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Cascatas da Namaacha: sete anos depois da seca

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Um bom pacote de jazz, rock, soul e MPB

Na hora de dar música de presente, principalmente se for para um apreciador exigente e adulto, o mais certeiro é apostar nos estilos e artistas clássicos. Até porque o ano que se encerra não ficou marcado por muitos lançamentos daqueles que todo mundo deseja. De olho no consumidor que ainda cultiva o hábito de comprar CDs, as multinacionais tiraram alguns ases da manga neste fim de ano. São caixas, compilações e colecções de títulos originais com atrativos extras. A seguir, algumas sugestões de jazz, rock, soul e MPB.

O INÍCIO DO U2

Há várias raridades nas edições duplas dos três primeiros álbuns da banda irlandesa U2. Boy (1980), October (1981) e War (1983) são da gravadora Universal. Além do álbuns originais remasterizados e dos encartes recheados de fotos raras, o atrativo é o CD bônus que acompanha cada um deles, com takes alternativos, lados B e registros ao vivo e/ou nunca lançados.
Boy tem faixas inéditas como Speed of Life e Saturday Night e um mix diferente de I Will Follow e faixas ao vivo. A banda ainda era meio crua, mas já mostrava todo o potencial em canções como 11 O?Clock Tick Tock e The Electric Co. O álbum seguinte, October, não foi muito bem-sucedido, mas tem algumas boas canções como a faixa-título, Fire e Gloria, esta com uma gravação ainda melhor, ao vivo, no CD bônus. Já War representa a primeira grande virada na carreira da banda, emplacando hits como Sunday Bloody Sunday e New Years? Day. O CD bônus tem versões alternativas desta última e de Two Hearts Beat as One, além da inédita Angels Too Tied to the Ground.

40 ANOS DE CREEDENCE
Outro quarteto de peso, que fez história no rock antes do U2, é o americano Creedence Clearwater Revival. Aproveitando os 40 anos de criação da banda, a gravadora Universal relançou seis de seus álbuns de sua formação original com áudio remasterizado, faixas bônus e novo material gráfico, mas mantendo as artes originais das capas.Na virada dos anos 1960 para os 70, o Creedence era uma fábrica de hits avassaladores. O mais espantoso é que cinco destes seis títulos foram lançados apenas em dois anos - 1969 (Bayou Country, Green River e Willie & The Poor Boys) e 1970 (Cosmo’s Factory e Pendulum). O primeiro, que levava apenas o nome da banda, saiu em 1968, emplacando duas clássicas releituras de Susie Q e I Put a Spell on You.
Combinando elementos do country, do rock, do blues e da soul music, o quarteto chegou ao auge com Cosmo’s Factory. O penúltimo álbum da formação original (com Tom Fogerty), tem clássicos como Looking Out my Back Door, Travelin’ Band, Who’ll Stop the Rain e I Heard it Through the Gravepine.

MICHAEL/JACKSON 5
No mesmo período do Creedence, a soul music revelava aquele que se autoproclamaria o rei do pop. Ainda criança, Michael Jackson dava os primeiros passos, soltando a poderosa voz ao lado dos irmãos no Jackson 5. A sensacional compilação tripla The Motown Years reúne os seus antigos clássicos como ABC e Never Can Say Goodbye (no CD 1), revelando já o seu poder de influência, até em faixas menos populares como Forever Came Today, The Life of the Party e Doctor my Eyes.O CD 2 abre com a pedrada I Want You Back e traz na esteira outras maravilhas, como Sugar Daddy, Little Bitty Pretty One e Going Back to Indiana, além de mais pérolas obscuras. O lado mais romântico de Michael, destacando-se mais em solos, é ressaltado no terceiro CD, em faixas como as pegajosas Ben, One Day in Your Life, Music and Me e Got to Be There, que tocaram à exaustão na época do lançamento. Há ainda releituras de You’ve Got a Friend (James Taylor), My Girl (Smokey Robinson) e Ain’t no Sunshine (Bill Whiters).

PACOTÃO DE JAZZ
Para os apreciadores (ou iniciantes) do jazz nas suas diversas fases e variantes, há muito o que explorar no pacotão de bons títulos de discoteca básica da série Jazz Collection, que contempla os grandes criadores do gênero, dentro do catálogo da Sony/BMG. Os destaques são os nove boxes, cada um com cinco CDs, dedicados a Miles Davis, Thelonious Monk, Duke Ellington, Sonny Rollins, George Benson, John McLaughlin, Stanley Clarke e os grupos Weather Report e Mahavishnu Orchestra.
Alguns destes artistas também têm outros títulos relançados entre os 61 avulsos da colecção. Além de gigantes americanos como Billie Holiday, Herbie Hancock, Count Basie e Bill Evans, há os brasileiros Eumir Deodato (Prelude), Milton Nascimento (com Wayne Shorter em Native Dancer) e João Gilberto e Miúcha (convidados de Stan Getz em The Best of Two Worlds).

O CAMALEÃO NEY
Alguns dos álbuns mais importantes de Ney Matogrosso, como Água, Céu,Pássaro (1975), Bandido (1976) e Pecado (1977) nunca tinham saído em CD. Agora eles estão reunidos, ao lado de outros 14 títulos na luxuosa caixa Camaleão, edição conjunta das gravadoras Universal, Warner e Sony/BMG.Além de jogar luz numa das fases mais produtivas e ousadas do cantor (a dos anos 1970), a caixa também reprocessa o período de maior popularidade (os famigerados anos 80), não tão bom. Há ainda três álbuns ao vivo e a compilação Pérolas Raras, reunindo gravações avulsas e pouco conhecidas. O projecto é do pesquisador Rodrigo Faour, que entrevistou o cantor para escrever os encartes, cheios de curiosidades sobre as músicas. Um presentaço para os fãs.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

"A Índia secular permite aos muçulmanos terem a sua lei"

Isabel Gorjão Santos, em Estrasburgo
In: Público, 22/12/08

Taslima Nasreen é uma mulher indignada com o fundamentalismo islâmico, com as violações dos direitos das mulheres muçulmanas, com o facto de alguns governos não enfrentarem essas questões para não perderem o voto das comunidades muçulmanas. Em 1994 o Parlamento Europeu atribuiu-lhe o Prémio Sakharov pela liberdade de pensamento e, esta semana, a escritora de família muçulmana esteve em Estrasburgo para a cerimónia dos 20 anos desta distinção, onde o PÚBLICO a entrevistou.
PÚBLICO - Tinha 13 anos quando publicou os primeiros poemas numa revista literária...
Taslima Nasreen - Um deles chama-se Free Bird (Pássaro Livre). Num país muçulmano, quando uma rapariga é adolescente não pode ir a lado nenhum. Tem de ficar em casa. Sempre senti que estava numa gaiola e queria sair, para ver outras coisas, mas não era possível. O poema era sobre querer ser livre.
Foi então que começou a pensar na defesa dos direitos humanos, e dos direitos das mulheres?
Nessa altura comecei a escrever poemas sobre as raparigas e as mulheres que sofriam. Mais tarde comecei a escrever artigos nos jornais sobre a opressão a que as mulheres são submetidas. No meu país, a cultura e os costumes funcionavam contra as mulheres.
Sente que, desde então, alguma coisa mudou?
A situação é pior agora, porque o fundamentalismo islâmico está a aumentar em todo o mundo, e também no meu país. Há mais mulheres a usar o véu, mais mulheres oprimidas, apedrejadas até à morte, vítimas de tráfico, violadas.
Que leitura faz dos ataques no mês passado, em Bombaim?
A Índia é um país alvo de terrorismo porque o fundamentalismo tem aumentado, e o Governo está a par dessa situação mas não tem tomado qualquer atitude. Se deixam criar milhares de madrassas (escolas corânicas), que são fábricas do fundamentalismo... Dêem às crianças uma educação secular. A Índia é um país secular, mas permite aos muçulmanos terem a sua própria lei. Isso só agrada aos fundamentalismos islâmicos na Índia, que até são considerados representantes da comunidade muçulmana naquele país. [Os governantes] querem garantir os votos das massas ignorantes, querem manter-se no poder, não pensam no progresso ou no desenvolvimento.
Viveu na Índia por não poder estar no seu país?
Vivi na Índia quatro anos mas fui expulsa porque os fundamentalistas islâmicos protestaram contra a minha presença. Foi um pesadelo porque inicialmente pensei que o Governo ficasse do meu lado e me apoiasse, mas não fez nada. Isso foi muito difícil. As portas do Bangladesh estavam fechadas e não podia voltar. Os dois países mandaram-me embora e agora estou na Europa.
Onde vive agora?
Em lado nenhum. É como se vivesse dentro da mala, porque as minhas coisas estão em Calcutá. Mas tenho de me instalar algures no Ocidente, não tenho alternativa.
Estudou Medicina, mas decidiu usar a escrita para lutar pelos direitos das mulheres. Porque deixou a medicina?
Eu escrevia e trabalhava num hospital público [o Medical College Hospital em Daca, no Bangladesh], mas o Governo forçou-me a deixar o emprego porque me pediu que deixasse de escrever. Se para ser médica tinha de deixar de escrever, então deixei o emprego como forma de protesto. Poderia ser muito feliz como médica, mas apenas se continuasse a escrever.
No ano passado esteve vários meses em Nova Deli, fechada numa casa. O que aconteceu nessa altura?
Foi o Governo indiano que me pôs nessa casa, e pediam-me todos os dias para deixar o país. Não tive a visita de um médico quando estive doente, como se tivessem criado uma espécie de câmara da morte para mim. Deram-me medicamentos errados quando estive doente, fizeram tudo o que não se imagina que um Governo democrático possa fazer. Houve ministros a pedirem-me: "Deixe o país".
E porque acha que fizeram isso? As manifestações contra a sua presença estavam a tornar-se incontroláveis?
Precisavam de agradar à comunidade muçulmana, por causa dos votos. E eu criticava-os. Todos os partidos políticos na Índia têm essa política de agradar à comunidade muçulmana.
As discriminações contra as mulheres, que descreve, são as que conheceu na Índia e no Bangladesh?
São as mesmas em todo o mundo muçulmano, e a Índia nem sequer é um país muçulmano. É basicamente a mesma situação. Os governos não devem permitir fundamentalismos no país que governam. Eu fui atacada por fundamentalistas, e a verdade é que nunca foram punidos.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Felizminha, Como Eu Te Gramo Muito

