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Cascatas da Namaacha: sete anos depois da seca

terça-feira, 18 de novembro de 2008

São muitas as verdades num mundo de natureza vária

O lançamento simultâneo em Portugal, Brasil e Moçambique de Venenos de Deus, Remédios do Diabo é por si uma boa notícia para os que se interessam pelos rumos da ficção em língua portuguesa, pois sugere um avanço na aproximação entre universos ainda tão distantes a despeito das relações historicamente construídas. E confirma entre nós o reconhecimento de Mia Couto. Bastante conhecido nos círculos portugueses e traduzido em tantas línguas, o mais prestigiado escritor moçambicano precisou de mais tempo para que o mercado editorial brasileiro levasse em conta, por exemplo, o grande interesse despertado entre o público universitário, o único segmento que, desde os anos 90, tinha acesso a seu trabalho.
Nos últimos anos, felizmente, abriu-se um espaço para as literaturas africanas e o autor e seus textos vêm merecendo maior atenção, das editoras, da crítica literária, da mídia. Em 2007, O Outro Pé da Sereia ficou entre os dez finalistas do Prêmio Portugal Telecom e foi o vencedor do Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura.
Em Venenos de Deus, Remédios do Diabo, o sexto romance, Mia Couto, como aliás não é raro em sua trajetória, inicia o processo de sedução já no título. Assim, depois de Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra e O Outro Pé da Sereia, para citarmos apenas dois de seus livros, ele vem nos provocar com Venenos de Deus, Remédios do Diabo, que tem ainda como subtítulo As Incuráveis Vidas de Vila Cacimba. Num jogo pautado pela ironia, o peso da contradição será dominante na narrativa que se desenvolve sob uma atmosfera um tanto nebulosa, montada sobre diálogos que tendem a desnortear o leitor, transmitindo-lhe a idéia de que está diante não só de uma terra estrangeira, mas de um mundo que requer outros sentidos para ser penetrado. A opacidade não é defeito, nem é gratuita, é constitutiva de um projeto.
Uma vez mais, o espaço tem grande significado na narrativa de Mia. Vila Cacimba, a aldeia onde se desenrola a trama, pode ser encarada como uma metonímia de Moçambique, talvez do continente africano. Ao caracterizar o médico como português, insinua-se que os séculos de colonialismo não permitiram uma real aproximação entre os patrimônios culturais, pondo em causa o argumento luso-tropicalista que de vez em quando ressurge. Note-se, entretanto, que o essencial não é propriamente falar de sua terra e sim trazer à pauta as muitas verdades que se confrontam num mundo povoado por misturas de natureza vária. Para isso, o autor baralha as personagens, colocando em movimento características que dificultam a sua apreensão, fazendo-as transitar num quadro de significados móveis, em que as coisas podem ser e não ser. E, como o médico estrangeiro, somos levados a um estado de dúvida que também desafia a nossa capacidade de leitura da realidade. Em síntese, da coexistência de mundos, de diferentes tempos e códigos, trata o autor, abordando um problema fulcral em nossos dias.
No conjunto da obra, esse romance se destaca por uma economia narrativa orientada pela concisão, em contraste com a tendência para a exuberância de outros textos. Aqui é tudo mais enxuto: o enredo concentra-se em Vila Cacimba, num curto espaço temporal, envolvendo poucas personagens: o médico português Sidônio Rosa, os casais Bartolomeu Sozinho e Dona Munda, Suacelência e Esposinha. Sobre as suas vidas, paira a figura de Deolinda, apresentada inicialmente como a filha de Bartolomeu e Dona Munda, por quem Sidônio se apaixonara em Lisboa, razão de sua vinda para a África. Nos nomes das personagens, projetam-se marcas de seu modo de estar no mundo, o que remete a certa atmosfera fabular, reiterando um traço indiscutível na obra de Mia: a evocação das tradições orais, matriz dominante no patrimônio cultural de seu país.
Em se tratando do autor, todavia, a combinação dos nomes leva também ao processo de construção da linguagem, sempre merecedor de sua atenção. Se renuncia à constância dos neologismos, um dos pontos de convergência com a obra de Guimarães Rosa, o escritor não deixa de cortejar a poesia na escrita da ficção, cultivando uma espécie de aderência entre o signo e o referente, como se observa não só relativamente às personagens, como também ao lugar. É fato que daí pode resultar a sensação de obviedade mas não se deve esquecer que a coincidência do idioma está longe de significar correspondência de contextos culturais. Vale, então, pensar no procedimento em alusão ao fundamento da poesia, ao desejo de recuperar a unidade perdida, de grande sentido numa sociedade tocada pela desagregação.
O recurso a uma forma de sabedoria popular é outro dado a confirmar a identificação com as tradições orais. Contrapondo-se à contenção no domínio dos neologismos, registra-se a presença de frases que trazem um tom de aforismo, como que procurando sintetizar uma verdade consagrada. Ressalte-se, porém, que no romance as sínteses formuladas pelas personagens atentam contra o senso comum, instituindo uma espécie de contraprovérbio. Em Mia Couto isso se liga à desautomatização do olhar, ato imprescindível para a compreensão do universo que a sua ficção nos traz. É um de seus modos de assegurar à literatura a marca do insólito, uma de suas funções e de seus encantos.
Por: Rita Chaves (professora de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na USP)

"Temos apenas um nome diferente"


