que ele é um não-combatente, evitando tanto o azul, a cor dos Rebels, a gangue de afro-americanos da Central High, quanto o vermelho, que é sempre usado, mesmo que apenas num cinto ou numa faixa na testa, pelos Diabolos, a gangue hispânica. Também não lhe diz que sua mãe raramente passa roupa, pois é auxiliar de enfermagem no Saint Francis Community Hospital e pintora nas horas vagas, e só vê o filho menos de uma hora por dia. As camisas dele são entregues dobradas e envoltas em um papelão pela tinturaria, cuja conta ele paga com o dinheiro que ganha trabalhando como balconista na Shop-a-Sec da Tenth Street duas noites por semana, nos fins de semana e nos feriados cristãos, quando a maioria dos meninos de sua idade está na rua se metendo em encrencas. Porém, ele sabe, há vaidade em seu traje, uma exibição que ofende a pureza do Senhor do Universo.

Ahmad percebe que Joryleen não está apenas tentando ser simpática: ele desperta sua curiosidade. A moça quer se aproximar dele para cheirá-lo mais de perto, muito embora já tenha um namorado com fama de "mau". As mulheres são animais fáceis de domesticar, o xeique Rashid já alertou Ahmad, e ele vê com os próprios olhos que no colégio e no mundo maior fora dele as pessoas estão o tempo todo se afocinhando - animais cegos numa manada, esbarrando uns nos outros, procurando por um cheiro que os conforte. Mas o Alcorão afirma que só há conforto para aqueles que acreditam no Paraíso invisível e que observam o mandamento de rezar cinco vezes por dia, que o Profeta trouxe para a Terra depois da viagem noturna montado no dorso largo de Buraq, o corcel de alvura resplandecente.

Joryleen continua parada ali, perto demais dele. Seu perfume perturba as narinas do rapaz; a fenda entre seus seios o incomoda. Ela muda de posição os livros pesados que leva nos braços. Ahmad lê na borda do volume mais grosso as palavras traçadas a esferográfica: JORYLEEN GRANT. Os lábios da garota, pintados com um batom de um tom metálico e luminoso de rosa para parecerem mais finos, o surpreendem por exprimir constrangimento. "O que eu queria perguntar a você", ela consegue dizer, com tanta hesitação que ele é obrigado a abaixar-se para ouvi-la melhor, "era se você está a fim de ir lá na igreja neste domingo para me ouvir dar um solo no coral."

Ele fica chocado, sente repulsa. "Não sou da mesma fé que você", responde, sisudo.
Ela retruca num tom leve, indiferente. "Ah, eu não levo essas coisas muito a sério, não. Eu quero mais é cantar."

"Agora você realmente conseguiu me fazer ficar triste, Joryleen", diz Ahmad. "Se você não leva a sua religião a sério, não devia ir lá." Ele fecha a porta do armário com força, movido por uma raiva dirigida mais contra si próprio, por ter rejeitado e censurado a garota quando, ao fazer um convite, ela estava mais vulnerável. O rosto vermelho de vergonha, Ahmad vira-se para Joryleen, para ver o mal que fez, e constata que ela está indo embora, exibindo com a maior tranqüilidade as aplicações metálicas nos fundilhos do jeans. O mundo é difícil, pensa ele, porque está cheio de demônios sempre a confundir as coisas e entortar o que é reto.(X)

sábado, 24 de janeiro de 2009

A fantasia espanhola de Woody Allen

Um telefonema de Penelope Cruz e ele foi convencido a ir até Barcelona realizar a sua fantasia de cineasta europeu

O único lugar onde Woody Allen realmente quer estar é na cama. "O meu lugar na cama é o meu lugar no mundo", explica. É onde vê jogos de baseball, onde lê, e onde escreve, normalmente da parte da manhã, porque se começar à noite por vezes fica tão excitado que não consegue dormir. É onde o acto de imaginar é, de facto, "agradável" e onde pode "ir escolher as pessoas" e ver as suas "personagens ganharem vida." "E ponho música e vejo as personagens encenarem as suas cenas ao som da bela música. Sabe, divirto-me com isso. E se mais ninguém faz isto, é uma pena."

Woody parece menos desafiador do que resignado. De todos os grandes artistas americanos, sofreu um dos mais violentos e cruéis reversos de fortuna, caindo da adulação pública para a reprovação generalizada. A sua solução para os caprichos do afecto do público é agarrar-se à crença de que isso não significa nada. "Quando somos miúdos pensamos para nós próprios: 'Fama e fortuna e vai ser tudo tão excitante e...'. Mas depois descobrimos rapidamente, depois de três ou quatro filmes: 'Espera aí, o lado positivo é nada e o negativo também é nada.' A adulação das massas ou dos críticos é uma experiência impessoal, e os sentimentos negativos [das] pessoas são uma experiência impessoal. O contrato que o público tem com a pessoa é: 'tu entretens-nos e nós aparecemos'. E é assim que o contrato deve ser.

" Da maneira como Allen fala, podemos pensar que estamos na véspera do lançamento de um dos seus projectos falhados, uma série de filmes triviais e ineficazes incluindo "Celebridade" e "A Vida e Tudo o Mais", que se seguiram ao escândalo público da sua separação de Mia Farrow, as horríveis acusações (negadas e nunca provadas) de abuso infantil e mais tarde o seu casamento (que já dura há 10 anos) com a filha adoptiva de Farrow, Soon-Yi Previn, então com 22 anos.

Na verdade, Woody fez um dos mais deliciosos e divertidos filmes em mais de uma década, "Vicky Cristina Barcelona", a história de duas jovens americanas (Scarlett Johansson e Rebecca Hall) que, durante umas férias de verão em Espanha, se envolvem numa relação com um atraente artista, que adora mulheres (Javier Bardem) mas também a sua confusa e deliciosa ex-mulher (Penélope Cruz).

O filme é uma representação dos acasos do amor com cada uma das mulheres que lutam por uma posição estável: a aventureira sexual que está sempre cronicamente insatisfeita (Johansson), a futura académica que não gosta de correr riscos e que corre o perigo de sufocar a paixão da vida (Hall) e o espírito intoxicante e anárquico (Cruz), que torna a arte grande e a vida num inferno.