Provavelmente a raça dos “janotas” e “Dom Juan” que fazem passear a sua classe nos meios sociais da nossa praça, sobretudo os frequentados pelas mais badaladas e sofisticadas raparigas, chamar-me-ão “simplório” ou, pior, “paspalho”. Aceito os dois adjectivos, mas preferia que me classificassem de “ridículo”.
Explico-me.“Feslizminha, eu te gramo muito”, não sendo na nossa gíria uma afirmação amorosa por aí além, é, quanto a mim, a mais bonita e sublime declaração de amor que se pode fazer a uma moça. E eu, ainda moço, bem magricela e desengoçado, a sussurei bastas vezes aos ouvidos de beldades em esquinas nos bairros da Mafalala e Xipamanine, primeiro em Lourenço Marques (Maputo) e mais tarde em Cumilamba e Cariacó, em Porto Amélia, hoje Pemba. Elas, soltando timidamente risadinhas, “gramavam” a valer da declaração. E não é que “caíam” mesmo minha teia...
Ora, não é que hoje um dos nossos mais representativos compositores musicais, Stewart Sukuma, foi rebuscar aquela frase tão simples, tão terna, para muitos “ridícula”, para a cantar numa das suas mais bem apanhadas composições inseridas no que eu considero um dos melhores trabalhos musicais dos últimos tempos – “Khuvu”.
Stewart, pois, celebra o amor, a paixão, com uma simplicidade tal só possível de se encaixar numa obra musical do quilate de “Khuvu”.
Comprei o CD. 405,00 meticais foi o valor, muito para os meus parcos provimentos. Vale o sacrifício. Antes, confesso, e tanto quanto me lembro, de CD´s de música moçambicana, comprei o “Kewa Zambêzia” para me deliciar com a simplicidade musical do Mussa Rodrigues e alguns outros “nós somos cantores moçambicanos”. De outros CD´s dos ditos cantores “Made in Mozambique”, nem se quer me dou o trabalho de os consultar.
Quando entro numa discoteca à cata de música, normalmente o meu polegar só funciona na vasculha de música “MÚSICA” e mesmo assim longe dos “especialistas” em retirar dos computadores sons apenas perceptíveis aos ouvidos de gente que não tem referências culturais verdadeiramente nossas.Nisso, sou ainda muito mais complicado.
Por exemplo: Não compro os CD´s de Fany Pfumo, Alexandre Langa, Lisboa Matavela e tantos outros “velha Guarda” simplesmente porque o melhor deles está apenas nos discos Vinil, que hoje não os há. Nos 45, 33 e 77 rotações. As obras destes “Monstros” da nossa música editadas digitalmente, deixam muito a desejar, não tanto em termos de qualidade técnica das gravações, mas simplesmente porque não as interpretaram com aquela “alma” a que nos habituaram. Despacharam para vender.
Alguns exemplos:“A Vasat Va Lomu” e “Moda “Xicavalu” do Fany tocadas e entoadas pelo próprio nas décadas 60/70, não têm o mesmo “feeling” nas suas versões digitalizadas de hoje. O mesmo se aplica a “Smith Wa Phepuka”, “Candongueiro” ou “A ma Metical”, de Alexandre Langa.
E quando digo cantar com “alma”, posso me referir a uma obra musical que considero excepcional no nosso cancioneiro popular: “Sapateiro” cantada pelo Daniel Langa (irmão do Alexandre) é, meus senhores, algo que “põe no sapato” a versão interpretada por Wazimbo no CD da Orquestra “Marrabenta Star Moçambique”, acompanhado nos coros pelas vozes da Mingas e da Dulce. É que o Daniel está lá “dentro” do que canta, de tal sorte que diz, a dada altura, que quem lhe “roubou” a mulher foi o sapatero e não o sapateiro; que a “mulher” fugiu-lhe num autocarro do Olivera e não Oliveira. Nada aqui há de maneiras de cantar e entoar abrasileiradas como hoje tanto se ouve nos CD´s nacionais.
Mérito aqui vai para as versões dos nossos “monstros” interpretadas quer por Wazimbo e pela Mingas quer por alguns outros – “Hodi” de João Cabaço, Arão Litsuri e Hortêncio do “Alambique” na RDA é uma relíquia – que foram modernamente bem apanhadas e que sabe bem ouvir e dançar em festas “à nossa maneira”.
Voltando ao “Khuvu” do Stewart Sukuma: confesso que o comprei este ano, há menos de um mês portanto, não porque já o tivesse escutado e apreciado na sua totalidade, mas pelo facto de a afirmação “Felizminha, eu te gramo muito” me ter chamado a atenção, assim como a forma magistral como ele (Stewart) e os seus acompanhantes souberam aliar a “boniteza” dos instrumentos convencionais aos recursos tecnológicos à sua disposição. O CD, todo ele, não foi feito com “preguiça”. Ali houve empenho e “alma”.
Na canção “Felizminha,....”, Stewart terá certamente viajado para os tempos da sua meninice, quando escrevia e mandava cartas de amor “simples” e “rídiculas”, o que me fez recordar Fernando Pessoa quando proclama que “Só é ridículo quem nunca escreveu cartas de amor ridículas”.
Aceito ser “ridículo” em questões de coroção, mesmo na idade em que escrevo este comentário. E aconselho a todos que sejamos “ridiculos” nesta matéria e para toda a vida, porque, como canta Maria Bethânia, “a vida, é bonita, é bonita e é bonita”.
Os outros, que não Stewart Sukuma, Wazimbo, Mingas, Hortêncio, Litsure, Matucoco, Mussa Rodrigues, Lázaro Vinho, esses, que continuem “palhaços” e continuem a ganhar os míseros meticais até onde der. A vida é curta, amanhã não passarão do que hoje são as suas músicas: Mer....


* Publicado no Suplemento Cultural do Jornal "Notícias", de Maputo, 20.02.08

Felisminha, Como Te Curto Muito

Ou como o “Kumbú” também verga mesmo aqueles que tentam primar pela qualidade
Ao “Brada” Fernando Manuel, esse incurável noctívago

Um dia após a publicação do artigo da minha autoria “Felizminha, eu te gramo muito” no Cultural do jornal “Notícias” (20.02.08), sou surpreendido, para não dizer defraudado, com as imagens do vídeo-clip da bonita música de Stewart Sukuma, inserida no albúm “Khuvu”.
Tal vídeo-clip – de excelente qualidade técnica, reconheça-se – terá passado pela primeira vez no programa musical “Music Box” realizado por Celso Domingos do canal STV, numa altura em que dois integrantes da obra “Khuvu” (Stewart e Hortêncio Langa) falavam de tudo e mais alguma coisa sobre o estágio actual da música moçambicana.
No essencial estou de acordo com as opiniões por eles manifestadas, sobretudo no que à banalização da nossa música diz respeito, tudo indicando que por imperativos do lucro fácil e ausência de referências culturais dos que procuram ou pretendem ser seus fazedores.
Já no que diz respeito ao vídeo-clip – concepção de cenários, escolha de figurantes e enquadramento no todo da letra e instrumental da “Felizminha ...,” – parece-me que a obra (visual e não sonora) defrauda porque deita por terra a imagem que Stewart quiz dar (e bem) à mulher “Felizminha” que nós outros fazemos dela.
Explico-me:Na sua versão virtual não vislumbrei ninguem que se parecesse com uma única “Felizminha” da minha terra – bela, sensual e até, porque não, pura como um diamante por lapidar. O que vi foram umas tantas raparigas muito ao género a que me refiro no artigo sobre o CD “Khuvu”: Cindinhas, Ginocas, Fifis, Mimis, Lulus, muito ao jeito das badaladas e sofisticadas a que não se “Grama” mas “Curte-se” e deita-se fora.
Mais ainda: a “Felizminha” da música, porque conheço muitas e certamente o próprio Stewart deve as imaginar, não é de seu jeito andar trajada de vestuário das mais famosas Grifis (Levis, Boss, Gringo, Calvin Klein, ) mas sim de saias plissadas com os obrigatórios vincos, para não dizer capulana e lenços com motivos bem nossos, sandálias ou chinelas; não usa perfumes de marca como Paco, Organza, Givenchy e sim pó talco “Johnson” barato; e besunta-se com brilhantina e não com pomadas anti-raios ultravioleta e, finalmente, não usa mecha ou faz tiçagem ao cabelo.
A “Felizminha” da música, ao contrário da do Vídeo-Clip, não conhece a grande cidade e muito menos as suas pecaminosas maneiras de estar e ser; e muito menos faz-se transportar em carros de luxo. A orignal, essa sim, tem o seu mundo circunscrito aos bairros com casas de madeira e zinco, caniço e terra batida (maticadas), e não Flats, Apartamentos ou condomínios. Até o candeeiro a que se refere Stewart ela não tem porque caro. O Xiphefo, isso sim, de tal sorte que a luz esfumarada torna os seus olhos mais brilhantes que o diamante mais bruto. Agora, postes de iluminação pública, não fazem parte dos carreiros ou caminhos estreitos das aldeias ou bairros onde ela vive, onde a lua é rainha e torna-se cúmplice das escapadelas nocturnas para os encontros breves mas fogosos com o namorado.
Stewart: o janota que pretendes ser na “Felizminha, eu te gramo muito”, não faz a barba ou apara o cabelo nos cabelereiros de hotéis ou salões chics de Maputo. Para essas obrigações estéticas, ele tem o profissional que em dias e meses determinados circula pelo bairro ou aldeia para “trabalhar” o cliente certo, munido da sua maleta de papelão desbotado, com máquinas manuais de aço inoxidável e láminas Gillete para o desbaste dos pelos a mais – tudo isto embrulhado em pano impecavelmente limpo e fresco: o cliente não tem dinheiro para pagar o serviço? Não há problema, fica para a próxima cruzada.
O janota da “Felizminha” tem o visual de um Mafarrico (no sentido hedonista do termo), com corte de cabelo “English Cut”, calças justas acinturadas no limite mais ou menos permitido, pente fino à vista no bolso traseiro, sapatos “Beatles” bicudos e, como toque final, um maço de cigarros “LM” com o reluzente Ronson da Picada bem à mostra na palma da mão: andar finório portando um palito entre os lábios e assobio de noctívago assumido mas não tão amarelo como o que ouvimos na actual geração virtualizada.
Finalmente, tenho cá para mim que os janotas das “Felizminhas”, quando muito, faziam-se transportar – quais malabaristas de circo – em Zundaps, V5, Florets bem polidas, aos fins de semana, com tubos de escape de som bem conhecido nos bairros e aldeias. Nada de Katanas ou Hondas, para não de dizer de Carrochas pintadas digitalmente pelo computer.
Ora, chegados aqui, o que levou então Stewart Sukuma e a sua produtora a desfigurar a sua e nossa “Felizminha”? Das duas uma:- Pressa em ter cá fora um produto de saída fácil e rápida, logo de fácil consumo para chorudos ganhos. O que não se pode aceitar num intérprete do seu calibre.- A produtora e os seus integrantes não conhecem a “Felizminha” e, ao que tudo indica, o seu horizonte começa e acaba no bairro mais chik da grande Maputo.
“O Hortêncio Langa inspira-me”, diz o autor de Felizminha. Como? Onde é que o Hortêncio estava para não ter tido a oportunidade de opinar sobre o “crime” contra a pessoa de “Felizminha”?Stewart: Assim não é assim. Curtiste os teus fãns. Eu não Gramei nada mesmo.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Wazimbo: 60 anos ao serviço da música moçambicana

No passado dia 11 de novembro, Wazimbo, nome artístico de Humberto Carlos Benfica, completou 60 anos. Quarenta ao serviço da cultura moçambicana, particularmente da música.

O Waz – assim o chamam os seus amigos – nasceu no emblemático bairro da Mafalala. Aos oito anos ruma para o distrito de Chigubo, no então distrito de Gaza, onde inicia os primeiros passos para a sua actual carreira ao lado de nomes sonantes da música moçambicana, entre eles Hortêncio Langa, José Mucavele e Miguel Matsinhe.