Por: Leonencio Nossa (Jornal O Estado de São Paulo)
O escritor e biólogo moçambicano Mia Couto, de 53 anos, avisa: não é fácil encontrar o escritório onde desenvolve estudos de impacto ambiental, na Av. Mártires da Machava, região central de Maputo. Há 33 anos, os letreiros da cidade à beira do Oceano Índico deixaram de exibir nomes de navegadores portugueses para fazer referência a episódios da história da libertação dos países africanos, a líderes comunistas - como Ho Chi Min e Mao Tsé-Tung - e a heróis terceiro-mundistas como Eduardo Mondlane e Julius Nyerere. Para o autor de Terra Sonâmbula, a mudança se limitou à nomenclatura dos postes.Desde a independência, anunciada no Estádio da Machava por Samora Machel, em 1975, Mia Couto, um dos jovens presentes à festa, viu dois países tomarem rumos diferentes. O Moçambique real não atendeu às expectativas de quem esperava o fim da miséria e repetiu fórmulas políticas e sociais contestadas. Da caneta e do bloco de anotações do jornalista surgiu outro Moçambique, um espaço onde a língua portuguesa se renovou e negros e brancos usam a memória e a magia como formas de resistência. "Nós pensávamos que iríamos inventar um país com um sistema próprio, fundamentado na cultura moçambicana, e agora percebemos que temos um país como os outros. Só temos um nome diferente", diz.As construções portuguesas em estado precário, os mercados enfumaçados, as ruas que remetem a uma cidade brasileira dos anos 50 e a tranqüilidade e a descontração das pessoas nas calçadas não destoam, porém, da própria figura de Mia Couto e do clima de mistério de seus livros. Ele conta que não soa como ficção em Moçambique alguém dizer que um homem virou uma árvore. De camiseta e calça jeans, este nome certo nas listas futuras de candidatos ao Prêmio Nobel revela, bem-humorado, que não vive só de literatura e como encara o ofício literário: "Não sou apenas escritor, também faço coisas sérias."
O secretário da Academia Sueca, entidade responsável pelo Nobel, afirmou que os EUA são um país insular e ignorante para competir com a Europa. Onde fica o escritor africano ou latino-americano nessa disputa de poder cultural?
Como chegou até mim, o debate incluía só escritores europeus e americanos. Parece que o resto do mundo estava oculto. O problema é que essas generalizações levam sempre a erros gravíssimos. Os europeus são tantos e tão diversos! Nós todos somos tantos e tão diversos! Quem são os africanos? Que tipo de generalização eu posso produzir sobre os africanos? Há o estereótipo de que os africanos têm essa pujança literária e histórias para contar. Por que os europeus também não têm? Tenho dificuldade em entender essa espécie de marca de nascimento. A verdade é que o gênero do romance nasceu na Europa, mas, mesmo lá, sofreu diversas revisões. Temos a contribuição dos árabes na poesia, no conto. É um erro tentar classificações.
Ser ignorado é pior que ser atacado?
Sim. Nós somos simplesmente colocados na sombra, à margem. Há uma completa omissão. Não se trata de engano. Parte de gente que tem responsabilidade intelectual e aprecia o panorama literário internacional. É uma espécie de condenação que vai durar muito tempo. Quando nós pensamos que já foi, vem essa espécie de reincidência. Há um certo racismo no sentido cultural, uma certa hierarquia eurocêntrica.
O senhor vê alguma dificuldade especial nesse panorama para a literatura africana de língua portuguesa?
Estamos na periferia da periferia. A literatura africana só é reconhecida na Europa se corresponder a esse estereótipo do que é a África, algo exótico, de um velho contando histórias perto de uma fogueira, dos feiticeiros, dos curandeiros. São estereótipos a que um escritor quase tem de corresponder para ser aceito na Europa. E só a partir da Europa é que é possível chegar ao Brasil. Se eu não fosse reconhecido em Portugal, teria dificuldades de ser reconhecido em outros lugares. Essa triangulação é uma herança colonial. A língua portuguesa é a última das línguas. Eu só existo se sou traduzido para o francês.
Os estereótipos da época colonial permanecem? Isso não mudou?
Não. De certa maneira ficou mais grave porque os próprios africanos se transformaram em agentes da sua colonização. Os africanos, para abrir as portas, começaram a construir os seus pilares de identidade com esses estereótipos. Os africanos têm jeito para dançar, são alegres e têm maiores relações com os mortos. Esses estereótipos foram incorporados e construídos como modos de auto-afirmação. É alguém que se olha para o espelho, mas um espelho inventado por outro.
Mas em Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra o senhor cria um universitário que vai atrás dos contadores de história e dos feiticeiros, se envolve com os mortos. Essa busca é autobiográfica?
Um pouco, sem que eu percebesse. Tem a ver com o fato de eu ser filho de imigrantes. Meus pais vieram muito jovens para Moçambique. Eu não conheci avós e tios. Faço essa alusão à travessia do tempo. A travessia do rio não é no sentido geográfico, mas no sentido da infância. E ali a gente descobre que toda a história foi inventada, a história de sua infância, de sua vida. Tive de inventar meu país, meus pais tiveram de se desdobrar em avós, em bisavós, para eu ter esse sentido de eternidade. Sei que aquilo foi inventado. Sou natural da Beira, uma cidade que teve um processo de mestiçagem muito mais profundo. Quando eu saí da Beira, já aos 16, para viver em Maputo, pensei que tinha vindo para outro país, porque esta cidade é muito arrumada e hierarquizada em termos sociais. Mestiços e mulatos tinham uma ascensão social, nós éramos muito isolados. Em princípio, havia certo drama existencial. Eu descobri que tinha de inventar minha própria identidade.
Ao expressar a cultura de Moçambique de forma sofisticada, o senhor não abre mão de dialogar com seu país, onde há poucas livrarias?
Não vivo isso como angústia. O que eu faço é trabalhar com grupos de teatro, converto meus textos para o teatro. Algumas das minhas peças foram traduzidas do português para línguas locais. Trabalho para rádio e televisão, escrevo para jornais. Tenho uma intervenção pública. Não posso ficar preso ao livro. Mas meu trabalho não é facilitar ou simplificar. Quando faço um livro, é com a complexidade que tem de ter. Não escrevo para o povo. Escrevo para mim, para meus fantasmas. Trabalho de maneira que se possa popularizar a literatura, mas não pela via de simplificação da escrita, de escrever para os que sabem pouco.
O senhor vai acatar as mudanças definidas pelo acordo ortográfico?
Eu vou. Não sou um rebelde em relação a isso. Em Portugal, esse debate se transformou numa coisa muito nervosa. A norma da ortografia não causa preocupação nenhuma. Vamos discutir, sim, os problemas reais que fazem com que hoje não conheçamos a produção literária brasileira em Moçambique, que nos fazem tão distantes em níveis culturais.
Contra quem o senhor se rebela em Moçambique?