Com o chapéu na mão

Num fim de semana recente, Allen esteve fechado num quarto de hotel, dando entrevistas - fardo raro para Allen, que costumava ser capaz de escapar a tais experiências de rotina. O cineasta, 72 anos, passou uma temporada em Los Angeles, ficando num hotel com a mulher e as suas duas filhas pequenas, enquanto fazia a sua estreia na ópera dirigindo a ópera cómica de Puccini "Gianni Schicchi."

Parece mais fraco do que se esperava, vestindo uma impecável camisa com quadrados azuis e umas calças de algodão. Tem o cabelo completamente grisalho, grossos óculos pretos e uma pele que, curiosamente, não tem rugas. Ficamos com a sensação de que ficaria mais feliz se toda a gente o deixasse sozinho para fazer o seu trabalho. O seu trato é delicado mas cauteloso.

Allen admite que ir até Barcelona, Espanha, para fazer um filme concretizou a sua fantasia de ser um dia um cineasta europeu. "Sempre quis fazer o tipo de filmes que vi nos anos 50. Os filmes de Truffaut e os filmes de Godard e os de Bergman e Fellini, e esses são os filmes que sempre influenciaram o meu trabalho. E sempre os copiei e fui influenciado por eles. 'Vicky Cristina Barcelona' parece-me, quando o vejo, como um desses filmes. Tem todas as características: a música, as pessoas a andarem de bicicleta pela Europa, a interacção das personagens e as cenas desfocadas que vemos nesses filmes."

O filme, cheio de belas imagens de edifícios de Gaudi e velhas igrejas, é um dos acidentes felizes que surgiram depois de ter deixado de ser popular na América. Allen realizou mais de 40 filmes e fez mais grandes obras do que quase qualquer realizador vivo - "Annie Hall", "Manhattan", "A Rosa Púrpura do Cairo", "Crimes e Escapadelas", "Hannah e as Suas Irmãs", "Maridos e Mulheres" - mas a América nem sempre tratou particularmente bem os seus iconoclastas. Allen não é como Orson Welles, reduzido a vender vinho Gallo, ou Charlie Chaplin, que fugiu para a Suíça, mas desde os anos 90 qued as suas receitas de bilheteira diminuíram e a qualidade dos seus filmes tornou-se mais irregular. O seu filme anterior, "O Sonho de Cassandra", fez menos de um milhão de dólares nos EUA, se bem que tenha arrecadado cerca de 20 milhões no resto do mundo. Ele tem de andar com o chapéu na mão à procura de financiadores, que são na maioria europeus.

Quase por necessidade, foi catapultado do seu cenário familiar de Nova Iorque para Londres e agora Barcelona. A mudança de cenário parece ter sido rejuvenescedora, resultando em "Match Point" e "O Sonho de Cassandra" - dramas satíricos acutilantes e niilistas, que investigam se o mal é alguma vez realmente punido.

Quando uma companhia espanhola, Mediapro, o contactou com a proposta de financiar um filme em Barcelona, o argumentista-realizador basicamente pensou: "Porque não?" "Barcelona é uma cidade onde posso viver muito facilmente", diz. "Se tivessem mencionado uma qualquer cidade na Ucrânia ou no Sudão ou algo assim, teria dito não. Mas Barcelona é uma cidade bela e maravilhosa."

Se bem que Nova Iorque seja uma personagem em muitos dos seus filmes, Allen nunca tinha escrito um filme para um local específico, mas a sua tarefa ficou mais fácil quando recebeu um telefonema inesperado de Penélope Cruz, que lhe perguntou se podia visitá-lo. "E quando a vi, pensei: 'Meu Deus, ela é - se acreditar nisto - mais bonita em pessoa do que é no ecrã.' Achei que ela era tão bela que quase fiquei sem fôlego." Cruz disse-lhe que adoraria entrar no seu filme de Barcelona e quando ela partiu Allen confessa que "ter-lhe-ia dado toda a mobília, sabe?" Teve conhecimento através dos seus contactos que Bardem também estava interessado. "Pensei: 'Está bem, tenho estes dois grandes e tempestuosos espanhóis e Barcelona, mas não tenho filme."

Nada como a sua personagem

Ao longo do ano, Allen escreve ideias para filmes em pedaços de papel e carteiras de fósforos e atira-as para dentro de uma grande gaveta. No caso de "Vicky Cristina Barcelona", usou uma ideia que teve em tempos acerca de duas raparigas que vão de férias até São Francisco. Transportou a história para Barcelona e juntou-lhe Scarlett Johansson, que se tornou figura recorrente nos seus filmes mais recentes, como um símbolo de juventude, de intoxicante indisponibilidade. Começou a moldar as personagens ao seu elenco e, quando filmava, nunca falou com os actores, a não ser para lhes dar indicações de cena.

Diz que não se importa se nunca mais voltar a representar num dos seus filmes. "Se não houver papéis para mim, então não interpretarei nenhum... E se houver uma personagem adorável chamada Gramps que seja sábia apesar da idade, então. ..." Torna-se claro, à medida que fala, que ele não é nada como a sua personalidade cinematográfica - não é nada um neurótico falador e assustadiço acometido de pânico existencial. Afirma que o seu alter-ego é apenas o seu número cómico, como o bigode e o chapéu de côco de Charlie Chaplin, e que a personagem nasceu do seu limitado talento de actor. "Não sou como Dustin Hoffman ou Robert De Niro. Esses tipos fazem milagres no ecrã. Sou um actor perfeitamente credível no meu pequeno âmbito. Assim posso interpretar um professor universitário, posso interpretar um psicanalista, podia interpretar um intelectual, apesar de não ser um intelectual, ou posso interpretar um tipo mais modesto.

Posso ser como Broadway Danny Rose ou podia interpretar um pequeno angariador de apostas ou um qualquer tipo de vigarista porque era capaz de fazer isso. O verdadeiro eu está mais perto do pequeno vígaro, mas posso interpretar os dois tipos de personagens."