Ainda década de 50, juntamente com HLanga (irmão de Pedro Langa), JMucavele e MMatsinhe, decidem formar “Os Rebeldes do Ritmo”, disignação abandonada pouco tempo depois com a adopção de “Silver Stars” e, já na entrada da década de 60, optam por um outro nome: “Geysers”.

Já com o guitarrista Pedro Nhantumbo, os “Geysers” conquistam o quarto lugar na única olimpíada musical realizada na então capital da colónia de Moçambique, Lourenço Marques, evento realizado no Cinema Nacional, hoje transformado em centro cultural universitário.

Dá-se então uma virada importante na carreira do Wazimbo: os seus companheiros são chamados para a “tropa”. Desfaz-se o grupo; o hoje sexagenário aceita, em 1972, um convite para se exibir em terras angolanas, aventura que durou dois anos.

Com outras vivências e experiências e amizades, Wazimbo regressa ao seu país em 1974, trabalha com artistas integrados na Associação Africana, iniciando assim uma meteórica ascensão no panorama musical de Moçambique já independente.

Em finais da década de 70 Humberto Carlos Benfica responde positavamente ao convite da Rádio Moçambique para integrar a banda desta estação emissora, o Grupo RM, a que se juntam outros “velhos” companheiros: Sox (guitarra), Zeca Tcheco (bateria), Milagre Langa (guitarra), José Mucavele (guitarra), Pedro Ben (vocais), entre outros. Foi uma verdadeira “Big Band” que, quanto a mim, imprimiu novos caminhos para a música ligeira moçambicana e ajudou a divulgar o nome de Moçambique nos palcos internacionais.

O Grupo RM desintegra-se ainda na primeira metade da década de oitenta, e muitos dos seus integrantes, entre eles Wazimbo, juntam-se a uma outra “Big Band”, a Marrabenta Star, integrada com duas vozes femininas de ouro: Mingas e Dulce.

A “Marrabenta Star” produz a famosa obra “Independence Marrabenta”, onde a marca “Waz” é reconhecida por bonitas interpretações, entre elas, “A Wapfana wa Wetela” e “Marosana”, bastante tocadas em barracas, bares e locais de entretenimento “chic”.

Em 1998, Wazimbo, já a solo, lança o seu disco, “Makwero”, gravado na África do Sul, país para onde pretendeu ir estabelecer-se a certa altura. Hoje, faz parte de um novo “Grupo RM”, apenas com dois nomes da primeira banda: Zeca Tcheco e Sox.

Wazimbo considera que o momento mais alto da sua carreira aconteceu em 1987 quando viaja e trabalha na Holanda e França, jornada que resultou na edição de dois discos “Independence” e “Pequinique”. Para tristeza do nosso sexagenário, os dois albuns nunca foram publicados e vendidos em Moçambique.

Rádio Moçambique: Memórias de um doce calvário

Edifício-sede da Rádio Moçambique
Para Silvestre Sechene, jurista, a leitura deste livro de autoria de Luís Loforte, “proporcionará aos que se interessam pelas matérias da radiodifusão, e não apenas a estes, a oportunidade de se informarem sobre a história recente da rádio, particularmente no período de transição de Rádio Clube de Moçambique para a actual Rádio Moçambique”.

Assim escreveu aquele jurista no prefácio daquela obra publicada em 2007.
Trata-se de uma incursão em que, cito de novo Sechene, “habilidoso, Luís Loforte, agacha-se na noite das memórias e oferece-nos o que podem ser considerados aspectos preciosos da história da radiodifusão em Moçambique”.

O livro, que recomendo vivamente aos radiófilos de todos os quadrantes, pode ser adquirido em algumas livrarias da cidade de Maputo – fora da capital não se conhecem livrarias – ao preço de 250,00 Meticais (Usd10).

Não resisto em reproduzir um excerto do capítulo Rádio Clube de Moçambique, esperando eu que o seu conteúdo sirva para “aguçar” a curiosidade dos bloguistas e a pertinência de ter nas suas prateleiras uma obra de tão elevado valor.

“O RCM era a maior e a mais antiga das tres estações emissoras que entraram na constituição da Rádio Moçambique, mas não e a ele, pelo menos com essa denominação, que se devem as primeiras transmissões radiofónicas em Moçambique. As primeiras emissões experimentais de rádio, conhecidas em Moçambique, datam de 16 de fevereiro de 1933, uma quinta-feira. Formalmente, porém, as emissões arracaram a 18 de Marco do mesmo ano, um sábado, naquilo que foi o primeiro sinal do Grêmio, lançado a partir de um prédio situado na então Avenida da Republica, hoje 25 de Setembro, antes de passar a emitir a partir de instalações igualmente alugadas na então Rua Araújo, hoje Rua de Bagamoyo, em Março de 1939. Por decisão dos seus associados, o Grêmio passou a chamar-se Rádio Clube de Moçambique, em 29 de julho de 1937, uma quinta-feira, num ano em que em toda a colónia apenas existiam mil e quatrocentos receptores de rádio, metade dos quais na cidade de Lourenço Marques (Maputo, hoje). Até aí, na colónia apenas se escutavam de forma regular as emissões da União Africana, e da Europa e América do Norte quando calhava”.

“A ideia da criação do “Grêmio” partiu de dois radioamadores, nomeadamente Augusto das Neves Gonçalves e Firmino Jose Sarmento, aos quais, mais tarde, se juntaria Aniano Serra, contando com o apoio cúmplice dos comerciantes dos receptores e materiais afins”. (…)

“ …. Em 1937 o “Grêmio” passou a chamar-se Rádio Clube de Moçambique. Na verdade, só a responsabilidade de se chamar “Rádio Clube de Moçambique” pertcenceu aos associados, porquanto a da alteração coube às autoridades políticas de então, provavelmente porque a designação de “Grêmio” carregava consigo uma conotação corporativa e, portanto, algo do foro político e industrial. O “Estado Novo” classificava tudo em função dos fins. Pela natureza e fins perseguidos, uma associação de radiófilos não podia ser um grêmio. Grêmio eram, por exemplo, as associações industriais de óleos vegetais, das indústrias de transportes e automóveis pesados ou dos indústriais gráficos. Organização corporativa viria também a ser a União Nacional, o partido do ditador António de Oliveira Salazar. Impôs-se, portanto, que o “Grêmio” adoptasse uma designação do foro das “Sociedades de Recreio”, como o Clube Militar …”.

Se, ao tempo do Rádio Clube, o locutor dizia, depois do gongo, “Aqui Portugal Moçambique, fala-vos o Rádio Clube de Moçambique, dos seus estúdios em Lourenço Marques”, o do Grêmio, em português e inglés, referia: “Aqui Lourenço Marques CR7AA, estação emissora do Grêmio dos Radiófilos, trabalhando na frequência dos 6137 quilocíclos, onda de quarenta e oito metros e oito centímetros…”. CR7AA designava o primeiro emissor do “Grêmio” e correspondia à codificação imposta aos radioamadores desta região. Contrariamente ao que se possa pensar, o CR7AA não foi um emissor importado, mas construido em Moçambique por Augusto Gonçalves e A.J.Morais. O emissor ainda existe e é uma relíquia que a Rádio Moçambique tem sabido, felizmente, preservar, cumprindo assim o desejo manifestado pelos fundadores do “Grêmio” quando aquele emissor foi reformado: “Que descanse em paz sob os louros, a velha reíiquia, guardada religiosamente nas salas do Grêmio para marcar uma época da história da radiodispersão na colónia”. Hoje não somos colónia, mas cumpre-nos o dever civilizacional de preservar a nossa memória colectiva”.
…..

“ … A partir da então Lourenço Marques, o RCM mantinha em funcionamento quarto emissões independentes, sendo trés em português (Programas A,C e D), e uma em inglés e Afrikaans (B Station ou simplesmente LM Radio). À excepção de Gaza, todos os então chamados distritos do Estado de Moçambique tinham em funcionamento os seus emissores regionais, …”.

Não resisto em transcrever o último parágrafo desta obra de Luís Loforte: “Estou há quase uma vida na radiodifusão. Dela me apresto a sair, estou no umbral da porta de saida. Perguntarão os mais novos o que teria para lhes transmitir e eu direi que pouco e muito ao mesmo tempo. Talvez lhes seja útil, apenas, o conselho de que os verdadeiros radiófilos são aqueles que ficam felizes quando alguém, um dia, lhes venha a dizer que um, um que seja, dos nobres objectivos da radiodifusão terá sido conseguido contando com a sua colaboração. Não serei uma excepção. E porque não serão muitos aqueles que se resolvem dar à estampa as suas memórias, neste caso também gostaria que, ao lerem este modesto livro, soubessem que percorri o meu ciclo radiofónico num misto de muita felicidade e de alguma amargura, razão pela qual resolvi escolher a frase que dá título a este livro: “Rádio Moçambique – as memórias de um doce calvário”.

Para os interessados na obra, em baixo os contactos:
luisloforte@rm.co.mz
eagmatos@gmail.com

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Música - UNI VERSO de AMÁVEL PINTO : Sonoridades espirituais de um guitarrista diferente

O GUITARRISTA Amável Pinto (Amável) lança esta sexta-feira, 12, em concerto, o seu segundo disco de originais, intitulado “Uni Verso”, o mesmo que verso único, palavra única, um mundo único. O disco é composto por 14 temas e sai três anos depois do seu primeiro que leva o nome de “Meta Mor Fozes”. O concerto de lançamento do disco “Uni Verso” será às 20:00 horas, no Centro Cultural Universitário da Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo. Na manhã de sábado Amável tocará em frente à loja Gringo. No dia 19 deste mês, Amável vai lançar o seu disco na cidade da Beira, em Sofala, no espaço Miramar.