A situação é pouca clara. Há várias situações ocorrendo ao mesmo tempo. Há situações positivas. Estamos vivendo uma espécie de embriaguez pelo fato de termos passado por uma guerra civil de 16 anos. No fim da guerra, em 1992, tínhamos a crença de que éramos capazes de construir o resto. Fizemos a paz, fizemos um sistema político aberto, multipartidário, e algumas coisas estão mudando. Temos liberdade de imprensa, de pensamento. Mas há outras coisas que são tristes. Fazemos parte de um sistema internacional. E essa coisa de sermos mais um país como outros é uma coisa muito triste.
Daí a necessidade de buscar em uma tribo nativa um herói nacional, como em A Varanda de Frangipani?
Exatamente. Agora acabou o tempo de gerar, é preciso começar o tempo de gerir, passou esse momento épico. Eu tinha 20 anos quando Moçambique se tornou independente. Havia uma revolução. Havia toda aquela coisa de mudar o mundo, uma ilusão coletiva. Vivemos isso com uma grande pujança.
A última onda de independências na África já tem 30 anos. Ainda é possível usar a colonização como argumento para explicar a miséria?
Esse argumento do passado, essa posição vitimista, está saturado. E isso é bom. Hoje está nascendo na África uma juventude de intelectuais que pensa que essa argumentação tem de ser superada. É preciso começar a apontar para dentro, começar a responsabilizar as elites africanas. Há países que estão piores que na época da independência. E não se pode pensar que é tudo derivado da herança colonial.
Moçambique ainda está no estágio de repetir modelos?
Eu acho que os países do Terceiro Mundo em geral estão repetindo modelos. São poucas as exceções. Moçambique perdeu essa capacidade de resistir. Eu acho que nós tínhamos um posicionamento. Nos primeiros anos da independência, com Samora Machel, nos diferenciamos em relação a outros países africanos porque apontamos o dedo e criticamos o colonialismo na África feito por outro país africano, como o Marrocos, que coloniza o Saara. Essas coisas morreram. Moçambique já não é mais capaz de fazer essas denúncias, que são denúncias corajosas e inovadoras, de quem está livre e emancipado para pensar. O colonialismo não tem raça. A nossa capacidade de criticar o que acontece no Zimbábue morreu. Hoje, as relações de Estado e de convivência estratégica pesam mais. Estou dizendo isso porque o problema principal da África é que ela perdeu o sentido crítico de se avaliar em função de seus interesses. Não se questiona, não se interroga em função de seus projetos.
Qual é a opinião do senhor sobre a política externa do presidente Lula, que adota como uma das prioridades a aliança entre países pobres? No Brasil há quem veja isso como o caminho a seguir, mas também há quem acredite que é perda de tempo.
Não é uma coisa nova. Eu me recordo dos anos 60 e 70, quando havia o discurso da cooperação sul-sul. Mas o que fazia falta, e agora já existe, é que alguns países começam a ser centros importantes, como China, Índia, África do Sul e Brasil, que podem sustentar esses projetos, não como políticas de solidariedade, mas como políticas de eficiência econômica, de intercâmbio comercial, de investimentos. Angola está nascendo também como possibilidade de outro centro importante. Não acredito que se muda o mundo com doações e solidariedade, o que nas relações econômicas conta muito pouco. Acredito que hoje, pela primeira vez, no contexto internacional, alianças entre países pobres podem ser viáveis.
Quais as diferenças e semelhanças entre o sertão de Guimarães Rosa e o interior descrito nos seus livros?
O espaço de Guimarães Rosa não é um espaço físico, é o espaço de uma linguagem que ele criou. Ele criou uma literatura, não uma geografia. O sertão que ele constrói nos livros não é de ordem geográfica. É um sertão que ele inventa para reinventar um Brasil que vivia uma condição que é muito próxima da nossa aqui. Nessa altura estava se fazendo um projeto de homogeneização do Brasil, com a construção de Brasília. Havia um mundo interior, um sentimento de ameaça de alguma coisa que ia ser. E ele constrói esse outro Brasil, mais interior, que ele chama de sertão, como foco de resistência contra essa modernização do Brasil. Aqui estamos vivendo o mesmo fenômeno. Há o Moçambique interior, não o da geografia, mas o interior da alma, que está se confrontando contra essa coisa que a gente chama de globalização, uma certa descaracterização do país.
O senhor sempre faz questão de ressaltar que é moçambicano. No dia-a-dia, por ser branco, sente não ser visto como moçambicano?
Eu sinto que sou moçambicano de uma minoria. Sinto isso, o que dói. Mas não é que me sinto de outro lugar ou de outra nacionalidade. Sei que muitos amigos que são negros têm o mesmo drama que eu. Nasceram dentro da língua portuguesa, viveram uma cultura igual à minha, de língua portuguesa, e têm dificuldades de se reencontrar neste espaço comunitário. Há muito escritor moçambicano que tem o mesmo distanciamento em relação àquilo que é cultura popular. Eu me defino como um diverso, sou moçambicano, sim, esse é o eixo central, mas também sou português, e também sou brasileiro. Alguma coisa que devo à inspiração. Eu sempre dizia que a literatura era o lugar em que eu ia viver. Eu não sou só escritor. Eu só me sinto vivo e me sustento enquanto leio e escrevo neste universo, sou muito brasileiro nesse aspecto. Meus grandes mestres foram Drummond de Andrade, Jorge Amado, João Cabral de Melo Neto, Adélia Prado. Os nomes da referência são muito mais brasileiros que portugueses e moçambicanos.
O escritório de estudos de impacto ambiental é hoje o principal ganha pão do senhor?
Posso confessar que hoje eu já conseguiria sobreviver razoavelmente como escritor. Mas não quero mesmo ser só escritor, por várias razões. Uma delas é exatamente porque a escrita é uma paixão total, e eu não quero dar demasiada importância a isso. Depois, quero manter com a escrita não uma relação lúdica, mas uma relação que não depende da escrita para ganhar dinheiro. É algo que quero preservar. Quando vou à escrita e a escrita vem ter comigo, não tenho aquele drama... eu gosto de fazer muita coisa. Se um dia eu deixar de escrever, provavelmente serei feliz. Quero fazer qualquer coisa que seja criativa.
Comente a frase de um de seus personagens: "O importante não é a casa onde moramos, mas onde em nós a casa mora."
Eu estou prisioneiro de Moçambique. Mesmo que eu esteja vivendo no estrangeiro, o que não planejo fazer, estarei sempre escrevendo sobre minha pequena aldeia de Moçambique. Eu transportarei comigo, como cenário, o meu lugar, que é meu lugar de infância, que já não existe. Estou muito prisioneiro. Nasci numa cidade que depois foi arruinada pelo tempo, pela guerra. E eu tinha medo de regressar a meus lugares de infância, sabia que ia encontrar fantasmas, sabia que ia encontrar essa casa onde fui menino, que estava provavelmente irreconhecível. Primeiro, que você nunca revisita esses lugares. Esses lugares só existem na sua cabeça. Quando eu voltei à minha casa de infância, depois de 30 anos, percebi que essa casa que morava em mim estava protegida. Eu ia ter sempre casa.