Para um homem brilhante que compreende as muitas nuances do impulso humano, Woody é obstinadamente anti-psicológico (ou simplesmente cauteloso em público), decidido a dizer que nenhum dos seus filmes reflectem o que quer que seja da sua vida pessoal. "Sinto sempre como se estivesse sempre a fazer o mesmo processo. Eu não os faço de forma diferente. Eu não sinto nenhuma sensação de libertação na Europa. Eu não sinto que faça filmes felizes quando estou feliz e filmes tristes quando estou triste. Eu não sinto que faça filmes autobiográficos. Eu não era particularmente feliz, ou a passar um bom momento da minha vida, quando fiz 'O Inimigo Público' e 'Bananas'. Esses são dois dos meus filmes cómicos mais patetas. Por outro lado, quando fiz 'O Sonho de Cassandra' e 'Match Point' estava a atravessar um período maravilhoso da vida. Estes têm sido anos muito bons para mim. Eu tenho um excelente casamento, filhos óptimos. Não há um plano ou uma agenda ou algo parecido. É sorte. É o acaso."

O único impulso que reconhece ter é o de trabalhar, como um maníaco, como se estivesse a afastar a morte. "É uma forma de lidar com o mundo. Sabe, da mesma maneira que alguém lida com o mundo sendo um coleccionador de selos ou um viciado em desporto ou um gigante da indústria ou um alcoólico ou qualquer coisa. A minha forma de lidar com os horrores da existência é pôr-me a trabalhar duramente e não olhar para cima."

Muitas das pessoas que vão ver o seu novo filme deliciar-se-ão com a comédia e com a possibilidade de passarem 90 minutos banhadas de sol em Barcelona. Mas, ele nota, a sua fábula espanhola é de facto "um filme muito triste". Este é, afinal de contas, o universo de Woddy Allen, não interessa em que continente é que é passado, ou quantas gargalhadas são dadas. Ninguém consegue o que deseja.

"Uma relação é como dois grupos de fios que estão espalhados por toda a parte e todos têm de se ligar", diz. Ele usa os dedos para demonstrar, tocando suavemente uma mão com a outra. Elas são delicadas e surpreendentemente jovens, mas a sua atitude acerca do amor é fatalista. "Se um dos fios não se ligar, então não funciona. É como se faltasse uma coisa. Falta o sal na dieta. É uma pequena coisa, mas dá cabo de nós. Morremos."

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Saiba mais sobre a base naval americana de Guantánamo


Para entender um pouco melhor a relação complicada entre Washington e Havana, a província de Guantánamo, no leste da ilha cubana, representa um retrato do conflito. No local dividido entre dois inimigos ideológicos, separados por 145 quilômetros de mar e quase meio século de desconfianças. De um lado, está a cidade de Guantánamo, onde vivem 200 mil pessoas numa mistura de cultura cubana e colonial, carros americanos da década de 1950 e slogans revolucionários. Do outro, atrás de uma cadeia de montanhas, está a base americana de Guantánamo, casa de 10 mil soldados da Marinha, onde fica o único McDonald´s de Cuba e a mais controversa detenção do mundo, onde estão presos 248 suspeitos de terrorismo.

A base naval de Guantánamo é usada pelos EUA por mais de um século. A base tem 116 quilômetros quadrados e foi alugada por Cuba em 1903. Os EUA pagam cerca de US$ 4 mil por mês de aluguer, mas Cuba rejeita descontar os cheques. Visitar a fronteira com Cuba, guiada por um marine, é fazer um mergulho na Guerra Fria. Na fronteira, há uma cerca de três metros de altura, seguida de um campo minado de 2 quilômetros de extensão. É a única instalada num país que Washington não mantém relações diplomáticas.

Em 2002, Guantánamo transformou-se numa prisão militar para pessoas suspeitas de serem inimigos combatentes, capturados no Afeganistão e depois no Iraque. O governo americano afirma que os estrangeiros mantidos em Guantánamo, a maioria detida no Afeganistão, são combatentes suspeitos de ligações com a milícia fundamentalista islâmica Taleban ou com a rede extremista Al-Qaeda, liderada pelo milionário saudita no exílio Osama bin Laden. A prisão abriga alguns dos terroristas mais perigosos do mundo, envolvidos nos ataques de 11 de Setembro de 2001, mas também muita gente inocente que não teve direito a julgamento. Em seis anos, mais de 750 pessoas estiveram presas nos campos. Discretamente, o governo já liberou ou transferiu para outros países mais de 500 pessoas sem nenhuma acusação formal.

As iguanas são, de longe, os seres mais bem tratados da Baía de Guantánamo. Iguanas cubanas são protegidas pelas mesmas leis ambientais dos EUA - ou seja, quem atropelar uma iguana leva uma multa de US$ 10 mil. Como resultado, é comum uma fila de carros parados para esperar uma iguana cruzar a estrada.

Censo

O instituto de pesquisa Brookings, de Washington, mostrou pela primeira vez um balanço com números precisos e a identidade de todos os presos da Base Naval de Guantánamo. Os 'cerca de 250 presos' que o Pentágono, responsável por Guantánamo, diz manter sob custódia são, na verdade, exactos 248, precisa o estudo. O número é uma fração dos 779 homens muçulmanos que por lá passaram desde 2002, quando a prisão foi instalada. Nos últimos quatro anos, 330 presos teriam sido repatriados ou simplesmente libertados; a maioria deles, sauditas e afegãos.

Na mira de organização de defesa dos direitos humanos e da imprensa mundial, Guantánamo teve a sua população carcerária reduzida aos militantes mais ameaçadores aos olhos de Washington. Sobre a natureza das investigações do Pentágono, o estudo também revela outros dados. Cerca de um terço dos detidos teria lutado ao lado dos Taleban contra a Aliança do Norte, no Afeganistão, durante a invasão liderada pelos EUA, em 2001. A cifra dos que supostamente receberam treinamento militar em território afegão chegaria a quase 70%.

Ainda segundo a acusação americana, 88 dos 248 cativos estiveram em Tora Bora - região próxima do Paquistão que serviu de refúgio para Osama bin Laden - e 130 esconderam-se em abrigos da Al-Qaeda ou do Taleban. Um em cada dez dos actuais presos fez parte do aparato de segurança pessoal de Bin Laden e mais da metade foi filiada a Al-Qaeda. No entanto, sugere a pesquisa, somente 25% dos acusados foram detidos em circunstâncias consideradas de 'forte beligerância', como combates efectivos contra os EUA ou se renderam às forças americanas. Nos seus seis anos de funcionamento, passaram por Guantánamo presos originários dos cinco continentes - incluindo canadianos, alemães e australianos. Actualmente, há 17 chineses da etnia uigur detidos na base cubana.