Em palco Amável estará com Paito Tcheco, que vai tocar bateria; Nádia, que estará com a segunda guitarra, e Gerson que cuidará da viola baixo.
Paito Tcheco trabalhou ao lado de Amável para a produção do disco e tocou bateria, viola baixo e fez percussão. Amável fez todas as guitarras e Nádia teve a participação com guitarra ritmo, para além de o disco contar com um tema seu. Por outro lado, participaram dois italianos Giuseppe Millici e Gaeteano, que tocaram harmónica e saxofone, respectivamente.
Para o músico, a diferença que há entre o primeiro e o segundo discos reside no facto de o primeiro ter sido a súmula de uma carreira de cerca de 20 anos, enquanto que o mais recente é a experiência de três anos de um trabalho com muita intensidade, vigor e vontade de querer continuar a trabalhar mais e melhor. “A partir daqui é só empreender uma viagem sem regresso. Já não pode haver mais paragens. Não temos que esperar mais ou aguentar mais de 20 anos”, diz Amável.
Em “Uni Verso” estão patentes as suas marcas, aliás, a sua característica, sendo que o disco é atravessado por ritmos como Rock, a Marrabenta e a música Clássica.
Há um ideal muito forte em relação àquilo que são as suas sonoridades. Por outro lado, está presente a filosofia musical de Fanny Mpfumo. Mas também, sente-se um Amável mais amadurecido pelo tempo, pelas experiências acumuladas, pelas relações vividas com os demais artistas, mais liberto à busca de outras sonoridades na guitarra.
“Procurei sonoridades totalmente diferentes das do primeiro disco, timbres novos e afastados daquilo que as pessoas conhecem. É um disco muito espiritual.
“A Marrabenta está aqui, comigo. Ela vive comigo, por isso o Fanny Mpfumo está também presente e visível, porque ele é um clássico e eu o admiro. O Rock eu o conheço perfeitamente, pois foi a minha primeira escola. Quanto à música Clássica, essa foi o que sempre quis e pesquisei muito. Esses três ritmos estão presentes e sempre me acompanham”, comenta.
O disco tem vários temas, entre os quais “Minha Terra”, “Rascunho”, “A Voz”, “Tocar Viola”, “Ventos do Além”, “Then you Came”, “Uni Verso”, “Mamana Elidia”, “Nádia Marrabenta” e “Depois da Dor”.
Amável diz ele próprio: “Surpreendi-me a mim mesmo com os resultados deste trabalho. Veja que grande parte dos temas foram basicamente gravados pela calada da noite. Entre as 22 horas à uma, duas ou três horas da manhã”.
Sobre isso, a Nádia chegava a dizer que esses são sons da madrugada. Ela às vezes chegava a sonecar no estúdio de Amável, onde foram registados todos os temas, misturados e masterizados. Os arranjos foram feitos com a ajuda de Paito Tcheco.
Foram sete meses de um trabalho intenso, como que enclausurado entre quatro paredes no seu estúdio. Durante esse período ele tornou-se numa espécie de animal habituado a ficar somente fechado numa jaula. Tinha poucos contactos e a convivência social com os demais era inexistente.
Actualmente, Amável está a dar aulas de guitarra clássica na Escola de Comunicação e Artes (ECA) na Universidade Eduardo Mondlane. Ele está ligado àquela instituição de ensino superior desde Março, altura em que foi contratado. “A guitarra clássica foi o que me faltou quando comecei o meu projecto e me faltou. Já tinha ritmos como Rock e Marrabenta, mas para completar o meu projecto me faltava a guitarra clássica”.
Amável Pinto é formado em Guitarra Clássica pela Universidade da África do Sul (UNISA).

Francisco Manjate (Jornal Notícias (10/12/08)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Os 50 anos da atribuição do Nobel a Boris Pasternak

António Rodrigues do DN, 4/12/08

Há 50 anos, em plena Guerra-fria, a Academia Sueca atribuía o Nobel da Literatura a Boris Pasternak por causa de um livro, uma história de amor entre um médico poeta e uma filha da aristocracia com a Revolução de Outubro como triste pano de fundo. Dr. Jivago tornou-se um dos romances mais populares do séc. XX mas a União Soviética deixou o autor morrer sem colher os louros.

Era uma vez outro tempo. Há meio século, numa era em que o mundo se dividia em dois e a literatura tinha tanta importância que os governos se sentiam ameaçados pelos escritores. Num gesto que, sem deixar de ser político, tinha a sua justificação literária, a Academia Sueca entregava o Nobel da Literatura a Boris Leonodovich Pasternak, poeta popularíssimo entre os russos que, em 1957, tinha conseguido contrabandear para o Ocidente um fresco desencantado sobre a União Soviética, com a Revolução de Outubro como pano de fundo.

O livro vinha impregnado da aura romântica das obras que conseguem ver a luz do dia apesar de todas as vicissitudes. Escrito na Rússia ao longo de quase quatro décadas é, ao mesmo tempo, um manifesto de amor à arte como fim em si mesmo, uma história de amor grandiosa, um épico histórico sobre a União Soviética que se ergue sobre os escombros dourados da Rússia dos czares e uma obra súmula das preocupações do seu autor.

Pasternak, a quem a política e os grandes movimentos sociais interessavam menos do que a arte em si, o mundo não se moldava pelo homem e as suas acções; influenciado essencialmente por correntes de amor, fé e destino, o mundo tinha pouco de construção e mais de consequência das vidas de cada indivíduo. Como o amor entre o Dr. Jivago e Lara, belo e trágico, quase sempre adiado, ao sabor dos destinos que se entrechocam e cujo idealismo sucumbe diante dos horrores que vão cometendo os exércitos Vermelho e Branco.

A existência do Dr. Jivago tem muito a ver com o destino escolhido pelo escritor. Nascido numa família de artistas judeus da cosmopolita Moscovo do final do século XX, filho do pintor Leonid Pasternak e da pianista Raitza Kaufman, Boris Pasternak pertencia a uma estirpe desprezada pela Revolução de Outubro.

Tendo crescido entre alguns dos maiores vultos da cultura da viragem do século - como Rainer Maria Rilke, visita lá de casa, de quem depois se tornaria grande admirador e tradutor - e apesar da maior parte dos seus familiares ter optado pelo exílio depois do triunfo Vermelho em 1917, o escritor preferiu ficar.

Por ter tomado essa decisão, por essa curiosidade intelectual em relação à experiência bolchevique primeiro e depois por temer que nunca mais o deixassem regressar, viu os seus pais pela última vez em 1922, quando recebeu autorização para os visitar em Berlim.

Contrabandeado desde Moscovo por um jovem italiano desencantado com a sua experiência soviética, Sergio D'Angelo; editado em Itália pela primeira vez numa pequena editora de um playboy comunista a que os acontecimentos na Hungria tinham abalado a fé na União Soviética, Giangiacomo Feltrinell; o Dr. Jivago só viu a luz do dia e teve este impacto e de forma tão rápida pela capacidade do editor em resistir às pressões e visão de marketing.

Ao saber da notícia do Nobel, Pasternak enviou um telegrama para Estocolmo: "Extremamente agradecido, comovido, orgulhoso, surpreendido, atónito". Quatro dias depois, pressionado pelas autoridades soviéticas, recusaria o prémio: "Considerando o significado atribuído a este prémio na sociedade a que pertenço, tenho de o recusar. Por favor, não se ofendam com a minha rejeição voluntária".

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Cinema: Madagáscar 2, perdidos em África

É uma das mais aguardadas estreias do ano e o primeiro grande 'blockbuster' para o Natal, com resultados de bilheteira a anunciarem recordes: “Madagáscar 2”, num momento em que a DreamWorks já anuncia a preparação do terceiro filme. Alex, Gloria, Melman e Marty perdem-se em África.

"Quem disse que os pinguins não voam?" Aqui está a prova do contrário. Em Madagáscar 2 reencontramos o leão Alex, a zebra Marty, a hipopótamo Glória e a girafa Melman no mesmo local onde os deixámos no final de Madagáscar. Mas não por muito tempo. Os quatro amigos vão partir num avião recauchutado (que já aparecia no primeiro filme, lembram-se?), pilotado pelo trio de pinguins e com os macacos, o Rei Juliano e Maurício a bordo com destino a Nova Iorque. Mas a viagem não corre como previsto e o avião acaba por se despenhar em África - e daí que o título original seja justamente Madagáscar: Back 2 Africa.

Eis então a oportunidade para estes animais que passaram a maior parte da sua vida enclausurados no jardim zoológico de uma grande cidade encontrarem outros animais como eles e descobrirem o seu lado selvagem. Com algumas surpresas.

Como já acontecia no primeiro episódio, Alex assume o protagonismo. Reencontrando-se inesperadamente com o pai e a mãe, terá de provar ao grupo e sobretudo a Zuba, o leão mau-da-fita, que, para além de ser o rei de Nova Iorque, tem ainda capacidade para ser o rei da selva. O que não será fácil dado que em vez de lutar, Alex é especialista em dançar.

Os outros animais também terão os seus desafios. Enquanto os pinguins contratam todos os macacos da selva e seus respectivos polegares para tentarem arranjar o avião, Marty vai descobrir que é apenas uma zebra igual a milhares de outras zebras, Glória entende que está na hora de acasalar e decide marcar um encontro com o escultural hipopótamo Moto-Moto e o hipocondríaco Melman, às portas da morte, como de costume, decide que é hora de assumir o seu amor por... Glória.

E, pronto, para não estragar as surpresas a miúdos e graúdos, podemos só dizer que, mesmo na selva, Alex não se vai ver livre da velhota de mala em riste ("gatinho mau!").

O primeiro filme estreou-se em Maio de 2005 conquistando imediatamente as audiências. É, até agora, o quarto filme de animação da Dreamworks mais visto, depois de Shrek 2, Shrek 3 e O Panda do Kung Fu. Sucesso nas salas e DVD que até deu origem a um jogo para a Playstation. Entretanto, os pinguins causaram furor, ganharam direito a uma curta-metragem The Madagascar Penguins in a Christmas Caper (2005) e ainda vão ser protagonistas numa nova série de animação The Penguins of Madagascar (2009) - quem foi que disse que os pinguins não voam?

Depois dos resultados e dos elogios com o primeiro filme, a sequela corria o risco de não estar à altura das expectativas. Manteve-se a equipa de realização (Eric Darnell e Tom McGrath) e, na versão original, as vozes também são as mesmas. A produção custou perto de 120 milhões de euros. O filme estreou-se nos Estados Unidos no dia 7 com resultados tão bons quanto o primeiro: no primeiro fim-de-semana conseguiu 49 milhões de euros - a 11ª melhor abertura do ano. Até agora, já rendeu 107 milhões de euros nos Estados Unidos e mais de 45 milhões no resto do mundo.

Por enquanto, os animais ficam na selva. Mas Jeffrey Katzenberg, da Dreamworks, já confirmou que a história vai continuar: "Haverá, pelo menos, mais um episódio. Queremos que as personagens regressem a Nova Iorque".

Caetano Veloso realiza sonho de criança e vira professor

Por: Célio Messias/AE

O cantor Caetano Veloso realizou na tarde desta quarta, 26, em Ribeirão Preto, um sonho de criança: foi professor por quase duas horas. Mas a aula foi diferente, interactiva, via satélite. E para cerca de 40 mil alunos, de 280 pólos da rede ligada ao Sistema COC de ensino em todo o Brasil. "Foi muito boa a experiência", disse Caetano, que falou de um tema que entende, viveu e gosta: "Da Bossa Nova ao Tropicalismo". Pelo acordo com a instituição, e a pedido dele, a aula será disponibilizada a toda a rede pública do País. Caetano também falou, depois, dos seus novos DVD e CD, além de seu blog, e procurou minimizar a crítica do amigo Tom Zé, que o ofendeu num show, domingo (23), no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo.

Sentado num banquinho, quase imóvel, apenas gesticulando e com a típica fala mansa, Caetano falou sobre os anos 1950 e 1960, do tema da palestra-aula. Ele espera que as informações que transmitiu ajude muitos estudantes. Até se comunicou rapidamente, via satélite, com a irmã Claria Maria, que estava em Salvador a assistir. Com os vários compromissos agendados, nem encontrou o amigo Gilberto Gil, que faria um show à noite no Theatro Pedro II. Caetano disse que teria que viajar para continuar os trabalhos de estúdio dos seus novos projectos. "Não é incrível? Não vi o Gil", comentou Caetano, que ainda não viu o show Banda Larga Cordel do amigo, mas recentemente o viu no Gil Luminoso, no Rio.