África, com amor e raiva

A figura de uma mulher negra, de impenetráveis olhos azuis, dominou a quarta edição da Festa Literária de Porto de Galinhas (Fliporto), dedicada este ano à cultura africana e encerrada no último domingo no balneário pernambucano. Discreta, tentava circular sem ser notada, mas os jornalistas não lhe davam trégua. Afinal, trata-se da primeira mulher a publicar um romance em Moçambique, Paulina Chiziane, nascida há 53 anos em Manjacaze, na província de Gaza, criada no subúrbio de Maputo e com um livro publicado aqui, em 2004, pela Companhia das Letras, Niketche - Uma História de Poligamia.Ao lado do escritor Mia Couto, também entrevistado nesta edição do Cultura, Paulina representa o que há de melhor na literatura africana hoje. Ambos, de facto, se complementam e têm opiniões convergentes sobre a estagnação da cultura moçambicana por força de uma crise de identidade que levou africanos a virar agentes da sua colonização. Há, segundo Mia Couto, um certo racismo, ou uma certa hierarquia eurocêntrica que faz os escritores africanos serem colocados à sombra, impedindo que o resto do mundo saiba o que se passa no continente, assumido por seus intelectuais com um sentimento confuso de amor e raiva.Tanto em Paulina Chiziane como em Mia Couto nota-se certo desânimo pelos rumos que tomou a história de Moçambique desde a declaração de sua independência, em 1975. O escritor considera que o país perdeu sua capacidade de resistência e que nem a língua nem a cultura portuguesa ajudaram a criar uma identidade para os moçambicanos, que se voltam cada vez mais , negros e brancos, para as tradições e os mitos arcaicos. A África não se questiona mais, "perdeu o sentido crítico de se avaliar", diz Mia Couto, seguindo em coro por Paulina Chiziane, assustada com a retromania que empurra Moçambique de volta ao passado.Ambos, Mia Couto e Paulina, tinham 20 anos quando Moçambique se tornou independente. Havia, então, a esperança de uma verdadeira revolução que livrasse o país do atraso e do tacão colonialista. Algo mudou, de fato, e hoje a democracia garante direitos fundamentais como a liberdade de culto - reprimida até pelos revolucionários liderados pelo socialista Samora Machel, que viam as religiões africanas como sinal de obscurantismo. De qualquer modo, nem Mia nem Paulina imaginam suas vidas fora de Moçambique. Estão presos ao país como abelhas numa colméia, condenados a agir não só como escritores - Mia desenvolve estudos de impacto ambiental e Paulina colabora com organizações não-governamentais em projetos de promoção social da mulher, além de ter trabalhado para a Cruz Vermelha durante a guerra civil."Ainda há muito a fazer numa sociedade que reprime as mulheres", diz Paulina, que acabou de lançar, pela editora Caminho, O Alegre Canto da Perdiz, justamente a história de uma mulher negra dividida entre dois mundos, o africano e europeu, por conta de uma paixão que lhe daria um filho mulato "para aliviar o negro de sua pele como quem alivia as roupas de luto". Essa corrida ansiosa atrás do caucasiano é também explicada pela discriminação que a mulher negra sofre em sociedades patriarcais de Moçambique, mais concentradas na província da qual Paulina é oriunda. Lá, uma mulher, além de lavar e cozinhar, deve servir o marido de joelhos e largar tudo o que está fazendo quando este a chama."Reconheço que meus temas não são fáceis, pois trago para a literatura assuntos incômodos, como as conseqüências da poligamia e a prática da feitiçaria na África." Como os africanos conseguem gerir essa dualidade, de cultivar mitos arcaicos e coexistir com o mundo laico, globalizado? "Esse é justamente o tema de meu livro O Sétimo Juramento, em que conto como os africanos, brancos e negros, em momentos de desgraça, recorrem não aos santos cristãos cultuados pelos padres portugueses, mas a entidades de cultos ancestrais pagãos." No livro, o protagonista, David, é um guerrilheiro que, após a declaração de independência, vira diretor de uma fábrica, recorrendo à magia negra para resolver seus problemas.Nos livros de Paulina, nada é o que parece ser. Em Niketche, um oficial de polícia vive à margem da lei, mantendo relações com outras quatro mulheres além da sua, Rami, que, após 20 anos de casamento, descobre ser o marido polígamo. A escritora nega ter a narrativa uma proposta moralizante por pintar o policial, Tony, como pai ausente e marido negligente. Paulina diz que não é feminista. Apenas retratou o que vê em suas andanças por Moçambique: homens espancando mulheres e abandonando filhos à própria sorte. "Com a disseminação da doutrina islâmica, a poligamia cresceu no norte do país e trouxe em sua esteira conflitos com a cultura portuguesa, monogâmica, e as sociedades secretas de feitiçaria, já combatidas pelos revolucionários, que queimavam objetos de culto." E o que pedem essas pessoas aos orixás? "Coisas básicas, como pão, paz e chuva."Falar do futuro de crianças dessa nova raça de pais incógnitos, "que terão de fuçar a sua identidade nas raízes da História", observa, não é uma tarefa fácil. "A guerra acabou, passou o momento épico da revolução e cresceu a criminalidade, o desemprego e a fome" , diz, comentando a emergência de uma elite desinformada e irresponsável em Moçambique. É possível entender o desânimo de Paulina, que viu seu país destruído durante a guerra civil e acompanhou a tragédia cotidiana de seres tão magros "que não se distinguia entre eles homens e mulheres". Ela sobreviveu para contar a história, escapando por pouco de voar pelos ares, como outra mulher com quem conversava, mutilada por uma mina terrestre. Por tudo isso, ela estranhou o clima de festa da Fliporto, que reuniu este ano 161 escritores. "Para mim, é uma coisa nova um ambiente em que se fala de cultura de forma tão agradável." (X)

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Woody Allen: "Sou frívolo e fissurado por mulher"