Estrutura

O famigerado Campo Raio X - com suas imagens indeléveis de prisioneiros de macacão laranja, capuz e em gaiolas - é hoje um lugar fantasmagórico, cheio de mato. O Pentágono faz questão de levar jornalistas ao Raio X, para mostrar que ele é coisa do passado. Hoje, os detidos têm direito a celas com ar condicionado, três refeições por dia, um exemplar do Alcorão, chinelos de dedo. Se forem bem comportados, ganham até um rolo de papel higiênico extra e baralho.

No Campo 4, onde ficam os considerados menos perigosos, há aulas de pashtun, árabe e inglês. Os prisioneiros têm até um cantinho para praticar jardinagem. Na biblioteca do Campo 4, é possível ler O Diário de um Mago, de Paulo Coelho, em farsi. Nos Campos 5 e 6, de alta segurança, ficam os presos mais perigosos e aqueles com mau comportamento. Lá, eles ficam em isolamento 22 horas por dia - mas ainda em celas com ar condicionado, com direito a pasta e escova de dente e três refeições. Existe ainda o Campo 7, cuja existência só foi revelada há pouco tempo e a localização, mantida em sigilo. Lá ficam os chamados "detidos de alto valor".

De facto, Guantánamo parece hotel cinco-estrelas. É fácil esquecer que Guantánamo é uma prisão - ao passear pela baía, tudo o que se vê são praias paradisíacas do Caribe, com água transparente, onde muitos militares mergulham ou passeiam de barco. Iguanas e banana ratos, grandes roedores típicos de Cuba, correm entre os cáctus. O Pentágono admite que quatro detidos se suicidaram. Quando um prisioneiro faz greve de fome e rejeita nove refeições consecutivas, ele começa a ser alimentado por via intravenosa, à força. O número de prisioneiros em greve de fome já chegou a cem.

Tribunais militares

Pela Lei de Comissões Militares, de 2006, a comissão militar, ou tribunal militar, é composta por entre cinco e 12 oficiais das Forças Armadas americanas. No entanto, nos casos em que se procura a pena de morte, a comissão deve ter pelo menos 12. Um juiz militar preside as audiências. Para obter a condenação, é necessário o voto favorável de pelo menos dois terços dos membros da comissão. Segundo a BBC, para a pena de morte, que pode ser procurada nos casos em que as acções do réu resultaram em mortes, todos os 12 membros da comissão precisam concordar com a sentença. A decisão final de aplicar a pena de morte será tomada pelo presidente dos Estados Unidos.

Numa decisão de 12 de junho, a Suprema Corte dos Estados Unidos determinou que suspeitos estrangeiros presos em Guantánamo têm o direito de reclamar uma revisão judicial das suas detenções em tribunais civis. A corte aceitou os argumentos dos advogados de dois prisioneiros, Lakhdar Boumediene e Fawzi al-Odah, de que a Lei de Comissões Militares privava os réus do seu direito dentro do princípio de habeas corpus na lei americana.

Esse direito havia sido reconhecido numa decisão anterior da Suprema Corte, mas foi removido pela Lei de Comissões Militares. Os prisioneiros afirmaram que o habeas corpus deve ser estendido à prisão na Baía de Guantánamo, apesar de, tecnicamente, não estar em território soberano dos Estados Unidos. O governo americano, no entanto, argumentava que o habeas corpus não se aplicava aos presos na Baía de Guantánamo e que o sistema criado para esses detidos já oferece garantias adequadas.

Essas garantias são a de que os acusados terão presunção de inocência e que a prova de culpa deve ser "acima de qualquer dúvida". O réu não pode ser obrigado a testemunhar contra si próprio. Ele terá direito a um advogado militar e também pode ter um defensor civil. O acusado também tem o direito de estar presente no processo, a menos que tenha conduta considerada perturbadora da ordem, e de apresentar evidências e testemunhas em sua defesa e interrogar qualquer testemunha contra ele. Ele terá o direito de tomar conhecimento das evidências contra ele, mas essas serão mostradas de forma resumida caso o juiz decida que as fontes devem ser mantidas em segredo por razões de segurança. Caso seja condenado, um réu pode apelar a uma corte de revisão da Comissão Militar e então à Corte de Apelações dos Estados Unidos, que é civil. A partir daí, também é possível apelar à própria Suprema Corte dos Estados Unidos.

Há grandes diferenças entre as comissões e a lei comum americana. A decisão de condenar um réu precisa da aprovação de dois terços dos jurados, não da unanimidade, como ocorre num julgamento por um tribunal do júri americano. A própria comissão, ou seja, o júri, é formada por oficiais militares e não membros do público. Uma diferença chave é que qualquer tipo de evidência - incluindo testemunho indirecto (no qual uma testemunha que não presenciou o ocorrido diz o que ouviu de outra pessoa) e alguns obtidos por coerção - é permitida "se o juiz militar determinar que a evidência terá valor probatório". Evidências que contenham informações secretas serão resumidas para proteger as fontes, de modo que o acusado não tem uma visão completa do caso contra ele.

Evidências obtidas por meio de tortura não são permitidas, mas evidências obtidas por coerção podem ser utilizadas. Um problema é que a técnica de simulação de afogamento não é classificada como tortura pelo governo do presidente George W. Bush. Caso a evidência tenha sido obtida antes de 30 de dezembro de 2005 (ou seja, a data em que a Lei de Tratamento de Detidos entrou em vigor, tornando ilegal "tratamento cruel, desumano ou degradante"), o juiz militar pode permitir que seja usada caso "a totalidade das circunstâncias torne a declaração confiável" e "os interesses da Justiça sejam melhor servidos". Isso sugere que algumas evidências obtidas nas chamadas "prisões secretas" operadas pela CIA (a agência de inteligência americana) podem ser permitidas.

No caso de evidências obtidas depois de 30 de dezembro de 2005, o juiz também precisaria estar convencido de que nenhum "tratamento cruel, desumano ou degradante" foi usado. O principal alvo da Lei de Comissões Militares são suspeitos de terrorismo internacional ligados a organizações como a rede extremista Al-Qaeda. A lei diz que qualquer "combatente inimigo" está sujeito a ser julgado pelas comissões militares. Isso exclui cidadãos americanos, que estão sujeitos à lei doméstica dos Estados Unidos. No entanto, residentes nos Estados Unidos que não são cidadãos americanos estão sujeitos aos tribunais militares.