O COC investiu, via Lei Rouanet, R$ 300 mil no projecto da aula e também dos sites de Caetano (www.obraeprogresso.com.br), sobre o DVD e o CD em produções, e de Guel Arraes, que dá uma aula de cinema pela internet. Caetano disse que aprova a novidade tecnológica, como Gil, que incentiva o público a gravar os seus shows e exibi-los no ciberespaço. "Cada um vai se adaptando aos poucos, e achei que as companhias de disco não acompanharam ou não foi possível para elas, acabar com aquela estrutura, mas não entendo de produção, de dinheiro", explicou Caetano. E ele recordou que no seu blog incluiu as músicas em produção, gravadas ao vivo, com o mesmo arranjo que terá no CD. "Está tudo disponibilizado", disse.


O novo CD já tem nome: Zii e Zie. Ou, traduzindo do italiano: Tios e Tias. Motivo: "Vi escrito numa tradução para o italiano de um livro do escritor turco Ohran Pamuk (Istambul), que ganhei de presente de uma moça italiana." E acrescenta: "A gente olha e não consegue entender qual a língua, achei bonito..."


Meia-entrada


Caetano não gostou da idéia de limitar em 40% a meia-entrada nos espetáculos culturais. "Há algumas perversões nessa questão que já vem há algum tempo", disse ele, referindo-se a shows em capitais, muito caros, para compensar os ingressos de meia-entrada. "Acho que se tem meia, tem que cobrar, mesmo que todos paguem, sou contra isso." O cantor espera que diminua o número de carteiras falsas de estudantes e não concorda com os produtores que elevam os preços para compensar o risco de ter quase que só vendas de meias-entradas. "Existem mil possibilidades, não sei..." E brincou: Eu só pago meia, porque sou idoso. Vou com meu filho de 11 anos e compro duas meias e não entro na fila."


Filme


A ex-mulher de Caetano Veloso e produtora de cinema, Paula Lavigne, disse que o COC poderá ser um dos patrocinadores do filme O Bem Amado (que terá Marco Nanini como Odorico Paraguaçu), que está em fase de captação e pré-produção. As filmagens começarão em janeiro. Chaim Zaher, dono do COC, tem intenção de patrocinar, mas falta chegar a um acordo sobre valores. "Tem muito a ver com educação", disse Zaher, sobre o filme, que já foi novela e seriado da TV Globo entre os anos 1970 e 1980. Zaher também pretende estender a aula interativa, com outros artistas, personalidades e políticos, mas não divulgou para quando.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Luís Represas prova a lingua viperina da Rosa Langa

O cantor português Luís Represas, esteve recentemente em Moçambique, onde actuou em duas ocasiões, ao lado dos músicos moçambicanos, entre eles, Stewart Sukuma e Hortêncio Langa.
A jornalista da Rádio Moçambique, Rosa Langa, teve a oportunidade de conversar com Represas e não resistiu a fazer-lhe algumas perguntas, algumas das quais ireverentes como só ela sabe ser.
Eis alguns excertos dessa entrevista desta que entre a classe de jornalistas é conhecida por a jornalista "4x4".

Rosa Langa (RL) – Na sua carreira, qual foi até agora o seu “cachet” mais alto que recebeu?
Luís Represas (LR) – Não faço a mínima ideia e vou dizer-lhe porquê ... porque, felizmente, desde há muito que os contratos e os dinheiros não passam por mim. Passam pelo meu agente no qual eu tenho total confiança. Uma boa relação. Isso é uma enorme tranquilidade para o artista.
RL
– Sempre que precisa de dinheiro, ele está lá?
LR – Ou não (risos) ... mas que as contas estão certas ... há uma total liberdade da parte dele para negociar as coisas ... estou perfeitamente tranquilo... havendo sempre uma conversa, obviamente, mas muito mais do lado artístico, sobre o que eu quero fazer ou não em termos artísticos. Do lado negocial, do lado monetário ... eu acho que é engraçado, os artistas têem que ter algum pudor, claro que gostam de receber algum dinheiro. Mas no geral todos têem algum pudor em falar, em negociar essas coisas. Não é porque sujam as mãos, porque não ... porque é dinheiro limpo.
RL
– Antes pelo contrário ....
LR – Porque é legítimo, não é? Acho que nós não nos valorizamos se não valorizamos com quem trabalhamos. Nós, tendencialmente, seriamos mais enganados ...
RL
– Esta é mesmo para fechar ... hé... de cada show que tem realizado em Portugal e por esse mundo fora, faz antes um ritual?
LR – Há uma coisa que eu gosto muito de fazer sempre, que é jantar antes de tocar. E jantar com toda a minha equipa: os músicos e os técnicos. Não é um ritual mas acaba por ser um ritual quase ... não quer dizer que se não jantarmos qualquer coisa vai correr mal.
RL
– Não terminam assim numa reza, uma “Ave Maria”?
LR – Não, não, não. Eu acho que essa reza tem muito mais a ver com a comunhão entre nós todos que estamos à mesa antes do espectáculo, com um bom jantar, onde falamos de tudo menos de música. Das coisas da vida, falamos ....
RL
– Falam de mulheres, por exemplo?
LR – Falamos de mulheres, falamos de homens de tudo ....
RL
– De que mulheres vocês falam mais?
LR – Falamos das nossas mulheres, porque falar das mulheres dos outros é complicado, não é?
RL
– Mas existem mulheres de ninguém?
LR – Há sim. Mas isso cabe a quem descobri-las e ficar com elas. Mas falamos da mulher. Ela, por si, é um tema fantástico, porque é sempre um tema misteioso.
RL
– Que partes da mulher é que aprecias mais?
LR – A cabeça.
RL
– Porquê a cabeça?
LR – Porque é um mistério.
RL
– E quando está com ela começa a carícia pela cabeça?
LR – (Risos) Ah ... estás a falar disso? Não. Fisicamente para mim, as mãos e os olhos são elementos fundamentais numa mulher. As mãos dizem muito.
RL
– E o olhar também ... começa aí uma boa conquista...
LR – Obviamente que sim. Não vou dizer aquela frase “que os olhos são a porta da alma”, mas que são, isso são.
RL
- Obrigrada

José Saramago fala de seu novo livro, 'A Viagem do Elefante'

Entrevista de: Ubiratan Brasil, de O Estado de S. Paulo

Uma certa fragilidade ainda é aparente, resquício de uma grave enfermidade respiratória que quase o matou. Mas, aos 86 anos, o escritor português José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura, enfrenta com rara lucidez e energia renovada seu novo tour pelo Brasil, promovendo agora o lançamento mundial de A Viagem do Elefante, livro em que narra a aventura verídica de um elefante que rumou, em 1531, de Lisboa a Viena, presente de um rei português. "Tive algo semelhante a três pneumonias, perdendo 20 quilos em pouco tempo", disse o autor de sucessos como Ensaio sobre a Cegueira, A Caverna e O Evangelho Segundo Jesus Cristo, em entrevista ao Estado, na segunda-feira, depois de homenageado por funcionários da editora.

O senhor gosta de dizer que A Viagem do Elefante é mais uma história que um romance. Por quê?
Na verdade, eu prefiro chamá-lo de conto. Não me preocupei com o número de páginas para defini-lo devidamente, mas, nesse livro, não há nenhum ingrediente que se costuma encontrar em um romance, como um conflito complicado ou um problema de família. A própria forma de narrar é a de contar algo, daí eu tê-lo chamado de conto, como apropriadamente consta na edição brasileira. Em Portugal, porém, isso não foi aceito e lá chamam de romance. Como não quis entrar em uma discussão sem sentido, não argumentei, mas preferia que o tratassem então de "livro" e não romance.
O enredo é inspirado em fatos históricos, mas a possibilidade de poder criar personagens fictícios foi o que mais o atraiu?
Sim, pois os fatos históricos preencheriam apenas duas ou três páginas, com todos os pormenores. Não mais que isso. Confesso que não esperava escrever um livro com mais de 250 páginas - acreditava chegar a, no máximo, 120. Mas, como tive de inventar situações, seu tamanho ficou maior. O que me agrada no trabalho final é o fato de o leitor ser conduzido pela linguagem e não apenas pelo enredo. Como autor, acredito que a escrita é ao mesmo tempo atual e referente ao momento em que se passa a história, século 16. Fiz, então, uma simbiose entre o português que falamos hoje e o que se escrevia naquela época. Acho que ficou bem resolvido, pois introduz uma dinâmica diferente: o leitor é constantemente surpreendido (como eu mesmo fiquei) com certas palavras e construções frásicas.
Como foi essa surpresa?
Foi algo que não posso dizer que tenho explicação. Mas vou tentar explicar. À medida que envelhecemos, vamos acumulando aquilo que chamo de segmentos lingüísticos. Hoje, não falo como quando tinha 8 anos nem sequer quando estava com 30. Há uma espécie de camadas que vão se acumulando, do mais antigo ao mais recente. Tenho a impressão de que, durante a doença que me atacou e da qual tive a rara sorte de escapar com vida (ao menos um médico que me atendeu disse isso), camadas antigas voltaram à superfície. Ou seja, palavras que eu não mais usava ali estavam e figuram na história. Não apenas escrevi o livro, mas o livro também escreveu a mim. Não posso dizer que se trata de uma verdade científica, mas algo realmente diferente se passou pela minha cabeça.
O senhor acredita então que, se não tivesse enfrentado a enfermidade, o livro teria sido diferente?
Possivelmente. Eu contaria a mesma história. No essencial, talvez não existiriam grandes diferenças. Mas, justamente o que não é essencial contribui (e muito) para que essa história se torne única.
Um leitor desavisado, que não soubesse o que lhe passou, não desconfiaria de sua doença, pois o livro é recheado de humor e ironia.
De fato, o humor é o que aparece mais. E assim tinha de ser, pois não gosto de pôr a minha intimidade assim a claro. Quem espera por uma história sombria surpreende-se. Não tanto pelo humor, que está presente em minha obra, mas pela forte presença que nunca antes tinha acontecido. O livro começou a ser escrito em fevereiro de 2007 e, até maio, escrevi cerca de 40 páginas. Não avancei porque minha saúde piorou. Mas, como eu já estava determinado a um certo tipo de narrativa, não houve uma quebra no estilo. Tanto que, 24 horas depois de ter saído do hospital, corrigi aquelas 40 páginas e escrevi o que faltava. É como se houvesse outro eu a escrever por mim. Nesse período, aconteceram coisas muito estranhas. Como ter a visão de um fundo escuro com quatro pontos luminosos, que formavam um quadrilátero irregular. Para mim, aqueles quatro pontos eram eu. É um exemplo de como estava minha cabeça naquele momento e de como estava convicto em terminar o livro.
Suas opiniões sempre são muito apreciadas. Assim, o que se pode esperar do presidente americano Barack Obama.
Em condições normais, seria apenas mais um presidente. Mas trata-se de um negro no comando. É uma revolução, porque invadiu o consciente e o inconsciente de um país que sempre enfrentou o racismo e a Ku Klux Klan.
E sobre a atual crise econômica?
É o que me faz repetir que Marx nunca teve tanta razão como agora.