Por: Beppe Severgnini*

No início desta entrevista, feita em um hotel à beira-mar em Barcelona, Woody Allen parecia cansado e retraído mesmo falando sobre mulheres, o objeto de sua frivolidade assumida. Disse coisas como: "Não tenho interesse pela vida real." Ou: "Só falo dos meus filmes para ajudar os produtores." Mas se animou quando a conversa derivou para a política. "Sim, gosto de política. Não como artista, mas como cidadão", declarou, dias antes da eleição de Obama.
Podemos falar sobre seu novo filme, Vicky Cristina Barcelona?
Só falo dos filmes que faço para ajudar os produtores... Mas se dependesse só de mim, eu não falaria nada. Você realiza um filme e, se ele for bom, as pessoas vão vê-lo. Não seria preciso falar dele. Mas se ele não for bom, por mais que eu fale...
Noto que alguns críticos disseram que o filme é voyeurista. Concorda?
Voyeurista? Bem, somente no sentido de que um filme é uma coisa visual. Vicky Christina Barcelona não é nada voyeurista. Tive à minha disposição um elenco principal sexualmente carismático e poderia até ter explorado essa situação para voyeurismo, com grande respaldo artístico. Mas eu fui muito, muito comedido.
O sr. diria que, com o avanço da idade, está ficando mais fascinado pela beleza feminina?
Sempre fui! Mesmo quando criancinha, eu sempre fui fissurado por mulheres. Você sabe, eu sou muito frívolo. E um de meus traços frívolos é uma obsessão pela beleza. Durante a guerra, eu podia admirar como Rita Hayworth era magnífica... E nunca deixava de admirar a beleza nas garotas de minhas salas de aula. Isso é um traço frívolo, porque exclui todos os aspectos mais valiosos e sensíveis das mulheres que não são belas.
O sr. se interessa pelas vidas amorosas de seus atores?
Não, não tenho nenhum interesse pela vida real. Isto é, eles são ótimas pessoas, mas nunca ?socializo? com meus atores. Conheço Scarlett Johansson há anos, mas jamais almocei ou jantei com ela. Se ela estivesse bem aqui em pessoa, você pensaria: "Oh, ela é muito bonita", mas quando você a fotografa, ela se torna mais ainda. Agora, Penelope Cruz na tela é incrivelmente bela, mas quando você a encontra em pessoa, ela é ainda mais bela. Quando encontrei Penelope pela primeira vez - eu a tinha visto em Volver e achei que ela era muito linda - não conseguia acreditar o quanto ela era linda. Era uma coisa meio sobrenatural, como se ela tivesse vindo de Marte ou Júpiter.
Seus filmes recentes - Match Point, Scoop - o Grande Furo e agora este - são muito agradáveis. Mas como muitos outros, sinto falta do velho Woody Allen. Você parece ter outra coisa em mente agora. Será justo dizer que o velho Woody Allen das gargalhadas acabou?
Sim, mas acho que deixei isso há muitos anos. Fiz uma certa quantidade de filmes cômicos no começo, depois comecei a fazer filmes diferentes, mais sérios. Crimes e Pecados e Hanna e Suas Irmãs se saíram muito melhor que Bananas, Um Assaltante bem Trapalhão e Tudo Que Você sempre Quis Saber sobre Sexo, mas Tinha Medo de Perguntar.
Por falar em Bananas, já pensou em fazer outro filme político?
Sim, pensei. Mas meu problema de sempre são os orçamentos. Eu trabalho com orçamentos pequenos, e fazer um filme político nos Estados Unidos, onde eu teria que fazê-lo, custaria muito mais dinheiro do que eu seria capaz de captar.
Acha que poderia fazer um filme que tivesse ampla aceitação em todo o território dos EUA? Ou Woody Allen é ligado demais a Nova York?
Nas cidades grandes e nas cidades universitárias, eu tenho boa aceitação. Mas a maioria do país não é isso. A maioria do país é o que chamamos de Estados vermelhos: Estados-Bíblia, Estados republicanos, Estados armas. E há pessoas nesses Estados que gostam de meus filmes, mas não a maioria. Não que elas não gostem de cinema; meus filmes nem sequer estariam em seu radar.
Não acha que Sarah Palin (que foi colega de chapa do candidato presidencial republicano John McCain) daria uma personagem fantástica para um filme de Woody Allen?
Oh, ela é divertida. Mas já foi bem explorada nas sátiras da televisão. Ela foi uma escolha estúpida, nada que mostrasse muito respeito pelos Estados Unidos. Serviu apenas para dar uma pequena ajuda momentânea à campanha, pelas tiradas divertidas. Mas acho que os americanos, por mais ridículos que tenham sido nas eleições anteriores, aprenderam alguma coisa.
Você gosta de política? Nós estávamos falando de cinema e você parecia cansado. Agora parece mais......
mais animado?
Isso. Mais interessado.
Sim, gosto de política. Não estou interessado em política como artista, mas como cidadão. Como sabe, eu voto. Contribuo com dinheiro. Fico feliz de fazer campanha por alguém.
Al Gore teria sido bom presidente?
Sim, acho que ele teria sido um bom presidente. Acho que é um homem inteligente e foi um mau candidato. Ele não teve carisma, não teve energia para concorrer, ele não conseguia focar. Mas daria um presidente muito bom porque é uma pessoa decente e é favor de uma agenda democrática, liberal.
Se pudesse voltar no tempo, gostaria de se tornar um grande tocador de clarineta, um ícone dos esportes, um grande escritor ou George W. Bush? Qual seria a sua escolha?
Um grande músico, pois a música supera tudo. É emocional e todo mundo adora música.
* Esta entrevista foi publicada originalmente no jornal The New York Times.