A Lei de Comissões Militares não permite que um réu invoque as Convenções de Genebra no seu julgamento. No entanto, a lei estabelece como as obrigações dos Estados Unidos pelas Convenções podem ser cumpridas. A lei tem de abordar esse aspecto porque a Suprema Corte diz que o artigo 3º se aplica à guerra contra a Al-Qaeda. Esse artigo afirma que prisioneiros têm de ser tratados com humanidade. A lei diz que o artigo 3º das Convenções de Genebra pode ser cumprido pelos Estados Unidos ao definir o que os interrogadores não podem fazer. Entre os crimes proibidos estão tortura, tratamento desumano ou cruel, experimentos biológicos, assassinato, mutilação, provocação de ferimentos graves, estupro, agressão sexual e tomada de reféns.

O primeiro julgamento

Em agosto de 2008, um júri composto por seis oficiais militares, membros de um tribunal militar, condenou o ex-motorista de Osama Bin Laden, Salim Hamdan, por fornecer apoio ao terrorismo. O veredicto contra Hamdan, um iemenita de 37 anos capturado no Afeganistão em novembro de 2001, foi o primeiro num julgamento por crimes de guerra na prisão de Guantánamo.

Os promotores acusavam Hamdan, de 40 anos, de ter ligação com a cúpula da Al-Qaeda e de ter sido flagrado a caminho de uma zona de combate com dois mísseis terra-ar dentro do seu carro, em novembro de 2001, no Afeganistão. Advogados disseram que Hamdan não era membro da Al-Qaeda e que só serviu como motorista e mecânico de Bin Laden porque precisava do salário de 200 dólares por mês. Ao juiz, o réu se declarou inocente.

Desde a inauguração da prisão, em janeiro de 2002, só um caso foi resolvido, o do australiano David Hicks, que evitou ser julgado depois de ter admitido que prestou apoio material ao terrorismo. Entre outros detidos de Guantánamo estão Khalid Sheikh Mohammed, Ali Abdul Aziz Ali, Ramzi Binalshibh, Mustafa Ahmed Al Hawsawi e Walid bin Attash, supostos mentores dos atentados de 11 de setembro de 2001.

Até as filhas de Obama

As filhas de Barack Obama, Presidente dos Estados Unidos da América, Sasha e Malia, ganharam as respectivas bonecas. O consumismo ....

Estação central dos CFM sétima mais bela do mundo

A estação central dos Caminhos de Ferro de Moçambique, na cidade de Maputo (capital do país), foi escolhida pela prestigiada revista norte-americana “Newsweek” como a sétima mais bela do mundo, num “ranking” que incluiu todas as infra-estruturas do género em todo o mundo, das mais “modestas” às mais famosas.

A pesquisa da “Newsweek” tomou em consideração o traçado arquitectónico e o seu nível de conservação, algo que, no caso da imponente obra, casa a história com o empenho da instituição que a tutela, a empresa Portos e Caminhos de Ferro de Moçambique, em conservá-la.

A estação ferroviária de Maputo é uma obra secular concebida pelo arquitecto francês Gustave Eiffel, célebre por ser o criador de várias obras no mundo e que têm como traço comum o uso do ferro na sua execução. O seu nome ficou eternizado – e projectado – pela famosa torre parisiense que leva o seu nome.

Em Moçambique, as obras de Gustave Eiffel não se ficam pela estação ferroviário que é também património da cidade de Maputo. Foi o francês que concebeu também a Casa de Ferro, implantada nas proximidades do jardim botânico Tunduru e em que funciona hoje uma direcção do Ministério da Cultura.

A estação central dos Caminhos de Ferro foi inaugurada em março de 1910, dois anos depois do início da sua construção. Contudo, a imponência com que se lhe conhece hoje só se verificaria a partir de 1916.

Hoje, para além de estação ferroviária por onde passam milhares de passageiros e mercadorias de e para Maputo (também para os vizinhos Zimbabwe e Africa do Sul), é também um local de cultura. Nela, vários eventos de carácter cultural e artístico têm sido promovidos, ao mesmo tempo que a empresa que a tutela (CFM) agenda implantar nela um museu ferroviário.

A mais bela estação ferroviária do mundo é, segundo a revista Newsweek”, a londrina de St. Pancras, seguida pela nova-iorquina Grand Central Terminal.

Stewart Sukuma no Festival de Jazz da cidade do Cabo

O compositor e intérprete moçambicano, Stewart Sukuma, vai actuar na próxima edição do Festival Internacional de Jazz da Cidade do Cabo, que anualmente se realiza no último fim de semana de março naquela cidade sul-africana.

Os organizadores do evento, a crer no jornal “Notícias” da capital moçambicana, terão visto em Stewart um músico de grandeza suficiente para tomar parte num evento daquela envergadura, onde também desfilam nomes destacados do jazz internacional – e de ritmos enquadráveis, como os explorados pelo músico moçambicano.

Os produtores do festival do Cabo apreciaram também a performance de Stewart Sukuma durante a primeira edição do Moçambique Jazz Festival, realizado no ano passado na cidade da Matola, arredores da capital moçambicana.

Em 2008, Stewart fez vários espectáculos, na maioria virados para a promoção do seu disco “Nkuvu”, editado em 2007.

Num nível mais particular, 2008 foi fabuloso para Stewart porque foi capaz de concentrar em si toda a popularidade que podia ser dedicada a um só músico. A sua cação “Fesliminha”, do disco “Nkuvu”, destacou-se como a mais preferida dos ouvintes da Rádio Moçambique, que a escolheram para o prêmio Canção Mais Popular do ano no Top Ngoma, a principal parada musical do país.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Economia e guerras ocupam agenda do 1º dia de Obama

O novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, começou por tratar da economia do país e das guerras do Iraque e do Afeganistão no seu primeiro dia como líder americano.

Segundo a BBC, Obama, que tomou posse como o quadragésimo quarto presidente americano na terça-feira, se reune-se nesta quarta-feira, 21, com os seus principais assessores econômicos e comandantes militares dos Estados Unidos.