"Podem me xingar de comunista, não de fascista", diz Saramago, que volta a conversar com o Estado, após dois anos de silêncio motivado por um título infeliz
Fazia dois anos que José Saramago não conversava com o Estado. O motivo foi a discordância do escritor em relação a uma reportagem publicada em 2006, a partir do lançamento de As Pequenas Memórias, um ensaio autobiográfico. Mais especificamente sobre um determinado trecho em que Saramago narra como, aos 13 anos, foi incorporado à Mocidade Portuguesa, ou seja, à juventude que apoiava o ditador português Antônio Salazar.
"Era um garoto e, em um determinado dia, ao chegar à escola, eu e meus colegas fomos informados de que passaríamos a integrar a Mocidade", disse o escritor, que rechaçou, assim, o título da matéria, "Eu fui salazarista". "Eu nunca disse essa frase."
Segundo o escritor, àquela idade, não seria possível fazer uma adesão consciente ("foi algo automático"), diferente, aliás, do que se passou com o alemão Günter Grass, também Nobel de Literatura, que confessou na autobiografia Nas Peles da Cebola (Record) ter pertencido à Juventude Hitlerista, causando grande polêmica. "Isso aconteceu quando Grass já era um rapaz, portanto, consciente de seus atos. Mesmo assim, depois ele teve uma responsabilidade cívica intocável."
O episódio está descrito na página 131 da autobiografia de Saramago. Em 1936, quando começava a Guerra Civil Espanhola, ele, jovem estudante de uma escola industrial, leu nos jornais sobre o conflito, acompanhou o desenrolar dos combates e percebeu que estava sendo ludibriado pelos militares reformados que censuravam a imprensa. Essa foi a razão por que, mandado pelos colegas ao Liceu de Camões para apanhar sua farda verde e castanha da Mocidade Portuguesa, deu um jeito de ficar no fim da fila até que se esgotasse o estoque dos malditos barretes e calções de Salazar.
Saramago julgou o foco do texto publicado no Estado como sensacionalista. "Minha trajetória mostra que jamais fui oportunista, política ou culturalmente", disse ele, entendendo que o jornal havia, portanto, não cometido um erro, mas agido intencionalmente em acusá-lo. "Uma surpresa vinda de um órgão de comunicação ao qual nunca neguei uma opinião ou uma entrevista, um jornal que, para muitos, é como uma bíblia laica de questões políticas e sociais", afirmou. "Poderiam me chamar de comunista que, para muitas pessoas, soa como xingamento, e não para mim; mas jamais de fascista." Para o escritor, não houve erro, mas "uma falta intencional".
Como não recebeu na ocasião a retificação que julgou necessária, especialmente em relação ao título da matéria, Saramago então decidiu não mais conceder entrevistas ao jornal.
O silêncio foi superado nesta segunda-feira, depois de uma reunião do escritor com editores e o diretor de redação, em que se repassaram as circunstâncias da matéria e suas repercussões.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

São muitas as verdades num mundo de natureza vária

O lançamento simultâneo em Portugal, Brasil e Moçambique de Venenos de Deus, Remédios do Diabo é por si uma boa notícia para os que se interessam pelos rumos da ficção em língua portuguesa, pois sugere um avanço na aproximação entre universos ainda tão distantes a despeito das relações historicamente construídas. E confirma entre nós o reconhecimento de Mia Couto. Bastante conhecido nos círculos portugueses e traduzido em tantas línguas, o mais prestigiado escritor moçambicano precisou de mais tempo para que o mercado editorial brasileiro levasse em conta, por exemplo, o grande interesse despertado entre o público universitário, o único segmento que, desde os anos 90, tinha acesso a seu trabalho.
Nos últimos anos, felizmente, abriu-se um espaço para as literaturas africanas e o autor e seus textos vêm merecendo maior atenção, das editoras, da crítica literária, da mídia. Em 2007, O Outro Pé da Sereia ficou entre os dez finalistas do Prêmio Portugal Telecom e foi o vencedor do Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura.
Em Venenos de Deus, Remédios do Diabo, o sexto romance, Mia Couto, como aliás não é raro em sua trajetória, inicia o processo de sedução já no título. Assim, depois de Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra e O Outro Pé da Sereia, para citarmos apenas dois de seus livros, ele vem nos provocar com Venenos de Deus, Remédios do Diabo, que tem ainda como subtítulo As Incuráveis Vidas de Vila Cacimba. Num jogo pautado pela ironia, o peso da contradição será dominante na narrativa que se desenvolve sob uma atmosfera um tanto nebulosa, montada sobre diálogos que tendem a desnortear o leitor, transmitindo-lhe a idéia de que está diante não só de uma terra estrangeira, mas de um mundo que requer outros sentidos para ser penetrado. A opacidade não é defeito, nem é gratuita, é constitutiva de um projeto.
Uma vez mais, o espaço tem grande significado na narrativa de Mia. Vila Cacimba, a aldeia onde se desenrola a trama, pode ser encarada como uma metonímia de Moçambique, talvez do continente africano. Ao caracterizar o médico como português, insinua-se que os séculos de colonialismo não permitiram uma real aproximação entre os patrimônios culturais, pondo em causa o argumento luso-tropicalista que de vez em quando ressurge. Note-se, entretanto, que o essencial não é propriamente falar de sua terra e sim trazer à pauta as muitas verdades que se confrontam num mundo povoado por misturas de natureza vária. Para isso, o autor baralha as personagens, colocando em movimento características que dificultam a sua apreensão, fazendo-as transitar num quadro de significados móveis, em que as coisas podem ser e não ser. E, como o médico estrangeiro, somos levados a um estado de dúvida que também desafia a nossa capacidade de leitura da realidade. Em síntese, da coexistência de mundos, de diferentes tempos e códigos, trata o autor, abordando um problema fulcral em nossos dias.
No conjunto da obra, esse romance se destaca por uma economia narrativa orientada pela concisão, em contraste com a tendência para a exuberância de outros textos. Aqui é tudo mais enxuto: o enredo concentra-se em Vila Cacimba, num curto espaço temporal, envolvendo poucas personagens: o médico português Sidônio Rosa, os casais Bartolomeu Sozinho e Dona Munda, Suacelência e Esposinha. Sobre as suas vidas, paira a figura de Deolinda, apresentada inicialmente como a filha de Bartolomeu e Dona Munda, por quem Sidônio se apaixonara em Lisboa, razão de sua vinda para a África. Nos nomes das personagens, projetam-se marcas de seu modo de estar no mundo, o que remete a certa atmosfera fabular, reiterando um traço indiscutível na obra de Mia: a evocação das tradições orais, matriz dominante no patrimônio cultural de seu país.
Em se tratando do autor, todavia, a combinação dos nomes leva também ao processo de construção da linguagem, sempre merecedor de sua atenção. Se renuncia à constância dos neologismos, um dos pontos de convergência com a obra de Guimarães Rosa, o escritor não deixa de cortejar a poesia na escrita da ficção, cultivando uma espécie de aderência entre o signo e o referente, como se observa não só relativamente às personagens, como também ao lugar. É fato que daí pode resultar a sensação de obviedade mas não se deve esquecer que a coincidência do idioma está longe de significar correspondência de contextos culturais. Vale, então, pensar no procedimento em alusão ao fundamento da poesia, ao desejo de recuperar a unidade perdida, de grande sentido numa sociedade tocada pela desagregação.
O recurso a uma forma de sabedoria popular é outro dado a confirmar a identificação com as tradições orais. Contrapondo-se à contenção no domínio dos neologismos, registra-se a presença de frases que trazem um tom de aforismo, como que procurando sintetizar uma verdade consagrada. Ressalte-se, porém, que no romance as sínteses formuladas pelas personagens atentam contra o senso comum, instituindo uma espécie de contraprovérbio. Em Mia Couto isso se liga à desautomatização do olhar, ato imprescindível para a compreensão do universo que a sua ficção nos traz. É um de seus modos de assegurar à literatura a marca do insólito, uma de suas funções e de seus encantos.
Por: Rita Chaves (professora de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na USP)

"Temos apenas um nome diferente"