Homem de Sentimentos fortes

Iniciado em 1971, o livro Conversas com Woody Allen (Cosac Naify, 512 págs.) do jornalista norte-americano Eric Lax, cobre metade da vida do mais engraçado cineasta dos EUA, que abandonou o trem de Fellini para pegar o vagão de Bergman e embarcar no chamado cinema "sério", ao filmar, em 1978, o hoje clássico Interiores, seu rito de passagem. Woody Allen, diretor de Vicky Cristina Barcelona, confirma em sua entrevista que é a pessoa menos indicada para falar de seus filmes. E também que não faz o mínimo esforço para acabar com a fama de anti-social.
Apenas uma pessoa, o jornalista Eric Lax, seu biógrafo, parece capaz de arrancar dele declarações que joguem alguma luz sobre esse autor que pouco se importa com o público, chegando a usar como título de trabalho de um seus mais badalados filme, Annie Hall (Noivo Neurótico, Noiva Nervosa) a palavra Anedonia (que significa incapacidade de sentir prazer). Lax, em sua entrevista exclusiva ao Estado, garante que, apesar do título exótico, Allen não é uma pessoa indiferente. "Na realidade, é um homem de sentimentos fortes, embora controlado", define o jornalista.
Lax diz que todas as entrevistas foram editadas sem cortes, embora admita ter aceitado sugestões de Allen e inserido alguns esclarecimentos para que suas declarações não parecessem ininteligíveis como as de Casey Stengel, o treinador do New York Yankees.
O título original de Annie Hall (Noivo Neurótico, Noiva Nervosa), era Anhedonia (Anedonia), que significa a incapacidade de sentir prazer, algo muito próximo à imagem que se tem de Woody Allen, considerando seus filmes.
Você classificaria seu biografado de indiferente?
Como muitas pessoas engraçadas, Woody tem uma visão melancólica da vida. Não diria que é indiferente. Na realidade, é um homem de sentimentos fortes, embora controlado. Ele não se permite sentimentos extremos de euforia ou infelicidade. Ao contrário, move-se dentro de uma faixa estreita de emoção, que o protege e permite que se concentre em seu trabalho. Nunca encontrei em minha vida alguém tão disciplinado. Não importa como se sinta, ele se obriga todos os dias a escrever e a estudar clarineta. Essa disciplina é uma das razões de sua prolífica produção.
Entre os filmes favoritos de Woody Allen estão A Rosa Púrpura do Cairo, Match Point e Maridos e Esposas. E você, quais são os filmes que considera os mais reveladores de sua personalidade?
Todos os três filmes citados representam parte da filosofia pessoal de Woody. A Rosa Púrpura do Cairo trata da diferença entre a fantasia, como mostrada nos filmes vistos pela personagem de Mia Farrow, Cecília, e a realidade. Seria maravilhoso se o galã saísse da tela e Cecília pudesse fugir com ele, mas isso é apenas um sonho. A realidade é que Cecília vive em plena Depressão americana dos anos 1930 e é casada com um um homem egoísta e rude. Já Match Point traduz sua desconfiança de que não há nenhum Deus olhando por nós para nos recompensar ou punir. Se escolhemos matar alguém e não formos pegos pela polícia, então podemos seguir em frente. Woody argumentaria, contudo, que, mesmo diante de um universo indiferente, devemos agir dentro da lei, porque isso dá satisfação pessoal e, se assim não fosse, seria o caos. Ele diria: faça o bem, mesmo que não receba nenhuma recompensa. Mas fazer o bem por conta própria é provavelmente mais difícil do que por conta de uma ameaça religiosa. O Sonho de Cassandra, creio, é uma espécie de conclusão de Match Point: alguém comete um crime, mas sua consciência não o deixa em paz.
Alguns críticos ficaram frustrados com as poucas revelações da vida pessoal de Allen em seu livro. Por que evitou perguntas pessoais em seu livro?
Escrevi uma biografia de Woody há 17 anos e publiquei uma edição atualizada quando ele e Soon Yi Previn se casaram. Esse livro está cheio de detalhes da vida pessoal de Woody. Já Conversas com Woody Allen não é uma biografia, mas um olhar sobre a evolução do artista nos últimos 36 anos. Versa sobre um diretor e sua obra. Concluímos, ele e eu, que seria melhor organizá-lo do jeito que está, acompanhando ano a ano essa produção, do que esperar para rememorar fatos que aconteceram, 20, 30 ou 50 anos antes. Este livro é como um álbum em que cada conversa foi registrada na época, sem modificações, permitindo que o leitor possa imaginar como Woody se sentia, por exemplo, nos anos 1970, quando começou.
Quando você o conheceu, em 1971, Woody disse que havia algo de imaturo, de segunda classe, na comédia, quando comparada ao drama. Em sua opinião, o que fez, então, o diretor escolher o primeiro gênero em sua estréia?
Ele era realmente bom na comédia e foi assim que construiu sua carreira. Esperava que os estúdios, depois que ele tivesse feito um nome como cômico, financiassem seus dramas, o que, de fato, acabou acontecendo.Depois da biografia de Woody Allen, você publicou alguns outros livros no gênero, entre eles as vidas de Humphrey Bogart e Paul Newman.
O que é mais difícil: escrever sobre um ídolo morto ou um autor vivo?
A biografia de uma pessoa viva é, por definição, incompleta e ninguém, incluindo aí o biografado, sabe o que acontecerá no futuro. Então, podem acontecer reviravoltas que venham a desmenti-la. Se o sujeito está morto, então o escritor tem as entrevistas e documentos para trabalhar e a história pode ser vista como um todo. Woody jamais reclamou de nenhuma revelação que tenha feito sobre sua vida, mesmo a de que casou virgem, aos 20 anos. Verifiquei pelo menos duas vezes cada informação sobre sua vida.
Allen reconheceu que você é uma das poucas pessoas que realmente o conhecem bem. O que o fez mudar de idéia a seu respeito, considerando que sua primeira entrevista com ele foi um desastre?
Conversas correm bem quando ambos estão confortáveis. Ele era uma pessoa muito tímida na primeira vez que nos vimos e eu estava mais nervoso do que deveria, então trocamos apenas algumas palavras. As respostas dele foram sucintas e pensei que nunca mais nos veríamos. Mas não. Ele me telefonou, fizemos uma nova entrevista e as coisas melhoraram, a ponto de sermos amigos desde então.
Nas entrevistas, Woody Allen mostra-se autodepreciativo, embora bastante honesto, mas evita explicar seu lado anti-social. Por que ele nunca vai a festas em sua homenagem e recusa receber prêmios?
Creio que sua timidez crônica seja a resposta. Ele não suporta fazer conversas tolas e detesta prêmios em geral. Diz que os prêmios, de certa forma, prejudicam o artista, argumentando que, se você aceita um prêmio, aceita também a opinião de quem o deu e terá de aceitá-la novamente se essas mesmas pessoas decidirem que seu filme seguinte é um fiasco. Para ele, a platéia-alvo de seus filme é ele mesmo, embora, claro, fique muito feliz quando um filme como Match Point, que é talvez aquele que mais o agrada, faz sucesso junto ao público e tenha ressonância crítica.
Seu livro, como disse, é um álbum que contempla metade da vida de Woody Allen. Além de sexo e sua admiração por filmes europeus, qual é o tema mais freqüente das conversas entre vocês?
Esportes, livros e crianças, além da seus filmes, que ocupam boa parte dessas conversas.
Woody Allen tem algum projeto irrealizado, algo ambicioso que ainda pretende fazer?
Sim, ele gostaria de fazer um filme chamado American Jazz, sobre o desenvolvimento do jazz.
Allen já pensou em escrever a autobiografia, como disse em algumas entrevistas, o que leva automaticamente à pergunta: ele não autorizou a publicação de alguma passagem de seu livro?
Posso garantir que as entrevistas foram publicadas na íntegra, sem edição, em todos os países onde o livro foi lançado. No Brasil, inclusive.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Leia trecho de 'O Africano', um romance de Le Clézio

O Africano é um livro ilustrado com fotos do arquivo particular do seu autor, o agora Prêmio Nobel de Literatura Jean-Marie Gustave Lé Clézio, e conta uma história com traços ficcionais e auto-biográficos narrada por um homem que reconstitui o percurso do seu pai como médico militar nas colônias inglesas em África e ao mesmo tempo procura entender a sua infância passada entre a Europa e o continente africano.