Uma das primeiras medidas de Obama na terça-feira foi suspender todas as ordens pendentes que o governo Bush tentou aprovar nos últimos dias do mandato.
A orientação de Obama foi dada pouco depois de o novo presidente ter tomado posse, num memorando assinado pelo novo chefe de gabinete da Casa Branca, Rahm Emanuel.

O presidente ainda pediu a suspensão dos julgamentos em Guantánamo por cinco meses, congelando os processos iniciados no governo Bush. Segundo os seus assessores, o presidente planeia uma primeira semana ambiciosa, de agenda cheia, que inclui um encontro com assessores militares para mudanças na gestão da guerra no Iraque.

O encontro marcado para esta quarta contaria com a presença do general David Petraeus, chefe do Comando Central dos EUA, responsável pelas operações americanas no Oriente Médio, Ásia Central e Cordo de África. Funcionários do Pentágono disseram que o Departamento de Defesa deve apresentar no encontro um documento com as várias opções de retirada das tropas americanas no Iraque e os seus respectivos riscos, incluindo a opção de saída em 16 meses, promessa de campanha de Obama.


Em seguida, Obama deverá indicar um enviado especial para o Médio Oriente para lidar com a crise entre israelitass e palestinianos na Faixa de Gaza. Segundo a CNN, enquanto Obama participava na terça-feira na cerimônia de posse, cerca de 20 assessores já estavam na Casa Branca para preparar a reunião de hoje. Eles disseram também que Obama planeia realizar um discurso sobre a economia no dia 23 de fevereiro para dizer aos americanos que, apesar do plano de estímulo, a crise econômica ainda vai durar por muito tempo.


Equipe


Obama também estará empenhado, nos próximos dias, em concluir a formação da sua equipe de governo. Vários nomes têm que ser submetidos ao Senado, que tende a agir com rapidez para aprovar o gabinete indicado pelo presidente americano.


Nesta quarta-feira, também está prevista a aprovação do nome da senadora Hillary Clinton como secretária de Estado. A sua confirmação no cargo foi adiada após um senador republicano ter pedido um debate a respeito das doações feitas ao marido da senadora, o ex-presidente Bill Clinton, que poderiam constituir conflito de interesses.

Barack Obama falou da América para o mundo (*)

O discurso de tomada de posse de Barack Obama não foi uma peça de oratória brilhante, iluminada, como algum romantismo poderia desejar, mas cumpriu com o que, realisticamente, se devia esperar: palavras fortes, ideias claras, uma comunicação da nova era global dirigida da América para o mundo.

Em cerca de 20 minutos, o 44. º Presidente dos Estados Unidos bateu substantivamente em todas as áreas delicadas deste seu princípio de mandado, internas e externas.

Obama falou com a dimensão que as suas origens lhe permitem e com o modernismo que lhe está associado. Foi religiosamente pluralista, aludindo às várias crenças americanas (cristãos, muçulmanos, judeus e hindus); mostrou as preocupações ambientais e energéticas que dominam a actualidade (pedindo as apostas no uso da energia do sol, do mar e do vento); e, sobretudo, insistiu no diálogo com todos os países democráticos e pacíficos para se encontrarem soluções globais para problemas globais, entre eles os da segurança e os da fome.

Após as promessas de campanha, foi também notório que o novo Presidente quis desfazer algumas das ilusões que existiam em seu redor, porque está consciente da dura realidade que o espera perante a mais grave crise económico-financeira dos últimos 80 anos e sabe que os Estados Unidos já não são o único país que reboca o mundo.

Durante o discurso viu-se igualmente um líder que apostou em pequenos sinais para mostrar quem é e o que quer ser. O Presidente da era tecnológica, de PDA na mão, que vai construir o futuro a partir do seu passado, quando o pai não conseguia entrar em alguns restaurantes. Dessa preocupação com os sinais nasceu a escolha de uma cubana para estilista da mulher e a selecção dos dois momentos musicais da tarde, com Aretha Franklin, a voz da soul, símbolo da América negra, e uma orquestra mista com uma hispânica ao piano, um asiático no violoncelo, um negro no clarinete e um judeu no violino.

A essência do discurso mostrou um Obama realista, que não assume sozinho a responsabilidade de resolver todos os problemas actuais. Fazendo uma reinterpretação da frase mítica de John F. Kennedy - "não perguntem o que o vosso país pode fazer por vocês; perguntem o que podem fazer pelo vosso país" -, apelou à cidadania e à mobilização de todos como única forma de restabelecer a confiança na economia e no sistema financeiro, assumindo que é preciso a consciência de estarmos a viver uma nova era. O mundo mudou e é preciso que todos repensem o seu papel de cidadãos livres.

O novo Presidente americano pode, ainda, sentir-se orgulhoso da participação que conseguiu incutir aos seus compatriotas. Washington assistiu ontem ao terceiro maior movimento de massas expontâneo da história moderna com mais de um milhão de pessoas. De semelhante, antes, só a confraternização dos cidadãos das duas Alemanhas logo após a queda do muro de Berlim e a mobilização, apesar dos riscos, dos timorenses para o referendo.

O discurso, tudo somado, esteve à altura do momento histórico que estamos a viver. Teve esperança, mas não vendeu ilusões, que seriam tão desnecessárias quanto absurdas. E algumas das suas palavras, sobretudo as dedicadas à participação dos cidadãos no afrontar dos problemas, são válidas e oportunas em todos os cantos do mundo.
(*) Editorial do Diário de Notícias, 21/01/2009

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Obama chega a igreja em Washington

O presidente eleito dos EUA, Barack Obama, e sua esposa, Michelle, chegaram às 15h53 (8h53 horário local) para uma cerimônia religiosa na Igreja de Saint John's, próxima a Casa Branca. Obama chegou em um carro preto. Eles foram recebidos pelo reverendo Luis Leon. O democrata traja um fato preto com gravata vermelha, coberto por um sobretudo. Michelle está com um vestido dourado.

Este é o primeiro evento público do dia do futuro casal presidencial. Após a cerimônia religiosa, Obama e Michelle seguem para a Casa Branca, onde serão recebidos por George W. Bush e sua esposa, Laura.