Por: Leonencio Nossa (Jornal O Estado de São Paulo)
O escritor e biólogo moçambicano Mia Couto, de 53 anos, avisa: não é fácil encontrar o escritório onde desenvolve estudos de impacto ambiental, na Av. Mártires da Machava, região central de Maputo. Há 33 anos, os letreiros da cidade à beira do Oceano Índico deixaram de exibir nomes de navegadores portugueses para fazer referência a episódios da história da libertação dos países africanos, a líderes comunistas - como Ho Chi Min e Mao Tsé-Tung - e a heróis terceiro-mundistas como Eduardo Mondlane e Julius Nyerere. Para o autor de Terra Sonâmbula, a mudança se limitou à nomenclatura dos postes.Desde a independência, anunciada no Estádio da Machava por Samora Machel, em 1975, Mia Couto, um dos jovens presentes à festa, viu dois países tomarem rumos diferentes. O Moçambique real não atendeu às expectativas de quem esperava o fim da miséria e repetiu fórmulas políticas e sociais contestadas. Da caneta e do bloco de anotações do jornalista surgiu outro Moçambique, um espaço onde a língua portuguesa se renovou e negros e brancos usam a memória e a magia como formas de resistência. "Nós pensávamos que iríamos inventar um país com um sistema próprio, fundamentado na cultura moçambicana, e agora percebemos que temos um país como os outros. Só temos um nome diferente", diz.As construções portuguesas em estado precário, os mercados enfumaçados, as ruas que remetem a uma cidade brasileira dos anos 50 e a tranqüilidade e a descontração das pessoas nas calçadas não destoam, porém, da própria figura de Mia Couto e do clima de mistério de seus livros. Ele conta que não soa como ficção em Moçambique alguém dizer que um homem virou uma árvore. De camiseta e calça jeans, este nome certo nas listas futuras de candidatos ao Prêmio Nobel revela, bem-humorado, que não vive só de literatura e como encara o ofício literário: "Não sou apenas escritor, também faço coisas sérias."
O secretário da Academia Sueca, entidade responsável pelo Nobel, afirmou que os EUA são um país insular e ignorante para competir com a Europa. Onde fica o escritor africano ou latino-americano nessa disputa de poder cultural?
Como chegou até mim, o debate incluía só escritores europeus e americanos. Parece que o resto do mundo estava oculto. O problema é que essas generalizações levam sempre a erros gravíssimos. Os europeus são tantos e tão diversos! Nós todos somos tantos e tão diversos! Quem são os africanos? Que tipo de generalização eu posso produzir sobre os africanos? Há o estereótipo de que os africanos têm essa pujança literária e histórias para contar. Por que os europeus também não têm? Tenho dificuldade em entender essa espécie de marca de nascimento. A verdade é que o gênero do romance nasceu na Europa, mas, mesmo lá, sofreu diversas revisões. Temos a contribuição dos árabes na poesia, no conto. É um erro tentar classificações.
Ser ignorado é pior que ser atacado?
Sim. Nós somos simplesmente colocados na sombra, à margem. Há uma completa omissão. Não se trata de engano. Parte de gente que tem responsabilidade intelectual e aprecia o panorama literário internacional. É uma espécie de condenação que vai durar muito tempo. Quando nós pensamos que já foi, vem essa espécie de reincidência. Há um certo racismo no sentido cultural, uma certa hierarquia eurocêntrica.
O senhor vê alguma dificuldade especial nesse panorama para a literatura africana de língua portuguesa?
Estamos na periferia da periferia. A literatura africana só é reconhecida na Europa se corresponder a esse estereótipo do que é a África, algo exótico, de um velho contando histórias perto de uma fogueira, dos feiticeiros, dos curandeiros. São estereótipos a que um escritor quase tem de corresponder para ser aceito na Europa. E só a partir da Europa é que é possível chegar ao Brasil. Se eu não fosse reconhecido em Portugal, teria dificuldades de ser reconhecido em outros lugares. Essa triangulação é uma herança colonial. A língua portuguesa é a última das línguas. Eu só existo se sou traduzido para o francês.
Os estereótipos da época colonial permanecem? Isso não mudou?
Não. De certa maneira ficou mais grave porque os próprios africanos se transformaram em agentes da sua colonização. Os africanos, para abrir as portas, começaram a construir os seus pilares de identidade com esses estereótipos. Os africanos têm jeito para dançar, são alegres e têm maiores relações com os mortos. Esses estereótipos foram incorporados e construídos como modos de auto-afirmação. É alguém que se olha para o espelho, mas um espelho inventado por outro.
Mas em Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra o senhor cria um universitário que vai atrás dos contadores de história e dos feiticeiros, se envolve com os mortos. Essa busca é autobiográfica?
Um pouco, sem que eu percebesse. Tem a ver com o fato de eu ser filho de imigrantes. Meus pais vieram muito jovens para Moçambique. Eu não conheci avós e tios. Faço essa alusão à travessia do tempo. A travessia do rio não é no sentido geográfico, mas no sentido da infância. E ali a gente descobre que toda a história foi inventada, a história de sua infância, de sua vida. Tive de inventar meu país, meus pais tiveram de se desdobrar em avós, em bisavós, para eu ter esse sentido de eternidade. Sei que aquilo foi inventado. Sou natural da Beira, uma cidade que teve um processo de mestiçagem muito mais profundo. Quando eu saí da Beira, já aos 16, para viver em Maputo, pensei que tinha vindo para outro país, porque esta cidade é muito arrumada e hierarquizada em termos sociais. Mestiços e mulatos tinham uma ascensão social, nós éramos muito isolados. Em princípio, havia certo drama existencial. Eu descobri que tinha de inventar minha própria identidade.
Ao expressar a cultura de Moçambique de forma sofisticada, o senhor não abre mão de dialogar com seu país, onde há poucas livrarias?
Não vivo isso como angústia. O que eu faço é trabalhar com grupos de teatro, converto meus textos para o teatro. Algumas das minhas peças foram traduzidas do português para línguas locais. Trabalho para rádio e televisão, escrevo para jornais. Tenho uma intervenção pública. Não posso ficar preso ao livro. Mas meu trabalho não é facilitar ou simplificar. Quando faço um livro, é com a complexidade que tem de ter. Não escrevo para o povo. Escrevo para mim, para meus fantasmas. Trabalho de maneira que se possa popularizar a literatura, mas não pela via de simplificação da escrita, de escrever para os que sabem pouco.
O senhor vai acatar as mudanças definidas pelo acordo ortográfico?
Eu vou. Não sou um rebelde em relação a isso. Em Portugal, esse debate se transformou numa coisa muito nervosa. A norma da ortografia não causa preocupação nenhuma. Vamos discutir, sim, os problemas reais que fazem com que hoje não conheçamos a produção literária brasileira em Moçambique, que nos fazem tão distantes em níveis culturais.
Contra quem o senhor se rebela em Moçambique?
A situação é pouca clara. Há várias situações ocorrendo ao mesmo tempo. Há situações positivas. Estamos vivendo uma espécie de embriaguez pelo fato de termos passado por uma guerra civil de 16 anos. No fim da guerra, em 1992, tínhamos a crença de que éramos capazes de construir o resto. Fizemos a paz, fizemos um sistema político aberto, multipartidário, e algumas coisas estão mudando. Temos liberdade de imprensa, de pensamento. Mas há outras coisas que são tristes. Fazemos parte de um sistema internacional. E essa coisa de sermos mais um país como outros é uma coisa muito triste.
Daí a necessidade de buscar em uma tribo nativa um herói nacional, como em A Varanda de Frangipani?
Exatamente. Agora acabou o tempo de gerar, é preciso começar o tempo de gerir, passou esse momento épico. Eu tinha 20 anos quando Moçambique se tornou independente. Havia uma revolução. Havia toda aquela coisa de mudar o mundo, uma ilusão coletiva. Vivemos isso com uma grande pujança.
A última onda de independências na África já tem 30 anos. Ainda é possível usar a colonização como argumento para explicar a miséria?
Esse argumento do passado, essa posição vitimista, está saturado. E isso é bom. Hoje está nascendo na África uma juventude de intelectuais que pensa que essa argumentação tem de ser superada. É preciso começar a apontar para dentro, começar a responsabilizar as elites africanas. Há países que estão piores que na época da independência. E não se pode pensar que é tudo derivado da herança colonial.
Moçambique ainda está no estágio de repetir modelos?
Eu acho que os países do Terceiro Mundo em geral estão repetindo modelos. São poucas as exceções. Moçambique perdeu essa capacidade de resistir. Eu acho que nós tínhamos um posicionamento. Nos primeiros anos da independência, com Samora Machel, nos diferenciamos em relação a outros países africanos porque apontamos o dedo e criticamos o colonialismo na África feito por outro país africano, como o Marrocos, que coloniza o Saara. Essas coisas morreram. Moçambique já não é mais capaz de fazer essas denúncias, que são denúncias corajosas e inovadoras, de quem está livre e emancipado para pensar. O colonialismo não tem raça. A nossa capacidade de criticar o que acontece no Zimbábue morreu. Hoje, as relações de Estado e de convivência estratégica pesam mais. Estou dizendo isso porque o problema principal da África é que ela perdeu o sentido crítico de se avaliar em função de seus interesses. Não se questiona, não se interroga em função de seus projetos.
Qual é a opinião do senhor sobre a política externa do presidente Lula, que adota como uma das prioridades a aliança entre países pobres? No Brasil há quem veja isso como o caminho a seguir, mas também há quem acredite que é perda de tempo.
Não é uma coisa nova. Eu me recordo dos anos 60 e 70, quando havia o discurso da cooperação sul-sul. Mas o que fazia falta, e agora já existe, é que alguns países começam a ser centros importantes, como China, Índia, África do Sul e Brasil, que podem sustentar esses projetos, não como políticas de solidariedade, mas como políticas de eficiência econômica, de intercâmbio comercial, de investimentos. Angola está nascendo também como possibilidade de outro centro importante. Não acredito que se muda o mundo com doações e solidariedade, o que nas relações econômicas conta muito pouco. Acredito que hoje, pela primeira vez, no contexto internacional, alianças entre países pobres podem ser viáveis.
Quais as diferenças e semelhanças entre o sertão de Guimarães Rosa e o interior descrito nos seus livros?
O espaço de Guimarães Rosa não é um espaço físico, é o espaço de uma linguagem que ele criou. Ele criou uma literatura, não uma geografia. O sertão que ele constrói nos livros não é de ordem geográfica. É um sertão que ele inventa para reinventar um Brasil que vivia uma condição que é muito próxima da nossa aqui. Nessa altura estava se fazendo um projeto de homogeneização do Brasil, com a construção de Brasília. Havia um mundo interior, um sentimento de ameaça de alguma coisa que ia ser. E ele constrói esse outro Brasil, mais interior, que ele chama de sertão, como foco de resistência contra essa modernização do Brasil. Aqui estamos vivendo o mesmo fenômeno. Há o Moçambique interior, não o da geografia, mas o interior da alma, que está se confrontando contra essa coisa que a gente chama de globalização, uma certa descaracterização do país.
O senhor sempre faz questão de ressaltar que é moçambicano. No dia-a-dia, por ser branco, sente não ser visto como moçambicano?
Eu sinto que sou moçambicano de uma minoria. Sinto isso, o que dói. Mas não é que me sinto de outro lugar ou de outra nacionalidade. Sei que muitos amigos que são negros têm o mesmo drama que eu. Nasceram dentro da língua portuguesa, viveram uma cultura igual à minha, de língua portuguesa, e têm dificuldades de se reencontrar neste espaço comunitário. Há muito escritor moçambicano que tem o mesmo distanciamento em relação àquilo que é cultura popular. Eu me defino como um diverso, sou moçambicano, sim, esse é o eixo central, mas também sou português, e também sou brasileiro. Alguma coisa que devo à inspiração. Eu sempre dizia que a literatura era o lugar em que eu ia viver. Eu não sou só escritor. Eu só me sinto vivo e me sustento enquanto leio e escrevo neste universo, sou muito brasileiro nesse aspecto. Meus grandes mestres foram Drummond de Andrade, Jorge Amado, João Cabral de Melo Neto, Adélia Prado. Os nomes da referência são muito mais brasileiros que portugueses e moçambicanos.
O escritório de estudos de impacto ambiental é hoje o principal ganha pão do senhor?
Posso confessar que hoje eu já conseguiria sobreviver razoavelmente como escritor. Mas não quero mesmo ser só escritor, por várias razões. Uma delas é exatamente porque a escrita é uma paixão total, e eu não quero dar demasiada importância a isso. Depois, quero manter com a escrita não uma relação lúdica, mas uma relação que não depende da escrita para ganhar dinheiro. É algo que quero preservar. Quando vou à escrita e a escrita vem ter comigo, não tenho aquele drama... eu gosto de fazer muita coisa. Se um dia eu deixar de escrever, provavelmente serei feliz. Quero fazer qualquer coisa que seja criativa.
Comente a frase de um de seus personagens: "O importante não é a casa onde moramos, mas onde em nós a casa mora."
Eu estou prisioneiro de Moçambique. Mesmo que eu esteja vivendo no estrangeiro, o que não planejo fazer, estarei sempre escrevendo sobre minha pequena aldeia de Moçambique. Eu transportarei comigo, como cenário, o meu lugar, que é meu lugar de infância, que já não existe. Estou muito prisioneiro. Nasci numa cidade que depois foi arruinada pelo tempo, pela guerra. E eu tinha medo de regressar a meus lugares de infância, sabia que ia encontrar fantasmas, sabia que ia encontrar essa casa onde fui menino, que estava provavelmente irreconhecível. Primeiro, que você nunca revisita esses lugares. Esses lugares só existem na sua cabeça. Quando eu voltei à minha casa de infância, depois de 30 anos, percebi que essa casa que morava em mim estava protegida. Eu ia ter sempre casa.