Leia trecho do primeiro capítulo:

“A África era mais o corpo que o rosto. Era a violência das sensações, a violência dos apetites, a violência das estações. A primeira lembrança que tenho deste continente é a de o meu corpo coberto por uma erupção de bolhinhas causadas pelo extremo calor, uma afecção benigna de que os brancos sofrem quando chegam numa zona equatorial, com nomes cômicos como brotoeja ou borbulha. Estou na cabine do navio que avança lentamente pela costa, ao largo de Conakry, Freetown, Monróvia, nu na caminha, a escotilha aberta ao ar húmido e o corpo polvilhado de talco, com a impressão de estar num sarcófago invisível ou de ter sido apanhado como um peixe em puçá e passado na farinha antes de ir à fritura. A África, já me tirando o rosto, dava-me um corpo dolorido e febril, esse corpo que a França me ocultara na doçura anemiante da casa de minha avó, sem instinto, sem liberdade.

O que eu recebia no barco que me arrastava para aquele outro mundo era também a memória. O presente africano apagava tudo que o tinha precedido. A guerra, o confinamento no apartamento de Nice (onde, nos dois cômodos de uma espécie de água-furtada, éramos cinco a viver, aliás seis, contando a empregada Maria, de quem minha avó resolvera não abrir mão), as rações, ou então a fuga na montanha, onde minha mãe se escondia por medo de ser levada pela Gestapo - tudo isso se apagava, desaparecia, tornava-se irreal. Daqui em diante, para mim, só existiria antes e depois da África.

A liberdade, em Ogoja, era o reino do corpo. Ilimitado, o olhar, do alto da plataforma de cimento na qual fora construída a casa, semelhante ao habitáculo de uma barcaça sobre o mar de capim. Se faço um esforço de memória, posso reconstituir as fronteiras vagas desse domínio. Alguém que
houvesse conservado a memória fotográfica do lugar se espantaria com o que um menino de oito anos era capaz de aí ver. Um quintal, sem dúvida, não um jardim recreativo - existiria nessa terra alguma coisa que fosse para recreação? Era mais um espaço utilitário, onde o meu pai tinha plantado fruteiras, mangueiras, goiabeiras, mamoeiros, e que servia de cerca-viva diante da varanda, laranjeiras e limeiras cujas folhas, quase todas, as formigas uniam para fazer ninhos aéreos, repletos de uma espécie de penugem felpuda que abrigava os seus ovos. Em algum canto, mais para trás da casa, no meio do matagal, um galinheiro onde coabitavam galinhas e galinhas-d'angola e cuja existência não me é assinalada senão pela vertical presença no céu de abutres nos quais o meu pai, de vez em quando, atirava com a carabina. Mas digamos que fosse um jardim, já que a um dos empregados da casa cabia o título de garden boy. No outro extremo do terreno é que deviam ficar as choças dos serviçais: o boy, o small boy e sobretudo o cozinheiro, de quem minha mãe gostava e com quem preparava, em vez de pratos à francesa, a sopa de amendoim, as batatas-doces assadas ou o fufu, uma papa de inhame que era o nosso trivial. De quando em quando minha mãe se lançava a experiências com ele, fazendo compotas de goiaba, mamão cristalizado ou ainda sorvetes de frutas não cremosos que ela batia à mão. Nesse quintal, sempre havia crianças, em grande número, que chegavam pela manhã, todos os dias, para conversar e brincar, e das quais só nos separávamos ao cair da noite.

Tudo isso poderia dar a impressão de uma vida colonial muito organizada, quase citadina - ou pelo menos campestre, à moda da Inglaterra ou da Normandia de antes da era industrial. No entanto era a liberdade total do corpo e do espírito. Diante da casa, na direcção oposta ao hospital onde o meu pai trabalhava, começava uma extensão sem horizonte, com uma ligeira ondulação onde o olhar podia se perder. Ao sul, o declive conduzia ao vale nevoento do Aiya, um afluente do rio Cross, e às aldeias, Ogoja, Ijama, Bawop. Para o norte e o leste, eu podia ver a grande planície amarelada, pontilhada de colossais cupinzeiros, cortada por arroios e brejos, e o começo da floresta, as matinhas de gigantescos irokos e okumés, tudo coberto por um céu imenso, uma abóbada de azul muito forte onde o sol ardia e que era invadida, todas as tardes, por nuvens que traziam tempestades.

Lembro-me da violência. Não uma violência secreta, hipócrita, aterrorizante, como a conhecida por todas as crianças que nascem no meio de uma guerra - sair às escondidas, espiar os alemães de capote cinza a roubar os pneus do De Dion-Bouton de minha avó, ouvir remoer num sonho as histórias de tráfico, espionagem, expressões dissimuladas, mensagens do meu pai vindas por intermédio do cônsul dos Estados Unidos, Mr. Ogilvy, e sobretudo a fome, a falta de tudo, o diz-que-diz sobre as primas da minha avó se alimentando de cascas. Aquela violência não era realmente física. Era velada e oculta como uma doença. Minando-me o corpo, causava-me acessos incontíveis de tosse e dores de cabeça tão fortes que eu até me escondia, punhos enfiados nas órbitas, sob a longa toalha da mesinha de canto.