Washington em festa mas vigilante

Para a sua tomada de posse em Washington Barack Obama convidou família, amigos, conselheiros, futuros membros da Administração e o povo americano. Depois sugeriu ao secretário da Defesa, Robert Gates, que passasse o dia fechado numa instalação militar longe da capital. O pedido não foi indelicadeza, mas um imperativo de segurança. Se acontecer alguma coisa ao Presidente, Gates terá de assumir o seu lugar.


Para os mais de dois milhões de pessoas que viajaram para Washington, assistir à tomada de posse de Obama é um sonho tornado realidade. Mas para as autoridades, encarregues de garantir a segurança, é um pesadelo.

No terreno estarão mais de 40 mil militares e polícias para assegurar que os piores receios - um atentado biológico - não se confirmam. A esses juntam-se 5265 câmaras de vigilância.

As operações de segurança prometem dificultar a mobilidade dos apoiantes que tentarão chegar perto do Presidente. As 240 mil pessoas com bilhete para assistir à cerimónia de tomada de posse na frente ocidental do Capitólio - em que Obama pedirá a ajuda de Deus para cumprir a sua missão com a mão sobre a mesma Bíblia que foi usada por Abraham Lincoln- serão revistadas à entrada. A lista de objectos a não levar é longa e inclui garrafas, guarda-chuvas e mochilas. As regras apli- cam-se também aos que quiserem assistir à parada na Pennsylvania Avenue em que o Presidente vai desfilar numa limusina blindada.

Mas a festa não se restringe a esses. No relvado do Mall mais de um milhão de pessoas vai acompanhar a cerimónia através de ecrãs gigantes. E por todo os EUA, milhões assistirão à cerimónia através das maratonas televisivas ou através do site YouTube.

O dia de Obama termina com numerosos bailes que prometem aquecer o ambiente gélido da capital federal noite dentro.

Equipa de Barack Obama sem tempo para paradas

Enquanto o primeiro presidente negro dos Estados Unidos estiver a prestar juramento sobre a Bíblia de Lincoln na escadaria do Capitólio, hoje às 18 horas, alguns membros da sua Administração já estarão a mudar-se para a Casa Branca. Amanhã, Obama começa o trabalho efectivo.

44.º Presidente vai ter uma primeira semana preenchida

Quando acordar amanhã, Barack Obama já terá deixado para trás os juramentos, discursos, paradas e bailes da sua tomada de posse. No seu primeiro dia de trabalho efectivo como presidente dos Estados Unidos, o primeiro negro a ocupar o cargo já tem a agenda preenchida. Reuniões com os conselheiros económicos são a prioridade num tempo de crise financeira como já não se via desde a Grande Depressão dos anos 1930.

Hoje, enquanto os Obama se estiverem a instalar na parte privada da Casa Branca, as carrinhas da Administração vão começar a levar os funcionários da nova Administração do Capitólio, onde estiveram instalados desde a eleição de Obama, a 4 de Novembro, para a residência oficial do presidente, onde vão continuar o seu trabalho, como explicou um membro da equipa ao site The Politico. Nada, portanto, de assistir à parada ao longo da Pennsylvania Avenue, onde a organização espera mais de dois milhões de pessoas para assistir a um dia histórico. É que depois de oito anos de presidência Bush, Obama vai herdar um mundo cheio de desafios.

Para amanhã, além da reunião com os conselheiros económicos, Obama tem previsto um encontro com as chefias militares para planear a retirada do Iraque nos próximos 16 meses, uma das suas promessas de campanha. Segundo confessaram três membros da equipa do novo presidente à CNN, este deverá ainda aproveitar a sua primeira semana no cargo para nomear um enviado ao Médio Oriente. Apesar do cessar-fogo entre Israel e o Hamas em Gaza, a situação na região continua a ser preocupante e será uma das prioridades do novo presidente. Numas primeiras cem horas intensas, Obama tem ainda prevista a emissão de decretos de lei relativos ao meio ambiente e à detenção de suspeitos de terrorismo.

Ontem, enquanto George W. Bush se desdobrava em telefonemas para os líderes mundiais no seu último dia na Casa Branca, Obama aproveitou o feriado que assinala o nascimento de Martin Luther King para reafirmar a promessa do sonho americano. Na véspera da tomada de posse, aquele que se vai tornar no primeiro presidente negro dos EUA emitiu um comunicado no qual recordava o líder dos direitos cívicos. Os sonhos que temos em separado devem unir-se num só", escreveu.

Quarenta anos depois do assassínio do reverendo Luther King, o feriado em sua homenagem costuma ser dedicado às obras de caridade. Seguindo a tradição, Obama não hesitou em arregaçar as mangas e pegar nos pincéis. Depois de visitar feridos de guerra no hospital militar Walter Reed, nos arredores de Washington, o presidente eleito ajudou a pintar de azul o muro de um centro de acolhimento para sem-abrigo e adolescentes problemáticos. No local, não faltaram jornalistas e curiosos a aproveitar esta oportunidade de ver de perto um presidente de calças de ganga e em mangas de camisa.

Os sonhos de Barack Obama para o país

Todos os anos, os Estados Unidos assinalam o dia 19 de Janeiro como o dia de Martin Luther King.
Mas nunca a cerimónia de homenagem ao homem que um dia sonhou que ninguém seria julgado pela cor da sua pele fez tanto sentido como hoje.

Na véspera de tomar posse, Barack Obama, o primeiro Presidente afro-americano do país, prometeu “renovar a promessa” do sonho americano.
Washington preparou-se para receber uma das maiores multidões da sua história – esperam-se mais de dois milhões de pessoas.
Mas antes disso, Obama quis prestar homenagem a Martin Luther King, participando em várias iniciativas destinadas a assinalar o dia que por tradição pertence ao activista dos direitos cívicos.

Foi assim que, por momentos, Obama vestiu a pele de pintor e decorador para, rodeado por um batalhão de jornalistas, tornar mais agradável um albergue para os chamados sem-abrigo e adolescentes. Também visitou feridos de guerra num hospital militar.
Já no domingo, Martin Luther King tinha estado implicitamente presente quando o próximo Presidente americano se dirigiu duzentas mil pessoas reunidas no National Mall: Obama escolheu o monumento à memória de Lincoln, o seu líder modelo, para falar sobre os desafios que enfrentam os Estados Unidos da América, o mesmo local onde Martin Luther King fez o seu célebre discurso “tenho um sonho”, em 1963, sobre a união racial.
Nas suas palavras de despedida, George W. Bush citou um outro Presidente, Thomas Jefferson, para dizer: “Gosto mais dos sonhos do futuro do que a história do passado”.