África, com amor e raiva

A figura de uma mulher negra, de impenetráveis olhos azuis, dominou a quarta edição da Festa Literária de Porto de Galinhas (Fliporto), dedicada este ano à cultura africana e encerrada no último domingo no balneário pernambucano. Discreta, tentava circular sem ser notada, mas os jornalistas não lhe davam trégua. Afinal, trata-se da primeira mulher a publicar um romance em Moçambique, Paulina Chiziane, nascida há 53 anos em Manjacaze, na província de Gaza, criada no subúrbio de Maputo e com um livro publicado aqui, em 2004, pela Companhia das Letras, Niketche - Uma História de Poligamia.Ao lado do escritor Mia Couto, também entrevistado nesta edição do Cultura, Paulina representa o que há de melhor na literatura africana hoje. Ambos, de facto, se complementam e têm opiniões convergentes sobre a estagnação da cultura moçambicana por força de uma crise de identidade que levou africanos a virar agentes da sua colonização. Há, segundo Mia Couto, um certo racismo, ou uma certa hierarquia eurocêntrica que faz os escritores africanos serem colocados à sombra, impedindo que o resto do mundo saiba o que se passa no continente, assumido por seus intelectuais com um sentimento confuso de amor e raiva.Tanto em Paulina Chiziane como em Mia Couto nota-se certo desânimo pelos rumos que tomou a história de Moçambique desde a declaração de sua independência, em 1975. O escritor considera que o país perdeu sua capacidade de resistência e que nem a língua nem a cultura portuguesa ajudaram a criar uma identidade para os moçambicanos, que se voltam cada vez mais , negros e brancos, para as tradições e os mitos arcaicos. A África não se questiona mais, "perdeu o sentido crítico de se avaliar", diz Mia Couto, seguindo em coro por Paulina Chiziane, assustada com a retromania que empurra Moçambique de volta ao passado.Ambos, Mia Couto e Paulina, tinham 20 anos quando Moçambique se tornou independente. Havia, então, a esperança de uma verdadeira revolução que livrasse o país do atraso e do tacão colonialista. Algo mudou, de fato, e hoje a democracia garante direitos fundamentais como a liberdade de culto - reprimida até pelos revolucionários liderados pelo socialista Samora Machel, que viam as religiões africanas como sinal de obscurantismo. De qualquer modo, nem Mia nem Paulina imaginam suas vidas fora de Moçambique. Estão presos ao país como abelhas numa colméia, condenados a agir não só como escritores - Mia desenvolve estudos de impacto ambiental e Paulina colabora com organizações não-governamentais em projetos de promoção social da mulher, além de ter trabalhado para a Cruz Vermelha durante a guerra civil."Ainda há muito a fazer numa sociedade que reprime as mulheres", diz Paulina, que acabou de lançar, pela editora Caminho, O Alegre Canto da Perdiz, justamente a história de uma mulher negra dividida entre dois mundos, o africano e europeu, por conta de uma paixão que lhe daria um filho mulato "para aliviar o negro de sua pele como quem alivia as roupas de luto". Essa corrida ansiosa atrás do caucasiano é também explicada pela discriminação que a mulher negra sofre em sociedades patriarcais de Moçambique, mais concentradas na província da qual Paulina é oriunda. Lá, uma mulher, além de lavar e cozinhar, deve servir o marido de joelhos e largar tudo o que está fazendo quando este a chama."Reconheço que meus temas não são fáceis, pois trago para a literatura assuntos incômodos, como as conseqüências da poligamia e a prática da feitiçaria na África." Como os africanos conseguem gerir essa dualidade, de cultivar mitos arcaicos e coexistir com o mundo laico, globalizado? "Esse é justamente o tema de meu livro O Sétimo Juramento, em que conto como os africanos, brancos e negros, em momentos de desgraça, recorrem não aos santos cristãos cultuados pelos padres portugueses, mas a entidades de cultos ancestrais pagãos." No livro, o protagonista, David, é um guerrilheiro que, após a declaração de independência, vira diretor de uma fábrica, recorrendo à magia negra para resolver seus problemas.Nos livros de Paulina, nada é o que parece ser. Em Niketche, um oficial de polícia vive à margem da lei, mantendo relações com outras quatro mulheres além da sua, Rami, que, após 20 anos de casamento, descobre ser o marido polígamo. A escritora nega ter a narrativa uma proposta moralizante por pintar o policial, Tony, como pai ausente e marido negligente. Paulina diz que não é feminista. Apenas retratou o que vê em suas andanças por Moçambique: homens espancando mulheres e abandonando filhos à própria sorte. "Com a disseminação da doutrina islâmica, a poligamia cresceu no norte do país e trouxe em sua esteira conflitos com a cultura portuguesa, monogâmica, e as sociedades secretas de feitiçaria, já combatidas pelos revolucionários, que queimavam objetos de culto." E o que pedem essas pessoas aos orixás? "Coisas básicas, como pão, paz e chuva."Falar do futuro de crianças dessa nova raça de pais incógnitos, "que terão de fuçar a sua identidade nas raízes da História", observa, não é uma tarefa fácil. "A guerra acabou, passou o momento épico da revolução e cresceu a criminalidade, o desemprego e a fome" , diz, comentando a emergência de uma elite desinformada e irresponsável em Moçambique. É possível entender o desânimo de Paulina, que viu seu país destruído durante a guerra civil e acompanhou a tragédia cotidiana de seres tão magros "que não se distinguia entre eles homens e mulheres". Ela sobreviveu para contar a história, escapando por pouco de voar pelos ares, como outra mulher com quem conversava, mutilada por uma mina terrestre. Por tudo isso, ela estranhou o clima de festa da Fliporto, que reuniu este ano 161 escritores. "Para mim, é uma coisa nova um ambiente em que se fala de cultura de forma tão agradável." (X)

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Woody Allen: "Sou frívolo e fissurado por mulher"

Por: Beppe Severgnini*

No início desta entrevista, feita em um hotel à beira-mar em Barcelona, Woody Allen parecia cansado e retraído mesmo falando sobre mulheres, o objeto de sua frivolidade assumida. Disse coisas como: "Não tenho interesse pela vida real." Ou: "Só falo dos meus filmes para ajudar os produtores." Mas se animou quando a conversa derivou para a política. "Sim, gosto de política. Não como artista, mas como cidadão", declarou, dias antes da eleição de Obama.
Podemos falar sobre seu novo filme, Vicky Cristina Barcelona?
Só falo dos filmes que faço para ajudar os produtores... Mas se dependesse só de mim, eu não falaria nada. Você realiza um filme e, se ele for bom, as pessoas vão vê-lo. Não seria preciso falar dele. Mas se ele não for bom, por mais que eu fale...
Noto que alguns críticos disseram que o filme é voyeurista. Concorda?
Voyeurista? Bem, somente no sentido de que um filme é uma coisa visual. Vicky Christina Barcelona não é nada voyeurista. Tive à minha disposição um elenco principal sexualmente carismático e poderia até ter explorado essa situação para voyeurismo, com grande respaldo artístico. Mas eu fui muito, muito comedido.
O sr. diria que, com o avanço da idade, está ficando mais fascinado pela beleza feminina?
Sempre fui! Mesmo quando criancinha, eu sempre fui fissurado por mulheres. Você sabe, eu sou muito frívolo. E um de meus traços frívolos é uma obsessão pela beleza. Durante a guerra, eu podia admirar como Rita Hayworth era magnífica... E nunca deixava de admirar a beleza nas garotas de minhas salas de aula. Isso é um traço frívolo, porque exclui todos os aspectos mais valiosos e sensíveis das mulheres que não são belas.
O sr. se interessa pelas vidas amorosas de seus atores?
Não, não tenho nenhum interesse pela vida real. Isto é, eles são ótimas pessoas, mas nunca ?socializo? com meus atores. Conheço Scarlett Johansson há anos, mas jamais almocei ou jantei com ela. Se ela estivesse bem aqui em pessoa, você pensaria: "Oh, ela é muito bonita", mas quando você a fotografa, ela se torna mais ainda. Agora, Penelope Cruz na tela é incrivelmente bela, mas quando você a encontra em pessoa, ela é ainda mais bela. Quando encontrei Penelope pela primeira vez - eu a tinha visto em Volver e achei que ela era muito linda - não conseguia acreditar o quanto ela era linda. Era uma coisa meio sobrenatural, como se ela tivesse vindo de Marte ou Júpiter.
Seus filmes recentes - Match Point, Scoop - o Grande Furo e agora este - são muito agradáveis. Mas como muitos outros, sinto falta do velho Woody Allen. Você parece ter outra coisa em mente agora. Será justo dizer que o velho Woody Allen das gargalhadas acabou?
Sim, mas acho que deixei isso há muitos anos. Fiz uma certa quantidade de filmes cômicos no começo, depois comecei a fazer filmes diferentes, mais sérios. Crimes e Pecados e Hanna e Suas Irmãs se saíram muito melhor que Bananas, Um Assaltante bem Trapalhão e Tudo Que Você sempre Quis Saber sobre Sexo, mas Tinha Medo de Perguntar.
Por falar em Bananas, já pensou em fazer outro filme político?
Sim, pensei. Mas meu problema de sempre são os orçamentos. Eu trabalho com orçamentos pequenos, e fazer um filme político nos Estados Unidos, onde eu teria que fazê-lo, custaria muito mais dinheiro do que eu seria capaz de captar.
Acha que poderia fazer um filme que tivesse ampla aceitação em todo o território dos EUA? Ou Woody Allen é ligado demais a Nova York?
Nas cidades grandes e nas cidades universitárias, eu tenho boa aceitação. Mas a maioria do país não é isso. A maioria do país é o que chamamos de Estados vermelhos: Estados-Bíblia, Estados republicanos, Estados armas. E há pessoas nesses Estados que gostam de meus filmes, mas não a maioria. Não que elas não gostem de cinema; meus filmes nem sequer estariam em seu radar.
Não acha que Sarah Palin (que foi colega de chapa do candidato presidencial republicano John McCain) daria uma personagem fantástica para um filme de Woody Allen?
Oh, ela é divertida. Mas já foi bem explorada nas sátiras da televisão. Ela foi uma escolha estúpida, nada que mostrasse muito respeito pelos Estados Unidos. Serviu apenas para dar uma pequena ajuda momentânea à campanha, pelas tiradas divertidas. Mas acho que os americanos, por mais ridículos que tenham sido nas eleições anteriores, aprenderam alguma coisa.
Você gosta de política? Nós estávamos falando de cinema e você parecia cansado. Agora parece mais......
mais animado?
Isso. Mais interessado.
Sim, gosto de política. Não estou interessado em política como artista, mas como cidadão. Como sabe, eu voto. Contribuo com dinheiro. Fico feliz de fazer campanha por alguém.
Al Gore teria sido bom presidente?
Sim, acho que ele teria sido um bom presidente. Acho que é um homem inteligente e foi um mau candidato. Ele não teve carisma, não teve energia para concorrer, ele não conseguia focar. Mas daria um presidente muito bom porque é uma pessoa decente e é favor de uma agenda democrática, liberal.
Se pudesse voltar no tempo, gostaria de se tornar um grande tocador de clarineta, um ícone dos esportes, um grande escritor ou George W. Bush? Qual seria a sua escolha?
Um grande músico, pois a música supera tudo. É emocional e todo mundo adora música.
* Esta entrevista foi publicada originalmente no jornal The New York Times.