Ogoja dava-me outra violência, real, às claras, que fazia vibrar o meu corpo e era visível em todos os detalhes da vida e da natureza circundante. Temporais como depois nunca vi, nem sequer em sonho, o negrume do céu zebrado pelos raios, o vento que envergava as grandes árvores ao redor do quintal, que arrancava as palmas do tecto, rodopiava na sala de jantar, passando por debaixo das portas, e apagava os lampiões a querosene. Algumas noites, um vento vermelho, vindo do norte, dava brilho às paredes. Uma força eléctrica que eu tinha de aceitar, de domar, e em relação à qual minha mãe inventara uma brincadeira, contar os segundos que nos separavam do impacto do trovão, ouvi-lo aproximar-se, quilômetro após quilômetro, e depois se afastar para as montanhas. Uma tarde, quando o meu pai operava no hospital, um raio entrou pela porta e, sem barulho, se difundiu pelo chão, derretendo os pés metálicos da mesa de operação e queimando as solas de borracha das sandálias dele; depois o raio recompôs-se e, como um ectoplasma, fugiu por onde havia entrado para reintegrar-se ao fundo do céu. A realidade estava nas lendas.(X)

sábado, 23 de agosto de 2008

Celebridade, Obama pode ser o primeiro negro na Casa Branca



O candidato democrata à Casa Branca nasceu no Havaí e cresceu entre os Estados Unidos e a Indonésia. Em janeiro do ano passado, o senador Barack Hussein Obama, filho de um negro queniano e de uma americana branca, decidiu concorrer à Presidência. Durante quase um ano e meio, Obama, de 47 anos, enfrentou uma acirrada disputa pela indicação do Partido Democrata, que culminou nas eleições primárias, quando desafiou o favoritismo da rival Hillary Clinton. A 3 de junho, após uma sessão das primárias que foi até o último pleito, o senador venceu a batalha, assegurou a nomeação da legenda e tornou-se o primeiro negro a disputar a Presidência dos EUA.

A primeira aparição nacional de Obama, uma figura popular do Partido Democrata, foi num discurso que agitou a convenção nacional da legenda em 2004. O senador enfatizou a sua história pessoal num pronunciamento que reflectia os tradicionais ideais do sonho e esperança americana. "Pelo seu trabalho duro e perseverança, o meu pai conseguiu uma bolsa de estudos num lugar mágico - a América, que apareceu como um farol da liberdade e oportunidade para muitos outros que vieram antes", disse.

Meses depois, Obama teve uma vitória esmagadora e elegeu-se senador pelo Estado de Illinois. Desde então, o candidato democrata ganhou projecção na mídia americana e tornou-se um dos políticos mais conhecidos de Washington.

Trajetória

Após o nascimento de Obama, o seu pai, de mesmo nome, voltou ao Quênia. O democrata ficou com a sua mãe no Havaí e passou alguns anos na Indonésia. Mais tarde, Obama mudou-se para Nova Iorque, onde se formou pela Universidade de Columbia em 1983. Aqui graduou-se em direito e foi viver em Chicago em 1985, onde se tornou líder comunitário.


O sucesso das suas acções na comunidade levou o senador para a política. Em Chicago, ele trabalhou como professor de direito e defensor dos direitos civis. Durante a sua passagem pela Universidade de Harvard, entre 1988 e 1991, Obama tornou-se no primeiro negro a presidir o jornal interno da instituição.

Em outubro de 1992 casou-se com Michelle Obama, com quem teve duas filhas - Malia Ann, que nasceu em 1998, e Natasha, em 2001. Em 2004, já eleito senador, actuou como um forte defensor dos ideais liberais, mas também trabalhou com os seus colegas republicanos em outro projectos, sobretudo na consciencialização e prevenção da Sida.

Campanha

O lema da campanha presidencial de Obama é a mudança. Aproveitando-se da baixa popularidade do actual presidente George W. Bush, membro do Partido Republicano, o democrata propõe, entre outras questões, mudanças na política externa, no sector energético e na economia dos EUA.

Nas eleições de 2004, o eleitorado, ainda assombrado com o terrorismo, priorizava o debate sobre a segurança nacional, o que rendeu a reeleição de Bush e a continuidade da sua guerra contra o terrorismo. Neste pleito, a economia aparece no topo da lista das preocupações dos americanos, e Obama, de acordo com pesquisas recentes, sai-se melhor nesse quesito do que o rival republicano John McCain.



Apesar do seu pai e padrasto serem muçulmanos, o senador se diz cristão, e estudou em escolas católicas ou seculares. Durante as eleições primárias, Obama afastou-se da Igreja Unida Trindade de Cristo, após o pastor, Jeremiah Wright, ganhar destaque na mídia americana com os seus discursos controversos. Wrigh, que realizou o casamento do candidato democrata e baptizou as suas duas filhas, chegou a dizer que os EUA inventaram o HIV para exterminar as minorias. Em março, Obama, membro da igreja por quase duas décadas, anunciou o seu afastamento e condenou os sermões do reverendo.

Questão racial


Ao longo da corrida presidencial, a questão racial permeou a campanha de Obama.

Num discurso em março na Filadélfia, o senador falou abertamente sobre o assunto, ao rejeitar as palavras de Jeremiah Wright, que pouco antes havia feito um sermão da temática racial.

"No primeiro ano desta campanha, contrariando todas as previsões, nós vimos o quanto o povo americano está faminto por uma mensagem de unidade. Apesar da tentação de enxergar a minha candidatura exclusivamente pela óptica racial, conquistamos vitórias incontestáveis em Estados onde a população é predominantemente branca", disse Obama no discurso.

"Isso não implica dizer que a raça não tenha um papel nesta campanha. Em vários momentos, a imprensa definiu-me como negro demais ou negro de menos. Vimos essa questão ganhar forte repercussão na semana da primária da Carolina do Sul. A mídia vem procurando em todas as pesquisas de boca-de-urna os indícios da divisão racial", completou.

Popstar

Em julho, o senador democrata foi recebido como um astro pop em Berlim. Perante um público estimado em 200 mil pessoas, houve quem subisse em postes para ouvir o discurso de Obama junto à Colina da Vitória, no centro da capital alemã. A viagem foi parte de um périplo pela Europa e Médio Oriente, acompanhada com destaque pela imprensa internacional.

Nos EUA, o seu carisma resultou na "Obamamania". Os discursos do candidato no país são sempre acompanhados por empolgados eleitores. Muitos deles são jovens, que se identificam com a mensagem de mudança da campanha democrata.

Além da actuação na política, Obama é um escritor de sucesso. Os seus livros - A Audácia da Esperança (2007), A Origem dos Meus Sonhos (2008) e Dreams From My Father (2004) - tornaram-se best-sellers nos Estados Unidos.

Quando tem um tempo livre, o candidato democrata disse à revista especializada em música Rolling Stone que recorre ao seu aparelho de MP3 para ouvir Stevie Wonder, Bob Dylan, Yo-Yo Ma e Sheryl Crow. "Tenho gostos muito ecléticos", ressalta Obama, que cresceu na década de 70 escutando Stevie Wonder, Rolling Stones e Elton John. Alguns dos seus artistas favoritos expressaram publicamente apoio à sua candidatura presidencial, entre eles Bruce Springsteen e Bob Dylan.