Já Obama foi buscar um sonho com mais de quarenta anos, que para alguns ficará em parte cumprido hoje, para falar dos projectos que tem para os Estados Unidos. “Os sonhos que sonhamos em separado formam apenas um”.
A tomada de posse de Obama, filho de pai queninano e mãe branca americana, é um marco na história racial dos Estados Unidos.

Mas o antigo senador de Illionois tentou afastar a questão durante a corrida à Casa Branca, para evitar um factor de divisão eleitoral, lembra o diário Washington Post, que na semana passada o entrevistou.
O diário refere que agora, pelo contrário, Barack Obama gosta de referir que a sua identidade mestiça pode ser um factor de união e transformação do país: “Há uma geração inteira que vai crescer a ter como garantido que o cargo mais alto no mundo é de um afro-americano”, disse Obama, para depois acrescentar que agora está a mudar a forma como as crianças negras olham para si próprias e como as brancas olham para as negras.

Há outras coisas que parecem estar já a mudar também.

Uma sondagem do Washington Post revela que há menos americanos a encarar o racismo como “um grande problema” da sociedade norte-americana.
Mas, o filho de Martin Luther King, que partilha o nome do pai, escreve também no Washington Post que a eleição de Obama não pode ser uma panaceia para as relações raciais do país, chamando a atenção de que a eleição de Barack Obama não torna totalmente realizado o sonho do seu pai. Há ainda um longo caminho a percorrer, escreveu Martin Luther King Jr.

domingo, 18 de janeiro de 2009

É o começo ou o fim?

Com uma crise que ameaça a hegemonia americana no mundo, Obama toma posse com um desafio enorme: ou apruma os EUA para se manter como potência dominante no século 21 ou administra o declínio de uma supremacia que moldou o mundo tal como o conhecemos hoje.

Comboio de Obama chega a Washington para a festa da posse



Barack Obama chegou a Washington ao fim de uma viagem de comboio que reproduziu a rota histórica de Abraham Lincoln e colocou o presidente eleito mais perto da posse. Multidões enfrentaram as temperaturas frígidas do inverno da Nova Inglaterra para saudar Obama ao longo da rota de 220 km entre Filadélfia e a capital.
Ele vai prestar o juramento de posse dentro de três dias, sucedendo ao presidente George W. Bush.
No início da viagem, Obama prometeu dar ao país "uma nova Declaração de Independência", livre de pensamentos mesquinhos, preconceitos e extremismo.
A viagem incluiu uma escala em Delaware para pegar o vice-presidente eleito Joe Biden e outra escala em Baltimore para um discurso no qual ele pediu que "procuremos juntos uma vida melhor na nossa época".
Obama invocou o legado de gigantes da história americana, apelando "não para os nossos instintos fáceis, mas para nossos melhores anjos", um eco do discurso de posse de Lincoln. Ele destacou os enormes desafios à frente e prometeu agir com "urgência feroz", uma frase frequentemente usada por Martin Luther King.
No caminho Obama prestou homenagem a Biden, que durante anos fez a viagem de comboio de Delaware a Washington, onde era membro do Congresso. Ele disse à multidão que acertar as coisas para o país é a razão que o levou a pedir a Biden que "tomasse mais um comboio, para Washington".
Na escala de Wilmington, Obama misturou-se à multidão e saudou o povo. Ele usou a oportunidade para repetir o refrão dos últimos dias: o país não deve desanimar por causa da má situação econômica.
No meio da tarde, o comboio de Obama fez uma segunda "lenta passagem" por Edgewood para entrar na zona rural de Maryland, ao norte de Baltimore. Ele foi saudado por uma multidão de cerca de mil pessoas.
Em pé no último vagão do comboio, decorado com bandeiras e um selo presidencial, Obama acenava com entusiasmo ao passar. Ele e a sua mulher, Michelle, e as filhas Malia e Sasha tiveram uma partida animada ao partir com o comboio da estação da Rua 30, em Filadélfia.

Filha de Uderzo contesta continuidade de Astérix



Enquanto Albert Uderzo prepara um novo álbum de Astérix, a sair em Outubro, para assinalar os 50 anos da personagem que criou com René Goscinny em 1959, a sua filha Sylvie publicou esta semana no diário uma carta aberta onde acusa o pai de ter cedido às intenções do grupo Hachette, para que as aventuras do pequeno gaulês continuem a sair após a morte daquele.

A Hachette Livre tomou em Dezembro passado uma posição maioritária nas Éditions Albert René, fundadas por Goscinny e Uderzo em 1979, ao comprar os 40% de Uderzo, actualmente com 81 anos, e os 20 por cento de Anne Goscinny, filha do argumentista da série.

Segundo escreve Sylvie Uderzo, ex-directora-geral das Éditions Albert René, da qual foi afastada e de que continua a possuir 40 por cento,,"a intenção de Albert Uderzo foi sempre de fazer como Hergé: depois dele partir, não deveria haver mais álbuns de Astérix assinados por outros autores".

Trata-se assim de "uma viragem de 180 graus, fruto "de um punhado de conselheiros na sombra, que rondam os artistas para aproveitarem a oportunidade de se 'servirem' antes que seja tarde demais". E ataca "a manipulação destinada a mudar o curso natural da vida e da sobrevivência de uma obra de arte", dizendo que o pai, "aos 81 anos, decidiu fazer tudo o que sempre me tinha ensinado a não fazer!".

Preocupada que "a tribo de irredutíveis gauleses que resistia sempre ao invasor esteja a ser definitivamente vencida pelas tropas de Júlio César", Sylvie Uderzo diz-se determinada em bater-se "para preservar tudo o que (o seu pai) fez, tudo o que o animou: a sua obra imaginada a quatro mãos com René Goscinny!". E frisa não se tratar de "um conflito familiar", mas sim de uma luta "contra os piores inimigos de Astérix: os homens da indústria e da finança. Aqueles que levaram o meu pai a renegar todos os valores com os quais ele me educou: a independência, a fraternidade, o convívio e a resistência".

Esta carta aberta tem tido muito eco no meio da banda desenhada franco-belga, nomeadamente nos sites especializados.